Não há morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de
duas formas, pode determinar a supressão de uma delas; mas, rigorosamente, não há morte, há vida, porque a
supressão de uma é a condição da sobrevivência da outra, e a destruição não atinge o princípio universal e comum.
Daí o caráter conservador e benéfico da guerra.
Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos,
que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as
duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição.
A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os
despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações
bélicas.
Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só
comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma
ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.
[...]
DE ASSIS, M. Quincas Borba. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira/INL, 1976. (Fragmento).
A obra machadiana, representada por seus romances e contos, possui duas fases e o livro
“Quincas Borba” se encontra na fase da maturidade de Machado, a qual se estabelece,
essencialmente, por possuir um teor problematizador, levantando indagações sobre a
existência humana, que acaba por ampliar os limites criativos da própria literatura. Nesse
contexto, a partir de discussões de vários críticos literários, é muito limitador estabelecer uma
Escola Literária única para o autor em questão, contudo, tendo em vista os fatores históricos e
características pontuais como as mencionadas, deve-se depreender que a obra é: