Considere o texto abaixo. Dizem que, se você olhar para o m...
Considere o texto abaixo.
Dizem que, se você olhar para o mar por muito tempo, cenas do passado renascerão. Dizem que “o mar é história”. E “o mar não tem nada para mostrar além de uma bem escavada sepultura”. Encarando o Atlântico, pensei na garota. Havia inúmeras outras enterradas no fundo do oceano, mas ela era aquela em que eu pusera meus olhos. Se me concentrasse o bastante, poderia ver tudo acontecendo novamente. (…) O capitão, o médico e os abolicionistas, todos discordavam sobre o que ocorrera no convés do Recovery, ainda que todos insistissem em dizer que estavam tentando salvar a vida da garota. A esse respeito, eu sou tão responsável quanto todos os outros. Eu também estou tentando salvar a vida da garota, não da morte, da doença ou de um tirano, mas do esquecimento. Entretanto, não tenho certeza se é possível salvar uma existência a partir de um punhado de palavras: o suposto assassinato de uma garota negra. Sua vida era impossível de ser reconstruída, nem mesmo seu nome sobreviveu. (…) Umas poucas linhas de uma transcrição judicial mofada formam a história inteira da vida de uma garota.
HARTMAN, S. Perder a mãe: uma jornada pela rota atlântica da escravidão. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.
O enfoque principal do trecho do livro “Perder a mãe...”, da pesquisadora Saidiya Hartman, aborda um problema enfrentado para a investigação e a pesquisa da história da escravidão e da diáspora Africana, que diz respeito