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Q3221181 Português

ÁGUAS DO MAR 


    Aí está ele, o mar, a mais ininteligível das existências não humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar.


    Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões.


    Ela olha o mar, é o que pode fazer. Ele só lhe é delimitado pela linha do horizonte, isto é, pela sua incapacidade humana de ver a curvatura da terra.


    São seis horas da manhã. Só um cão livre hesita na praia, um cão negro. Por que é que um cão é tão livre? Porque ele é o mistério vivo que não se indaga. A mulher hesita porque vai entrar.


    Seu corpo se consola com sua própria exiguidade em relação à vastidão do mar porque é a exiguidade do corpo que o permite manter-se quente e é essa exiguidade que a torna pobre e livre gente, com sua parte de liberdade de cão nas areias. Esse corpo entrará no ilimitado frio que sem raiva ruge no silêncio das seis horas. A mulher não está sabendo: mas está cumprindo uma coragem. Com a praia vazia nessa hora da manhã, ela não tem o exemplo de outros humanos que transformam a entrada no mar em simples jogo leviano de viver. Ela está sozinha. O mar salgado não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização. Nessa hora ela se conhece menos ainda do que conhece o mar. Sua coragem é a de, não se conhecendo, no entanto, prosseguir. É fatal não se conhecer, e não se conhecer exige coragem.


    Vai entrando. A água salgada é de um frio que lhe arrepia em ritual as pernas. Mas uma alegria fatal - a alegria é uma fatalidade - já a tomou, embora nem Ihe ocorra sorrir. Pelo contrário, está muito séria. O cheiro é de uma maresia tonteante que a desperta de seus mais adormecidos sonos seculares. E agora ela está alerta, mesmo sem pensar, como um caçador está alerta sem pensar. A mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda - e abre caminho na gelidez que, líquida, se opõe a ela, e no entanto a deixa entrar, como no amor em que a oposição pode ser um pedido.


    O caminho lento aumenta sua coragem secreta. E de repente ela se deixa cobrir pela primeira onda. O sal, o iodo, tudo líquido, deixam-na por uns instantes cega, toda escorrendo - espantada de pé, fertilizada.


    Agora o frio se transforma em frígido. Avançando, ela abre o mar pelo meio. Já não precisa da coragem, agora já é antiga no ritual. Abaixa a cabeça dentro do brilho do mar, e retira uma cabeleira que sai escorrendo toda sobre os olhos salgados que ardem. Brinca com a mão na água, pausada, os cabelos ao sol quase imediatamente já estão se endurecendo de sal. Com a concha das mãos faz o que sempre fez no mar, e com a altivez dos que nunca darão explicação nem a eles mesmos: com a concha das mãos cheias de água, bebe em goles grandes bons.


    E era isso o que lhe estava faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem. Agora ela está toda igual a si mesma. A garganta alimentada se constringe pelo sal, os olhos avermelham-se pelo sal secado pelo sol, as ondas suaves lhe batem e voltam pois ela é um anteparo compacto.


    Mergulha de novo, de novo bebe, mais água, agora sem sofreguidão pois não precisa mais. Ela é a amante que sabe que terá tudo de novo. O sol se abre mais e arrepia-a ao secá-la, ela mergulha de novo: está cada vez menos sôfrega e menos aguda. Agora sabe о que quer. Quer ficar de pé parada no mar. Assim fica, pois. Como contra os costados de um navio, a água bate, volta, bate. A mulher não recebe transmissões. Não precisa de comunicação.


    Depois caminha dentro da água de volta à praia. Não está caminhando sobre as águas - ah nunca faria isso depois que há milênios já andaram sobre as águas - mas ninguém lhe tira isso: caminhar dentro das águas. As vezes o mar lhe opõe resistência puxando-a com força para trás, mas então a proa da mulher avança um pouco mais dura e áspera. 

 

   E agora pisa na areia. Sabe que está brilhando de água, e sal e sol. Mesmo que o esqueça daqui a uns minutos, nunca poderá perder tudo isso. E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos escorridos são de náufrago. Porque sabe - sabe que fez um perigo. Um perigo tão antigo quanto o ser humano.


LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro:

Editora Rocco, 2020

Assinale a opção em que o termo retomado pelo pronome relativo "que" foi destacado corretamente.
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central: Pronomes relativos, especificamente a relação entre o pronome “que” e seu antecedente na estrutura das orações subordinadas adjetivas. O domínio desse conceito é fundamental para a interpretação correta de textos e para a coesão textual, competências cobradas nos concursos da Marinha Mercante.

Alternativa correta: E

Nesta alternativa, vemos a expressão “o que quer”. Segundo a norma-padrão (Cunha & Cintra; Bechara), nessa construção, “o” é um pronome demonstrativo substantivado, funcionando como antecedente do pronome relativo “que”. Isso ocorre com frequência em frases como: “Só entendi o que ele disse”. Aqui, "o" representa “aquilo”, e "que" retoma esse termo. Logo, a alternativa E corretamente destaca o termo retomado por “que”.

Análise das alternativas incorretas:

A) O termo destacado é “compreensões”, mas, no trecho, “que” é antecedido pela preposição “com”, e retoma o termo “confiança”, não “compreensões”. Há erro na identificação do antecedente.

B) O termo destacado é “corpo”, porém o antecedente do relativo nesta frase é “exiguidade do corpo” (expressão completa), não somente “corpo”. Além disso, a presença do pronome “o” antes do verbo “permite” não condiz com gênero e número do termo “exiguidade”.

C) O termo destacado “salgada” é um adjetivo de “água”, e não antecedente do “que”. O correto seria “frio”, pois o sentido é: “um frio que lhe arrepia as pernas”.

D) Destaca “oposição”, mas o antecedente de “que”, neste contexto, é “amor” (“no amor em que…”). O termo destacado não corresponde ao que efetivamente o relativo retoma.

Estratégia: Sempre relacione o pronome ao termo imediatamente anterior que faria sentido na frase caso o pronome fosse substituído por ele. Essa técnica, recomendada em gramáticas normativas (Bechara; Cunha & Cintra), ajuda a evitar confusões em textos mais densos.

Resumo: O pronome relativo estabelece uma relação de coesão, ligando o termo antecedente à oração adjetiva. A alternativa E é a única que identifica corretamente o termo retomado por "que" (“o que” = “aquilo que”).

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Comentários

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Pronome relativo, se refere a uma palavra que foi utilizada na mesma oração, e interliga com todo verbo reminado em R, fazer, beber...

No caso letra (E) "Menos" foi utilizada 2×

nossa essas questões que o pronome QUE retoma, é muito sem sentido.

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