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Ano: 2010 Banca: UFAC Órgão: UFAC Prova: UFAC - 2010 - UFAC - Vestibular - Prova 2 |
Q222457 História
Com a leitura dos dois textos seguintes, que analisam a escravidão, fica demonstrado que:


Texto I

“Na simbologia européia da Idade Média, a cor branca estava associada ao dia, à inocência, a virgindade; já a cor preta representava a noite, os demônios, a tristeza e a maldição divina. Essa dicotomia entre branco e preto, claro e escuro, foi transferida pelos europeus para os seres humanos quando os portugueses chegaram à África em meados do século XV. [...] Assim, a pigmentação escura da pele foi inicialmente apontada como uma doença ou um desvio da norma. Como os africanos apresentavam ainda traços físicos, crenças religiosas, costumes e hábitos culturais diferentes dos que predominavam na Europa, autores europeus passaram a caracterizá-los como seres situados entre os humanos e os animais. Todas essas visões eurocêntricas fizeram com que os negros fossem considerados culturalmente inferiores e propensos à escravidão [...]”

AZEVEDO, Gislane Campos; SERIACOPI, Reinaldo. História. São Paulo: Ática, 2008, p.199.

Texto II

“Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de ‘menino diabo’; e verdadeiramente não era outra coisa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negara uma colher do doce de coco que estava fazendo, e, não contente com o malefício, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui dizer à minha mãe que a escrava é que estragara o doce ‘por pirraça’; e eu tinha apenas seis anos. Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, - algumas vezes gemendo, - mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um – ‘ai, nhonhô!’ - ao que eu retorquia: - ‘Cala a boca, besta!’ ”

ASSIS, Machado. Memórias Póstumas de Brás-Cubas. São Paulo: Globo, 2008, p.62.
Alternativas

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Gabarito: A

O que precisava saber: Era necessário identificar que o texto I apresenta uma visão etnocêntrica/eurocêntrica que associa africanos à inferioridade e usa essa construção para legitimar a escravização e o tráfico negreiro. Também era preciso perceber que o texto II retrata a violência cotidiana e a dominação de pessoas escravizadas no espaço doméstico do Brasil imperial, e não integração pacífica entre brancos e negros.

Critério decisivo: A alternativa correta é a que reconhece, ao mesmo tempo, no texto I, o etnocentrismo/eurocentrismo como base de justificação da escravização do africano, e, no texto II, a representação da dominação violenta sobre escravizados no ambiente doméstico brasileiro do século XIX.

Tema central: Escravidão no Brasil: justificativas ideológicas do tráfico/da escravização africana e a violência cotidiana nas relações domésticas escravistas no período imperial.
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A corresponde exatamente ao que os textos mostram. No texto I, a pele negra, os costumes e as crenças africanas são apresentados por uma ótica eurocêntrica que produz inferiorização, animalização e a ideia de propensão à escravidão, funcionando como justificativa ideológica da escravização e do tráfico negreiro. No texto II, Machado de Assis expõe relações de mando, humilhação e brutalidade contra escravizados dentro da casa, o que caracteriza a dominação no espaço doméstico brasileiro do período imperial.
B
Errada
A alternativa até acerta ao apontar o estranhamento cultural, religioso e físico presente no texto I, mas erra em dois pontos decisivos segundo a base: situa o texto II no século XVI, quando a obra se refere ao século XIX, no Brasil imperial, e afirma integração social plena e pacífica entre negros e brancos, o que contraria o trecho, marcado por violência e humilhação.
C
Errada
A alternativa mistura temas e tira uma conclusão que não decorre dos textos. A base afirma que é falso dizer que houve substituição total do trabalho de africanos pelo dos 'negros da terra'. Além disso, o foco dos textos está na legitimação da escravização e na violência doméstica escravista, não nessa suposta substituição total.
D
Errada
O primeiro trecho da alternativa está de acordo com a base ao reconhecer a perspectiva eurocêntrica do texto I. O erro está em afirmar que o texto II apresenta o narrador como abolicionista. Pela base, o trecho de Machado de Assis expõe violência e naturalização da escravidão, não uma posição abolicionista do narrador.
E
Errada
A alternativa é incompatível com os dois textos. A base indica que ambos evidenciam inferiorização, desumanização e violência contra pessoas escravizadas. Portanto, não há exposição de tratamentos respeitosos a povos fisicamente e culturalmente diferentes dos europeus.
Pegadinha da questão
A principal armadilha era confundir simples diferença cultural com etnocentrismo/eurocentrismo, que envolve inferiorização e legitimação da escravização. Outra pegadinha era errar o período do texto II, que remete ao Brasil imperial do século XIX, e não ao século XVI, além de ler a cena de Machado como integração pacífica ou como defesa do narrador.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o texto associa diferenças físicas e culturais à inferioridade e à escravidão, o núcleo da análise é etnocentrismo/eurocentrismo, não mera diversidade cultural.
  • Em trechos literários sobre escravidão, observe se a cena mostra mando, humilhação e violência no cotidiano: isso indica dominação escravista, especialmente no espaço doméstico.
  • Verifique se a alternativa respeita o período histórico indicado pela base do texto; nesta questão, confundir século XIX com século XVI inviabiliza a opção.

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A

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