Qual tese expressa o tema abordado no Texto I e nos poemas P...
Texto I
Entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero honesto rotular-se poeta quem apenas verseje por dor de cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação. Até os poetas se armam, e um poeta desarmado é, mesmo, um ser à mercê das inspirações fáceis, dócil às modas e compromissos.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Prosa seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003.
Texto II
POESIA
Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Nova reunião: 23 livros de poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. p. 24.
Texto III
O LUTADOR
Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
[...]
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
[...].
Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
[...]
Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto.
Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
[...]
Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
[...]
Iludo-me às vezes,
pressinto que a entrega
se consumará.
Já vejo palavras
em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
aquela sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor
me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.
[...].
O ciclo do dia
ora se conclui
e o inútil duelo
jamais se resolve.
O teu rosto belo,
ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve.
Tamanha paixão
e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas,
a luta prossegue
nas ruas do sono.
Andrade, Carlos Drummond de. Nova reunião: 23 livros de poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. p. 104-105.
Texto IV
PROCURA DA POESIA
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não
contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à
efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro
são indiferentes.
Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo
das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas
junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada
significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em despreza.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Nova reunião: 23 livros de poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. p. 104-105.
Gabarito comentado
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Gabarito: B
Tema central: Interpretação de Texto – Metalinguagem poética
A questão aborda a reflexão sobre o processo da criação poética. O foco está na metalinguagem: isto é, o texto fala sobre o próprio fazer poético, um conceito essencial apontado por grandes gramáticos como Celso Cunha e Lindley Cintra. Segundo eles, metalinguagem ocorre “quando o código linguístico é usado para explicar o próprio código.”
Justificativa da alternativa correta (B):
A alternativa B acerta ao afirmar que a escrita poética resulta de ação, conhecimento técnico e trabalho constante com as palavras, sendo muitas vezes um verdadeiro embate. Nos textos, Drummond ressalta o esforço diário do poeta (“trabalhos cotidianos e secretos da técnica”, Texto I), a dificuldade ("lutar com palavras", Texto III) e a necessidade de paciência e convivência com o poema (“Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam”, Texto IV). O trabalho com a palavra é tanto árduo quanto artesanal.
Análise das alternativas incorretas:
A) Fala em palavras insuficientes para a expressão de cenários e sugere adicionar "elementos complementares", o que desvia do tema central. Os textos tratam, sim, das palavras como matéria básica, mas não dizem que é preciso algo externo para completar a expressão poética.
C) Enfatiza formação cultural e inspiração por cenários. No entanto, os textos não destacam o “gosto inato” ou inspiração espontânea, mas o esforço consciente e o aprimoramento técnico do poeta.
D) Defende a ideia de poesia como epifania fugaz, que exige "registro imediato". Os textos, principalmente o IV, rejeitam apelos por espontaneidade ou precipitação, valorizando o amadurecimento do poema.
E) Associa poesia à meditação/devaneio e isolamento. Tal visão é limitada. O poeta drummondiano luta com a palavra, pesquisa, espera, trabalha ativamente – não apenas se recolhe ao devaneio.
Estratégias para provas: Procure sempre identificar palavras-chave e compreender a tese central do texto. Evite respostas que exagerem no papel da inspiração ou fujam do assunto principal.
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Comentários
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A alternativa B) A escrita poética resulta de uma ação que exige do poeta conhecimento técnico e trabalho diligente no manejo com as palavras, algo que pode ser caracterizado como um embate é a certa porque:
1. *Esforço e luta*: O texto I sugere que o poeta precisa trabalhar com as palavras de forma cuidadosa e precisa, como se estivesse em um embate com elas. Isso é reforçado pelo verso "Gastei uma hora pensando um verso/ que a pena não quer escrever" (Texto II), que mostra o esforço e a luta do poeta para criar algo novo.
2. *Conhecimento técnico*: O manejo com as palavras exige conhecimento técnico e habilidade, como se pode ver no texto I, onde Drummond escreve sobre a importância de "contemplar as palavras" e entender suas "mil faces secretas".
3. *Trabalho diligente*: A escrita poética é um processo que exige trabalho diligente e atenção cuidadosa, como se pode ver no verso "Penetra surdamente no reino das palavras" (Texto IV), que sugere uma busca profunda e cuidadosa pelas palavras certas.
Portanto, a alternativa B é a que melhor expressa o tema abordado nos textos, destacando a ideia de que a escrita poética é um processo que exige conhecimento técnico, trabalho diligente e esforço.
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