Uma característica do estilo de Machado de Assis que pode s...

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Ano: 2018 Banca: VUNESP Órgão: UNIVESP Prova: VUNESP - 2018 - UNIVESP - Vestibular |
Q1686591 Literatura
Leia o trecho de Dom Casmurro, de Machado de Assis, para responder a questão.

    Ezequiel, quando começou o capítulo anterior, não era ainda gerado; quando acabou era cristão e católico. Este outro é destinado a fazer chegar o meu Ezequiel aos cinco anos, um rapagão bonito, com os seus olhos claros, já inquietos, como se quisessem namorar todas as moças da vizinhança, ou quase todas.
   Agora, se considerares que ele foi único, que nenhum outro veio, certo nem incerto, morto nem vivo, um só e único, imaginarás os cuidados que nos deu, os sonos que nos tirou, e que sustos nos meteram as crises dos dentes e outras, a menor febrícula, toda a existência comum das crianças. A tudo acudíamos, segundo cumpria e urgia, cousa que não era necessário dizer, mas há leitores tão obtusos, que nada entendem, se lhes não relata tudo e o resto. Vamos ao resto. (Dom Casmurro. São Paulo, Globo, 1997) 
Uma característica do estilo de Machado de Assis que pode ser observada nesse trecho diz respeito ao modo como o narrador
Alternativas

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Tema central da questão: Características estilísticas do narrador machadiano, principalmente a metalinguagem e o diálogo direto com o leitor, analisadas a partir de um trecho de Dom Casmurro.

Explicação teórica: Machado de Assis, considerado um dos maiores escritores do Realismo no Brasil, tem como marca estilística o narrador que interage e conversa com o leitor. Trata-se de uma postura metalinguística em que o narrador não apenas conta a história, mas reflete sobre o próprio ato de narrar. Utiliza vocativos, ironias e comentários sobre os próprios leitores e o processo de escrita.

No trecho apresentado, percebe-se nitidamente essa postura quando o narrador afirma: “há leitores tão obtusos, que nada entendem, se lhes não relata tudo e o resto. Vamos ao resto.” Aqui, o narrador interrompe a narrativa, fazendo um comentário sobre sua própria escrita e interpelando o leitor.

Análise das alternativas:

A) Incorreta. O narrador descreve traços psicológicos e físicos do personagem (“olhos claros”, “inquietos”), não se limita apenas à psicologia.
B) Errada. O trecho relata experiências pessoais, não coletivas. São situações familiares, não de caráter coletivo.
C) Correta. O narrador, de forma metalinguística, faz comentários sobre o texto e conversa com o leitor, evidenciando a interlocução direta e a ironia — uma marca registrada do estilo de Machado de Assis.
D) Incorreta. O narrador demonstra, sim, envolvimento afetivo ao relatar o amor e os cuidados com o filho, revelando emoção, não neutralidade.
E) Errada. O narrador emite diversos juízos de valor, como ao chamar os leitores de “obtusos”, mostrando subjetividade e julgamento.

Estratégia de interpretação: Fique atento à linguagem do narrador nos textos de Machado de Assis. Se houver comentários sobre o próprio texto, referências ao leitor ou ironia, são fortes indícios do discurso metalinguístico e da interlocução com o leitor. Evite cair em pegadinhas que afirmam neutralidade, isenção emocional ou exclusividade psicológica/física quando o texto apresenta diversidade de elementos.

Resumo: A alternativa C é a certa pois evidencia a metalinguagem e a conversa direta entre narrador e leitor, elementos próprios do estilo de Machado de Assis.

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GAB: C

UMA CARACTERÍSTICA CLARA DO AUTOR

O autor criticou vários valores burgueses por meio de ironias e metalinguagens. Precedendo não só o próprio realismo, instaurou o realismo psicológico, claramente visto em seus romances por fazer diálogos diretos com o leitor e também por conta de pensamentos pontuais que surgem ao longo da narrativa como uma reflexão sobre os acontecimentos que se passam no romance, similar à quebra da quarta parede no teatro, quando o ator cria um diálogo direto com o espectador. Machado tratava com frequência sobre a ascensão social e a manutenção das aparências sociais por meio de críticas à burguesia, dando luz ao realismo brasileiro. Suas obras, recheadas de ironias, abordam o que o autor observava na sociedade da época. O Rio de Janeiro do Brasil passava por uma transição da falta de infraestrutura, ganhando planejamento baseado no urbanismo de Paris, na França: sofisticação para satisfazer a proeminente parcela burguesa da população da época. Estima-se que de 200 mil cidadãos cariocas, 100 mil eram escravos e, desse total, apenas 20% eram letrados, configurando uma população em que 80% eram analfabetos. Sua carreira pode ser dividida em duas fases, sendo a primeira caracteristicamente mais romântica, predominando obras como seu primeiro romance, ‘Ressureição’; sua primeira peça, ‘Queda que as mulheres têm pelos tolos’; e o livro de poesias ‘Crisálidas’. A fase romântica perdurou entre 1864 e meados de 1878. Sua segunda fase teve início com a publicação do livro ‘Memórias póstumas de Brás Cubas’, livro escrito logo após ser internado devido ao seu quadro de epilepsia, que o forçava a tomar remédios fortes, que lhe desgastavam a saúde. Ainda internado, chegou a enviar alguns capítulos do romance à sua esposa, Carolina Augusta Xavier de Novais. Como um marco entre uma fase e outra, percebe-se que, nessa nova fase, Machado apresenta fortes traços de pessimismo e ironia, que se tornam grandes características da obra do autor, acompanhando-o até seus últimos dias. FONTE: https://m.brasilescola.uol.com.br/literatura/biografia-machado-assis.htm

Falar com o leitor é uma característica das obras de Machado de Assis

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