Sempre passo nervoso quando leio minha crônica neste jornal...
O primeiro banho da minha filha foi embalado pela minha voz dizendo, ao fundo, “cuidado, ela ainda é uma coisinha tão pequena”. “Viu só que amor? Nunca vi coisa assim”. O amor que não dá conta de explicação é “a coisa” em seu esplendor e excelência. “Alguma coisa acontece no meu coração” é a frase mais bonita que alguém já disse sobre São Paulo. E quando Caetano, citado aqui pela terceira vez pra defender a dimensão poética da coisa, diz “coisa linda”, nós sabemos que nenhuma palavra definiria de forma mais profunda e literária o quão bela e amada uma coisa pode ser.
“Coisar” é verbo de quem está com pressa ou tem lapsos de memória. É pra quando “mexe qualquer coisa dentro doida”. E que coisa magnífica poder se expressar tal qual Caetano Veloso. Agora chega, porque “esse papo já tá qualquer coisa” e eu já tô “pra lá de Marrakech”.
TATI BERNARDI. Disponível em: www1.folha.uol.com.br. Acesso em: 3 jan. 2024 (adaptado).
O recurso utilizado na progressão textual para garantir a unidade temática dessa crônica é a
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Tema central: Interpretação de texto: coesão textual por reiteração.
Esta questão avalia se você compreende como se mantém a unidade temática em uma crônica por meio da reiteração lexical, ou seja, pela repetição de uma mesma palavra ou seus cognatos, garantindo o destaque de um tema.
Comentando a alternativa correta:
C) Reiteração, marcada pela repetição de uma determinada palavra e de seus cognatos.
No texto, a palavra “coisa” e seus derivados – coisinha, coisar – aparecem diversas vezes. Essa repetição intencional é o principal recurso de coesão para amarrar o texto em torno do seu tema central, como descreve Koch (2004) e confirma Bechara (2009): “reiteração é um mecanismo de coesão que consiste na repetição de unidades lexicais para reforçar ideias”.
Análise das alternativas incorretas:
A) Intertextualidade: O texto cita músicas, sim, mas isto é secundário; o vínculo principal entre os parágrafos se dá pela repetição de “coisa”.
B) Metalinguagem: O texto fala sobre escrever crônicas e as próprias palavras, mas o que traduz a unidade é o recurso reiterativo, não a reflexão sobre o gênero.
D) Conexão: Ainda que “quando” e “porque” criem ligações locais, não são eles que garantem a unidade temática de toda crônica.
E) Pronominalização: Não é a retomada por pronomes que estruturou o texto, mas sim a repetição de “coisa”.
Dica de interpretação: Fique atento à palavra que se repete ou passa por pequenas variações ao longo do todo, pois é comum em textos literários e crônicas o uso da reiteração para criar coesão.
Manual de referência: Segundo Cunha & Cintra, reconhecer relações de coesão por repetição lexical aumenta a segurança na hora de identificar o tema e o recurso central do texto.
Resumo: A alternativa C está correta porque a unidade do texto é construída principalmente pela reiteração da palavra “coisa” e seus cognatos, caracterizando uma coesão lexical.
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Comentários
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✅ Gabarito: C.
A crônica utiliza reiteração como recurso central, repetindo a palavra “coisa” e seus cognatos (como “coisinha”, “coisar”) ao longo do texto. Essa repetição não é redundante, mas estratégica: mantém a unidade temática e revela a riqueza semântica e afetiva do termo em diferentes contextos. É isso que sustenta o fio condutor da crônica.
A) intertextualidade, marcada pela citação de versos de letras de canções.
A letra A está incorreta, pois o texto faz referência a canções, como as de Caetano Veloso, mas a principal estratégia utilizada na crônica é a reiteração da palavra “coisa”, e não a referência direta a essas canções.
B)metalinguagem, marcada pela referência à escrita de crônicas pela autora.
A letra B está incorreta, pois esse não é o recurso principal aqui, pois a autora não está refletindo sobre o próprio processo de escrita da crônica, mas sim sobre o uso de uma palavra e seu significado.
C)reiteração, marcada pela repetição de uma determinada palavra e de seus cognatos.
A letra C está correta, porque, no texto, a autora utiliza a palavra “coisa” de maneira repetitiva e de diferentes formas, estabelecendo uma unidade temática e enfatizando o valor simbólico da palavra. A expressão "coisa" e suas variações, como "coisinha", "coisa linda", "coisar" e "coisa magnífica", são usadas de forma a criar um efeito literário que reforça a ideia de que a palavra tem um significado profundo, transcendendo seu uso comum. Essa repetição contínua ajuda a manter o foco no tema central da crônica, que é justamente a importância da palavra “coisa” e o poder poético que ela pode ter.
D)conexão, marcada pela presença dos conectores lógicos “quando” e “porque” entre orações.
A letra D está incorreta, porque o uso de conectores como “quando” e “porque” não é o foco da crônica, e esses conectores aparecem de forma mais pontual, sem serem o recurso principal para a unidade temática.
E) pronominalização, marcada pela retomada de “minha filha” e “um namorado ruim” pelos pronomes “ela” e “lo”.
A letra E está incorreta, pois o texto não se baseia na retomada de pronomes pessoais como "ela" ou "lo" para estabelecer coesão. O principal recurso de coesão é a reiteração da palavra "coisa".
Reiteração = repetição com propósito (de reforçar, enfatizar ou manter a ideia central).
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