Quanto à construção de sentidos, podemos afirmar que, no po...

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Ano: 2010 Banca: IFG Órgão: IF-GO Prova: IFG - 2010 - IF-GO - Vestibular |
Q1273498 Português
Texto 2
                   Homem Comum
Sou um homem comum
de carne e de memória
de osso e esquecimento
e a vida sopra dentro de mim
pânica
feito a chama de um maçarico
e pode
subitamente
cessar.

Sou como você
feito de coisas lembradas
e esquecidas
rostos e
mãos, o guarda-sol vermelho ao meio-dia
em Pastos-Bons
defuntas alegrias flores passarinhos
facho de tarde luminosa
nomes que já nem sei
bandejas bandeiras bananeiras
tudo
misturado
essa lenha perfumada
que se acende
e me faz caminhar
Sou um homem comum
brasileiro, maior, casado, reservista,
e não vejo na vida, amigo, 
nenhum sentido, senão
lutarmos juntos por um mundo melhor.
Poeta fui de rápido destino.
Mas a poesia é rara e não comove
nem move o pau-de-arara.
Quero, por isso, falar com você,
de homem para homem,
apoiar-me em você
oferecer-lhe o meu braço
que o tempo é pouco
e o latifúndio está aí, matando.

Que o tempo é pouco
e aí estão o Chase Bank,
a IT & T, a Bond and Share,
a Wilson, a Hanna, a Anderson Clayton,
e sabe-se lá quantos outros
braços do polvo a nos sugar a vida
e a bolsa
Homem comum, igual
a você,
cruzo a Avenida sob a pressão do imperialismo.
A sombra do latifúndio
mancha a paisagem
turva as águas do mar
e a infância nos volta
à boca, amarga,
suja de lama e de fome.

Mas somos muitos milhões de homens
comuns
e podemos formar uma muralha
com nossos corpos de sonho e margaridas.
Gullar, F. Dentro da noite veloz. Civilização Brasileira, 1975; 3ª ed.,
José Olympio, 1998. In: Toda poesia. José Olympio, 12ª ed., 2002.
Quanto à construção de sentidos, podemos afirmar que, no poema:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a progressão temática do poema: o eu-lírico se autocaracteriza como "homem comum" e se iguala ao interlocutor para, em seguida, convocar a ação coletiva. Isso se evidencia em "Sou um homem comum", "Sou como você", "Homem comum, igual / a você", "lutarmos juntos por um mundo melhor" e "podemos formar uma muralha"; por isso, a alternativa correta é a que reconhece a identificação com o homem comum e a finalidade mobilizadora da fala.

Tema central: identificação e luta coletiva
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa inventa uma situação que o texto não apresenta: não há narrativa de encontro concreto entre poeta e homem comum, nem ruptura com o cotidiano para viver um dia de liberdade. O que existe é interlocução direta e convocação: "Quero, por isso, falar com você, / de homem para homem". Além disso, a progressão temática do poema vai para a luta social, não para uma experiência individual de libertação.
B
Errada
Está errada porque transforma coexistência em oposição. As imagens da natureza, da memória e do lirismo não descaracterizam a necessidade de mobilização; elas compõem a figura do homem comum enquanto o poema mantém a denúncia social e a conclamação à ação. Isso fica incompatível com trechos como "lutarmos juntos por um mundo melhor" e "podemos formar uma muralha".
C
Certa
A voz do eu-lírico se apresenta como igual ao interlocutor, em fórmulas explícitas de identificação como "Sou como você" e "Homem comum, igual / a você", e usa essa aproximação para conclamar à união e à luta: "lutarmos juntos por um mundo melhor" e "podemos formar uma muralha". A alternativa, portanto, reconhece a autocaracterização e a finalidade mobilizadora da fala.
D
Errada
A leitura de fuga da realidade não se sustenta no contexto do poema. O desfecho "podemos formar uma muralha / com nossos corpos de sonho e margaridas" não propõe escapismo; nele, a imagem do sonho está integrada à resistência coletiva. O verbo "podemos formar" é decisivo, porque indica ação organizada diante da exploração denunciada no texto.
E
Errada
A alternativa contradiz diretamente o sentido do poema. A figura do "homem comum" não aparece como conformada ao estado de coisas, mas como sujeito de possível reação coletiva. O texto rejeita a passividade ao afirmar "lutarmos juntos por um mundo melhor" e "podemos formar uma muralha". A precariedade da condição social, no poema, funciona como base da mobilização, não da resignação.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre "homem comum" e sujeito conformado ou passivo, quando o poema faz o contrário: constrói essa figura como destinatário de uma convocação à união e à luta; também tenta induzir a leitura de "sonho" e das imagens líricas como fuga, embora o contexto seja de resistência.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o texto repete fórmulas como "Sou como você" e "igual / a você", verifique se a autodescrição serve para criar identificação com o interlocutor.
  • Observe o fecho do texto: verbos e expressões como "lutarmos juntos" e "podemos formar" mostram se o sentido final é passividade ou mobilização.
  • Não oponha automaticamente imagens poéticas e crítica social; confirme pelo contexto se o lirismo enfraquece a denúncia ou se está a serviço dela.

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