— Vá para o inferno, Gondim. Você acanalhou o troço. Está p...
Azevedo Gondim apagou o sorriso, engoliu em seco, apanhou os cacos da sua pequenina vaidade e replicou amuado que um artista não pode escrever como fala. — Não pode?
— perguntei com assombro. E por quê? Azevedo Gondim respondeu que não pode porque não pode.
— Foi assim que sempre se fez. A literatura é a literatura, seu Paulo. A gente discute, briga, trata de negócios naturalmente, mas arranjar palavras com tinta é outra coisa. Se eu fosse escrever como falo, ninguém me lia.
RAMOS, G. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 2009.
Nesse fragmento, a discussão dos personagens traz à cena um debate acerca da escrita que
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Gabarito: D
Tema central da questão:
O fragmento do romance de Graciliano Ramos aborda a tensão entre o preciosismo linguístico (uso rebuscado da linguagem) e a busca por uma expressão mais coloquial (próxima da fala cotidiana) na produção literária. Trata-se de um debate constante na história da literatura: a escrita deveria se distanciar ou se aproximar da linguagem falada?
Conceitos essenciais:
O preciosismo linguístico consiste em empregar uma linguagem rebuscada, formal ou artificial, muitas vezes considerada distante da realidade ou da comunicação espontânea. Coloquialidade, por sua vez, indica o uso de uma expressão mais próxima da fala, com naturalidade e espontaneidade. O Modernismo brasileiro valorizou, a partir da década de 1930, a aproximação entre a literatura e a oralidade, como resposta ao formalismo dos períodos anteriores.
Justificativa da alternativa correta (D):
A alternativa D afirma que há uma contraposição entre preciosismo linguístico e situações de coloquialidade. Isso fica evidente no diálogo: enquanto Gondim defende uma escrita diferenciada da fala comum, Paulo Honório critica essa postura, pedindo mais naturalidade e colocando em xeque a “escrita bonita”. Assim, a questão trata claramente do confronto entre o rebuscamento artificial e a linguagem coloquial — exatamente o que é enunciado na alternativa D.
Análise das alternativas incorretas:
A) Fala em diferenciação do artístico do “registro padrão”, mas nada no texto aponta para confronto com a norma culta, e sim com um excesso de formalismo.
B) Sugere aproximação com dialetos de prestígio reduzido, o que não é o foco: o debate centra-se nas escolhas estilísticas entre coloquialidade e preciosismo.
C) Embora comente sobre “relação entre fala e estilo”, não capta o cerne da oposição entre rebuscamento e fala cotidiana.
E) A questão não trabalha conflitos pessoais relacionados à norma culta, e sim opções estilísticas do autor.
Estratégia para provas:
Leia atentamente o diálogo, identificando contraposições e justificativas de cada personagem. Questões desse tipo costumam usar termos próximos para gerar confusão. Foque na essência do debate: preciosismo x coloquialidade!
Referência: O tema é tratado em obras de referência como Literatura Brasileira: dos primeiros cronistas aos últimos romancistas (Massaud Moisés) e Manual de Teoria Literária (Fiama Hasse Pais Brandão), reforçando a predominância do confronto entre estilo rebuscado e expressão naturalista.
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Comentários
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Alternativa D - Nesse fragmento, a discussão dos personagens traz à cena um debate acerca da escrita que aborda um debate sobre como a escrita deve ser feita, especificamente questionando se a linguagem usada deve ser rica, elaborada e formal (preciosismo) ou mais natural e informal, como a linguagem cotidiana (coloquialidade).
Alternativas
A diferencia a produção artística do registro padrão da língua.
❌ Não se trata do registro padrão, mas do contraste entre linguagem artificial/rebuscada e linguagem comum.
B aproxima a literatura de dialetos sociais de pouco prestígio.
❌ Não há menção a dialetos sociais ou preconceito linguístico, mas sim ao tom coloquial x literário rebuscado.
C defende a relação entre a fala e o estilo literário de um autor.
❌ Paulo Honório até questiona isso, mas Gondim nega. O centro do trecho não é a defesa dessa relação, e sim a oposição.
D contrapõe o preciosismo linguístico a situações de coloquialidade.
✅ Correta. Esse é exatamente o núcleo do debate: literatura rebuscada versus escrita próxima da fala.
No trecho de São Bernardo, de Graciliano Ramos, temos um diálogo em que Paulo Honório critica a escrita de Azevedo Gondim por ser artificial, rebuscada, distante da fala comum. Gondim, por sua vez, defende que literatura não pode ser escrita como se fala, mantendo o preciosismo linguístico como modelo.
Isso coloca em cena uma oposição:
de um lado, a linguagem rebuscada, artificial (preciosismo literário);
de outro, a linguagem natural, cotidiana, próxima da oralidade (coloquialidade).
E associa o uso da norma culta à ocorrência de desentendimentos pessoais.
❌ O conflito não é sobre norma culta, mas sobre estilo rebuscado x coloquial.
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