Leia a crônica “José de Nanuque”, de Carlos Drummond de
Andrade, para responder à questão
Como se não bastasse o excesso de população deste
mundo, os homens estão detectando a existência de outros
mundos habitados, no espaço sideral, e suspiram, emocionados: “Não estamos sós”. E quem disse que estamos sós,
se andamos tão acotovelados pelas avenidas da Terra? Pois,
como se tudo isso não fosse suficiente, correm às matas de
Nanuque e de lá retiram à força José Pedro dos Santos, último promeneur solitaire1
de que havia notícia, o homem que
vivia com uma fogueira acesa, espantando onça e, sobretudo, gente.
— Venha, rapaz! Queremos que participe das maravilhas
da civilização!
— Vocês me arranjam casa pra morar?
— Bem, isso atualmente está difícil, José.
— Emprego?
— Só se você for concursado, e houver vaga.
— E comida?
— Depois nós conversamos. Venha depressa, estão nos
chamando de outras galáxias!
José recalcitra: estava tão bem ali! Não paga aluguel,
não preenche o formulário do imposto de renda, não faz fila
para nada, não tem horário nem patrão, come carne variada,
segunda-feira paca, terça peixe, quarta aves, quinta raízes e
tubérculos, sexta frutas, sábado...
— Mais uma razão para vir. Está desfrutando privilégios,
e todos são iguais perante a lei!
Outra razão forte: os fazendeiros de Nanuque reclamavam contra esse homem estranho, embrenhado no mato,
fazendo Deus sabe lá o quê. Em vão José alega que os
ajuda, espantando onça com seu facho noturno. As onças
não devem ser espantadas, sustentam a beleza selvagem
da região. Esse homem não trabalha na lavoura, como os
outros; não produz, não rende, e, embora não pese a ninguém, pesa globalmente no espírito de todos, com seu mistério. O fato de não produzir não é o mais grave; tolera-se cá
fora, à luz do dia, honradamente: mas no interior da mata?
Que ideia faz esse sujeito do contrato social? Nenhuma. Está
se ninando para o contrato social. Não é possível. Tragam
José para perto de nós, ele tem de aprender ou reaprender a
vida apertada que levamos.
José tem medo. Os homens, as cidades, os códigos,
até os prazeres intervalares dos civilizados lhe dão medo.
O motor de sua volta ao estado natural foi menos o amor à
natureza do que o pânico. Em cada homem vê um perigo,
em cada situação uma ameaça, em cada palavra uma condenação. Com as árvores e os bichos ele se entende. Nu e
experimentado, conhece e domina o ambiente em que vive
sem maiores riscos. Na cidade não praticara ação criminosa, e foi isso precisamente que o fez embrenhar-se na mata.
Inocente, faltavam-lhe as provas negativas de sua inocência;
se cometesse qualquer malfeito, poderia mentir e salvar-se,
mas, estando puro e desarmado diante do sistema, como
mentir, senão confessando a falta imaginária, e, portanto,
condenando-se? A solução era virar bicho. Virou, com êxito.
Agora trazem José para a capital, incorporam-no ao
estranho maquinismo, ao estatuto sombrio, inexplicável; ele
é condenado a viver como os outros, no grau inferior. José
está salvo ou perdido? O certo é que nunca mais brilhará, na
mata de Nanuque, aquele foguinho solitário.
Todos são iguais perante a lei.
Não estamos sós.
(Carlos Drummond de Andrade. Caminhos de João Brandão, 2016.)
1promeneur solitaire: caminhante solitário.
“Esse homem não trabalha na lavoura, como os outros; não
produz, não rende, e, embora não pese a ninguém, pesa globalmente no espírito de todos, com seu mistério. O fato de
não produzir não é o mais grave; tolera-se cá fora, à luz do
dia, honradamente: mas no interior da mata?” (11o
parágrafo)
Nesse trecho, o cronista ressalta o incômodo dos fazendeiros
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
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