— Aída Isabel acabou de nascer! No entressono, que
sabia eu de Aída Isabel, como podia avaliar o ato de responsabilidade que ela cometera?
— Quem?
— Aída Isabel. Agora mesmo!
— E é forte, bonita?
— Não sei não senhor. Ainda não pude ver.
Estranhei que a um pai fosse defeso* espiar sua filha.
Explicou-me que o regulamento era dureza, mas ele daria
um jeito. E de fato, mais tarde, comunicou-me que conhecera
afinal Aída Isabel.
— Como é que você entrou?
— Por baixo. A dona da portaria estava de costas, lendo
jornal, eu me agachei e passei juntinho dela, debaixo do
balcão.
Sorria ao contá-lo, pois gosta dessas experiências marotas, e se pudesse ir ver a filha ao jeito comum, perderia
o sabor.
— Era para ela chegar na semana passada, internei
Lucinha no Hospital dos Servidores, à noite a criança cismou
de atrasar, as dores pararam. Então o médico disse que carecia desocupar o leito, o funcionalismo está assim de menino
fazendo fila para nascer. Voltamos para Olaria, desapontados.
Na noite seguinte, acordamos com um estrondo, lá longe; os
vidros da casa retiniram. Eu disse comigo: é agora. A explosão de Deodoro ajudou. Pedi a Lucinha que aguentasse firme
até o dia clarear. Voltamos ao hospital, não havia vaga, mas
eles foram camaradas, mandaram a gente para uma casa de
saúde em Botafogo, negócio alinhado, valeu a pena. Só que
não recebe visita. Pessoa da família nem nada.
(Carlos Drummond de Andrade. 70 historinhas. 2016)
Na passagem do último parágrafo “... internei Lucinha no
Hospital dos Servidores, à noite a criança cismou de atrasar,
as dores pararam.” as orações apresentam predicado