Para responder à questão, leia um trecho
do prefácio “Um gênero tipicamente brasileiro”, do escritor
Humberto Werneck, publicado na antologia Boa companhia:
crônicas.
Fernando Sabino e Rubem Braga, por longos anos obrigados a desovar crônicas diárias, não se limitavam, nas horas de aperto, a requentar seus requintados escritos — chegaram a permutar, na moita, velhos recortes, na suposição
de que os textos, de tão antigos, já se houvessem apagado
da memória do leitor de jornal, recuperando assim a virgindade tipográfica. O troca-troca, contado por Fernando Sabino
na crônica “O estranho ofício de escrever”, merece ser aqui
reproduzido:
Éramos três condenados à crônica diária: Rubem
no Diário de Notícias, Paulo no Diário Carioca e eu no O
Jornal. Não raro um caso ou uma ideia, surgidos na mesa
do bar, servia de tema para mais de um de nós. Às vezes
para os três. Quando caiu um edifício no bairro Peixoto,
por exemplo, três crônicas foram por coincidência publicadas no dia seguinte, intituladas respectivamente: “Mas
não cai?”, “Vai cair” e “Caiu”.
Até que um dia, numa hora de aperto, Rubem perdeu a cerimônia:
— Será que você teria aí uma crônica pequenininha
para me emprestar?
Procurei nos meus guardados e encontrei uma que
talvez servisse: sobre um menino que me pediu um cruzeiro para tomar uma sopa, foi seguido por mim até uma
miserável casa de pasto da Lapa: a sopa existia mesmo, e
por aquele preço. Chamava-se “O preço da sopa”. Rubem
deu uma melhorada na história, trocou “casa de pasto” por
“restaurante”, elevou o preço para cinco cruzeiros, pôs o
título mais simples de “A sopa”.
Tempos mais tarde chegou a minha vez — nada
como se valer de um amigo nas horas difíceis:
— Uma crônica usada, de que você não precisa mais,
qualquer uma serve.
— Vou ver o que posso fazer
— prometeu ele.
Acabou me dando de volta a da sopa.
— Logo esta? — protestei.
— As outras estão muito gastas.
Sou pobre mas não sou soberbo. Ajeitei a crônica
como pude, toquei-lhe uns remendos, atualizei o preço
para dez cruzeiros e liquidei de vez com ela, sob o título:
“Esta sopa vai acabar”.
Eternamente deleitável ou imediatamente deletável —
depende menos do tema do que das artes do autor —, a
crônica pode não ser um “gênero de primeira necessidade,
a não ser talvez para os escritores que a praticam”, como
sustentava Luís Martins — um dos recordistas brasileiros
nesse ramo de escreveção. Um subgênero, há quem desdenhe. “Literatura em mangas de camisa”, diz-se em Portugal.
Mas, para o crítico Wilson Martins, trata-se de uma “espécie
literária” que de jornalístico “só tem o fato todo circunstancial
de aparecer em periódicos.”
“— Vou ver o que posso fazer — prometeu ele.” (8º
parágrafo)
Ao se transpor o trecho para o discurso indireto, a locução
verbal sublinhada assume a seguinte forma:
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
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