Para responder a questão, leia o primeiro poema
da seção intitulada “Homenagem a Ricardo Reis”, da poeta
portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004),
publicado originalmente em 1972 no livro Dual.
Não creias, Lídia, que nenhum estio1
Por nós perdido possa regressar
Oferecendo a flor
Que adiamos colher.
Cada dia te é dado uma só vez
E no redondo círculo da noite
Não existe piedade
Para aquele que hesita.
Mais tarde será tarde e já é tarde.
O tempo apaga tudo menos esse
Longo indelével rasto2
Que o não-vivido deixa.
Não creias na demora em que te medes.
Jamais se detém Kronos3 cujo passo
Vai sempre mais à frente
Do que o teu próprio passo.
(Sophia de Mello Breyner Andresen. Coral e outros poemas, 2018.)
1 estio: verão.
2 rasto: rastro.
3Kronos: do grego khrónos, “tempo”. Na mitologia grega, titã do tempo.
Conforme sugerido pelo próprio título da seção, trata-se de
um poema escrito à maneira de Ricardo Reis, o heterônimo neoclássico do poeta Fernando Pessoa (1888-1935). A
exemplo do que ocorre com frequência na poética de Ricardo
Reis, o eu lírico configura aqui o seguinte tópico clássico:
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