Sempre me orgulhei: fui o primeiro de meus amigos a
possuir computador pessoal. Haja tempo! Aconteceu há
cerca de duas décadas. À máquina era um trambolho com
programas complicados. E lentíssima! Nas redações de
revistas e jornais usava-se máquina de escrever.
Orgulhoso, eu me considerava adaptado aos novos
tempos cibernéticos. Os programas para digitar textos
foram se tornando mais fáceis. Ainda me considerava uma
sumidade em tecnologia, até ver um garotinho de 8 anos
baixar programas de celular. Que vergonha! Eu sou do
tipo que quase consegue baixar um programa. Mas no último segundo vem uma pergunta a que não sei
responder. Uma vez o celular travou. Muitas, o proprio
computador. Mas o menininho teclava como se não
tivesse feito outra coisa na vida.
Tudo está se tornando complicado demais. Eu me
confundo até com o controle remoto da televisdo e do
DVD. Não é brincadeira: se coloco um filme, vem a
imagem, mas não o som. Ou consigo ouvir os diálogos,
mas a tela fica preta. No carro, quase enlouqueço se
alguém tira da minha estação predileta. Escapei de bater
tentando captar musica cléssica. Já consigo falar no meu
celular, mandar torpedos e fotografar. Só me atrapalho
para achar um endereço no Google em menos de dez
minutos!
Entrei com cautela no universo das redes de
relacionamento. Logo fiquei fascinado. Há alguns anos era
louco pelo Orkut. Criei um grupo de amigos. Todas as
noites nos encontrávamos virtualmente. A relação se
tornou tão próxima que certa vez convidei dez amigos
virtuais para jantar em casa. De sobremesa, servi bolo
com uma miniatura de mim mesmo e morcegos de glacê -
como só entrava de madrugada, chamavam-me
carinhosamente de Morcegão. Algumas dessas pessoas
permanecem na minha vida até hoje. Do Orkut, eu me
distanciei. Não fui o único. Passei a ouvir com frequência o
termo "orkuticidio". Isso acontece quando a pessoa elimina
sua página e abandona seus contatos. Isso eu não
cheguei a fazer. Já não entro todos os dias.
Surgiram novos sites de relacionamento, com mais
ferramentas, como o Facebook e o Twitter. O Orkut reagiu:
transformou-se, abrindo novas possibilidades de interação.
Imagino os milhões de dólares gastos para reprogramar o
site. Tentei, mas não consegui me adaptar ao novo Orkut.
Voltei ao antigo. Muita gente que conheço fez o mesmo.
Ou abandonou de vez. "Ficou muito complicado"- foi a
frase que mais ouvi. Embora, na prática, seu nível de
dificuldade tenha se tornado semelhante ao do Facebook,
para onde essas pessoas migraram. E o Second Life? Foi
uma febre! Havia até disputa para "comprar" avenidas,
anunciar nas ruas do universo virtual. Imagino que muita
gente ainda se divirta com ele, mas não conheço ninguém.
Agora o Twitter lançou uma nova versão. Tentei
incorporá-la. Duas horas depois, irritado, voltei à anterior.
Muitas pessoas que me seguem também não se
adaptaram. Melhor dizendo: assustam-se somente os
mais velhos. Crianças e jovens adaptam-se facilmente. A
cada complicação, eu me sinto mais excluído. "Ah, eu não sabia" tornou-se uma frase comum no meu vocabulário.
Sou louco pela internet. Como não ficar para trás? Daqui a
pouco vou ter de tomar aulas para entender as novidades!
Talvez meu "professor" tenha 8 ou 9 anos de idade! É um
mistério: como crianças que mal sabem ler e escrever são
capazes de entender programas complexos? E uma nova
evolução da espécie, que desembarca no mundo com
cérebro cibernético? E eu, sou um dinossauro em
extinção?
Disponivel em: <<https://vejasp.abril.com.br/cidades/dinossaurona-internet>>. Acesso em: 18 de outubro de 2024.
Observe o trecho "(...) chamavam-me carinhosamente de Morcegão." 3º §. Assinale a opção em que NÃO há, no
vocábulo sublinhado, um processo de derivação da
mesma classe gramatical como se verifica na palavra
destacada acima.