Questões Militares Sobre português
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Leia o texto e responda a questão.
Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no brago esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no ultimo Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saida da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou as mãos de outra menininha da familia, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquério? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores
Crônicas. Disponível em:
)
I - De acordo com o novo acordo ortográfico, em muitos compostos, o advérbio bem deve aparecer aglutinado ao segundo elemento, quer este tenha ou não vida à parte, quando o significado primitivo dos termos é alterado.
Il - Com os advérbios bem-, emprega-se o hifen em todos os compostos sem elementos de ligação, quando o elemento seguinte começa por vogal ou consoante.
IIl - Em compostos com valor de adjetivo ou interjeição, o emprego do hifen é obrigatorio.
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Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no brago esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no ultimo Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saida da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou as mãos de outra menininha da familia, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquério? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores
Crônicas. Disponível em:
)
Leia o texto e responda a questão.
Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no brago esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no ultimo Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saida da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou as mãos de outra menininha da familia, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquério? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores
Crônicas. Disponível em:
)
Leia o texto e responda a questão.
Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no brago esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no ultimo Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saida da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou as mãos de outra menininha da familia, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquério? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores
Crônicas. Disponível em:
)
“Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então." (4°§)
Leia o texto e responda a questão.
Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no brago esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no ultimo Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saida da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou as mãos de outra menininha da familia, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquério? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores
Crônicas. Disponível em:
)
Leia o texto e responda a questão.
Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no brago esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no ultimo Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saida da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou as mãos de outra menininha da familia, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquério? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores
Crônicas. Disponível em:
)
“[...] Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, [...]" (8°§)
Assinale a opção correta sobre o valor semântico da preposição sublinhada.
Leia o texto e responda a questão.
Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no brago esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no ultimo Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saida da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou as mãos de outra menininha da familia, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquério? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores
Crônicas. Disponível em:
)
Leia o texto e responda a questão.
Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no brago esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no ultimo Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saida da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou as mãos de outra menininha da familia, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquério? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores
Crônicas. Disponível em:
)
I- O narrador faz suposições sobre o comportamento da menina da fotografia e admite hipotéticamente que a garota tenta esconder a sua felicidade.
II- O narrador é o personagem secundário da história. Ele conta o que viu na velha fotografia com um grande efeito de subjetividade.
III- O narrador está convicto de que a menina da fotografia esqueceu esse dia. Embora não a conheça, a admira abundantemente.
Assinale a opção correta com relação às afirmativas acima.
Leia o texto e responda a questão.
Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no brago esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no ultimo Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saida da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou as mãos de outra menininha da familia, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquério? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores
Crônicas. Disponível em:
)
Leia o texto e responda a questão.
Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no brago esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no ultimo Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saida da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou as mãos de outra menininha da familia, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquério? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores
Crônicas. Disponível em:
)
Leia o texto e responda a questão.
Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no brago esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no ultimo Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saida da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou as mãos de outra menininha da familia, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquério? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores
Crônicas. Disponível em:
)
Leia o texto e responda a questão.
Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no brago esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no ultimo Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saida da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou as mãos de outra menininha da familia, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquério? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores
Crônicas. Disponível em:
)
"Já disse que o vestido é branco.” (4°§)
Pode-se afirmar que o enunciado acima é empregado para auxiliar na manutenção de que tipo de coerência?
Leia o texto e responda a questão.
Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no brago esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no ultimo Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saida da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou as mãos de outra menininha da familia, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquério? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores
Crônicas. Disponível em:
)
Leia o texto e responda a questão.
Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no brago esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no ultimo Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saida da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou as mãos de outra menininha da familia, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquério? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores
Crônicas. Disponível em:
)
Leia o texto e responda a questão.
Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no brago esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no ultimo Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saida da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou as mãos de outra menininha da familia, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquério? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores
Crônicas. Disponível em:
)
Leia o texto e responda a questão.
Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no brago esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no ultimo Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saida da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou as mãos de outra menininha da familia, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquério? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores
Crônicas. Disponível em:
)
TEXTO I
Fragmento I

(Adaptado de: A importância da Lei Geral de Proteção de Dados no Comércio Exterior. Disponível em: https://www.domaniconsultoria.com.br. Acesso em: 26/03/2025).
Fragmento II
Nanotecnologias e proteção dos dados pessoais: um diálogo necessário


(Disponível em: https://www.jota.info/artigos/nanotecnologias-e-protecao-dosdados-pessoais-um-dialogo-necessario. Acesso em: 28/02/2025. Adaptado).
Fragmento III
Especialista alerta para os riscos do uso da íris como credencial de segurança

(Adaptado de: Especialista alerta para os riscos do uso da íris como credencial de segurança. Disponível em: https://www.contabeis.com.br/noticias. Acesso em: 13/03/2025).
TEXTO II
FRANKENSTEIN


(Adaptado de - SHELLEY, Mary. Frankenstein – uma história de Mary Shelley.Trad. Ruy Castro. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. p. 11-19).
TEXTO III

(Vida de suporte. Proteção de Dados. Publicado em 10/12/2020 em Publieditorial, SUPORTE - A Série. Acesso em: 20/02/2025).
TEXTO IV
O trecho a seguir é um fragmento extraído do artigo “O Alienista: loucura, poder e ciência.”
O corpo da disciplina


(Adaptado de: GOMES, Roberto. O Alienista: loucura, poder e ciência. Tempo social. Rev, Sociol. USP. São Paulo Paulo,v. 5 (1-2): 156-157, 1993)
I. No texto II, o narrador demonstra ficar aterrorizado perante a deterioração do corpo, a partir da morte; fato que se repete nas literaturas de horror que se criaram a partir de Frankenstein.
II. Simão Bacamarte transforma Itaguaí em uma espécie de laboratório, bem como seus moradores em objetos de investigação. O personagem demonstra igual fascínio pela ciência, encontrado em Victor Frankenstein e, para ambos, não há limites para a pesquisa.
III. As pesquisas elaboradas, a partir de dados bioquímicos, a exemplo do texto I e seus fragmentos, não são similares àquelas que relacionam ciência, morte e matéria, a exemplo do texto II; pois, para a cultura de dados, há limites impostos.
IV. O sistema de dados corporativos e o econômico digital também podem ser inseridos nas discussões acerca do tratamento, armazenamento e veiculação de dados; tal como os dados bioquímicos, eles também requerem regulamentação.
Está(ão) correta(s)




“A loucura, objeto de meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão. Começo a suspeitar que é um continente [...]” (l. 22 - 24)
Considerando o enunciado acima, no que se refere ao seu (con)texto, o locutor empreende relações entre alguns elementos, por meio de figuras de linguagem, para atribuir sentido ao termo loucura, cujos termos correspondentes são

