— Vá para o inferno, Gondim. Você acanalhou o troço. Está p...

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Q3159742 Literatura
— Vá para o inferno, Gondim. Você acanalhou o troço. Está pernóstico, está safado, está idiota. Há lá ninguém que fale dessa forma!
Azevedo Gondim apagou o sorriso, engoliu em seco, apanhou os cacos da sua pequenina vaidade e replicou amuado que um artista não pode escrever como fala. — Não pode?
— perguntei com assombro. E por quê? Azevedo Gondim respondeu que não pode porque não pode.
— Foi assim que sempre se fez. A literatura é a literatura, seu Paulo. A gente discute, briga, trata de negócios naturalmente, mas arranjar palavras com tinta é outra coisa. Se eu fosse escrever como falo, ninguém me lia.
RAMOS, G. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 2009.

Nesse fragmento, a discussão dos personagens traz à cena um debate acerca da escrita que
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito: D

Tema central da questão:

O fragmento do romance de Graciliano Ramos aborda a tensão entre o preciosismo linguístico (uso rebuscado da linguagem) e a busca por uma expressão mais coloquial (próxima da fala cotidiana) na produção literária. Trata-se de um debate constante na história da literatura: a escrita deveria se distanciar ou se aproximar da linguagem falada?

Conceitos essenciais:

O preciosismo linguístico consiste em empregar uma linguagem rebuscada, formal ou artificial, muitas vezes considerada distante da realidade ou da comunicação espontânea. Coloquialidade, por sua vez, indica o uso de uma expressão mais próxima da fala, com naturalidade e espontaneidade. O Modernismo brasileiro valorizou, a partir da década de 1930, a aproximação entre a literatura e a oralidade, como resposta ao formalismo dos períodos anteriores.

Justificativa da alternativa correta (D):

A alternativa D afirma que há uma contraposição entre preciosismo linguístico e situações de coloquialidade. Isso fica evidente no diálogo: enquanto Gondim defende uma escrita diferenciada da fala comum, Paulo Honório critica essa postura, pedindo mais naturalidade e colocando em xeque a “escrita bonita”. Assim, a questão trata claramente do confronto entre o rebuscamento artificial e a linguagem coloquial — exatamente o que é enunciado na alternativa D.

Análise das alternativas incorretas:

A) Fala em diferenciação do artístico do “registro padrão”, mas nada no texto aponta para confronto com a norma culta, e sim com um excesso de formalismo.

B) Sugere aproximação com dialetos de prestígio reduzido, o que não é o foco: o debate centra-se nas escolhas estilísticas entre coloquialidade e preciosismo.

C) Embora comente sobre “relação entre fala e estilo”, não capta o cerne da oposição entre rebuscamento e fala cotidiana.

E) A questão não trabalha conflitos pessoais relacionados à norma culta, e sim opções estilísticas do autor.

Estratégia para provas:

Leia atentamente o diálogo, identificando contraposições e justificativas de cada personagem. Questões desse tipo costumam usar termos próximos para gerar confusão. Foque na essência do debate: preciosismo x coloquialidade!

Referência: O tema é tratado em obras de referência como Literatura Brasileira: dos primeiros cronistas aos últimos romancistas (Massaud Moisés) e Manual de Teoria Literária (Fiama Hasse Pais Brandão), reforçando a predominância do confronto entre estilo rebuscado e expressão naturalista.

Gostou do comentário? Deixe sua avaliação aqui embaixo!

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo

Comentários

Veja os comentários dos nossos alunos

Alternativa D - Nesse fragmento, a discussão dos personagens traz à cena um debate acerca da escrita que aborda um debate sobre como a escrita deve ser feita, especificamente questionando se a linguagem usada deve ser rica, elaborada e formal (preciosismo) ou mais natural e informal, como a linguagem cotidiana (coloquialidade).

Alternativas

A diferencia a produção artística do registro padrão da língua. 

❌ Não se trata do registro padrão, mas do contraste entre linguagem artificial/rebuscada e linguagem comum.

B aproxima a literatura de dialetos sociais de pouco prestígio.

❌ Não há menção a dialetos sociais ou preconceito linguístico, mas sim ao tom coloquial x literário rebuscado.

C defende a relação entre a fala e o estilo literário de um autor.

❌ Paulo Honório até questiona isso, mas Gondim nega. O centro do trecho não é a defesa dessa relação, e sim a oposição.

D contrapõe o preciosismo linguístico a situações de coloquialidade.

✅ Correta. Esse é exatamente o núcleo do debate: literatura rebuscada versus escrita próxima da fala.

No trecho de São Bernardo, de Graciliano Ramos, temos um diálogo em que Paulo Honório critica a escrita de Azevedo Gondim por ser artificial, rebuscada, distante da fala comum. Gondim, por sua vez, defende que literatura não pode ser escrita como se fala, mantendo o preciosismo linguístico como modelo.

Isso coloca em cena uma oposição:

de um lado, a linguagem rebuscada, artificial (preciosismo literário);

de outro, a linguagem natural, cotidiana, próxima da oralidade (coloquialidade).

E associa o uso da norma culta à ocorrência de desentendimentos pessoais.

 ❌ O conflito não é sobre norma culta, mas sobre estilo rebuscado x coloquial.

Clique para visualizar este comentário

Visualize os comentários desta questão clicando no botão abaixo