Aplicada ao discurso cartesiano, a dúvida acerca da dúvida o...
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A dúvida pode significar o fim de uma fé, ou pode significar o começo de outra. Em dose moderada, estimula o pensamento. Em excesso, paralisa-o. A dúvida, como exercício intelectual, proporciona um dos poucos prazeres puros, mas, como experiência moral, ela é uma tortura. Aliada à curiosidade, é o berço da pesquisa
e assim de todo conhecimento sistemático. Em estado destilado, mata toda curiosidade e é o fim de todo conhecimento. |
Gabarito comentado
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Resposta: C — certo
Tema central: o papel da dúvida na fundamentação do sujeito moderno — a questão explora a crítica de Vilém Flusser ao método cartesiano: se se duvida da própria dúvida, o procedimento cartesiano perde sua base.
Resumo teórico progressivo: René Descartes emprega a dúvida metódica (Meditações, 1641) para eliminar crenças inseguras e descobrir uma certeza indubitável — o cogito ("penso, logo existo"). Para Descartes, a experiência de duvidar confirma a existência do sujeito pensante, e a dúvida funciona como instrumento construtivo.
Flusser problematiza esse ponto: a dúvida pressupõe uma fé/certeza originária (um "espírito ingênuo") e, ao tornar a dúvida absoluta, perde-se a autenticidade original. Se se passa a dudar da própria dúvida, questiona‑se o fundamento do método; a dúvida deixa de ser um instrumento neutro e torna‑se algo que pode ser desconstruído — o que, aplicando‑se ao discurso cartesiano, o comprometeria.
Justificativa concisa do gabarito (por que C é correto): A crítica afirma que a recusa em dar o “último passo” — duvidar da autenticidade da própria dúvida — torna a dúvida aceitável como indubitável. Se alguém leva adiante a suspeita sobre a própria dúvida ("duvido mesmo?"), a condição necessária para o método cartesiano (uma dúvida estável e confiável que funda a investigação) é removida. Assim, a dúvida acerca da dúvida, aplicada ao discurso cartesiano, o tornaria inválido ou, no mínimo, autoconsistente apenas até onde se admite a dúvida como fundamento. Em termos práticos: duvidar da dúvida é trazer ao questionamento o próprio instrumento do método, o que o neutraliza.
Fontes relevantes: René Descartes — Meditações Metafísicas (1641); Vilém Flusser — A dúvida (2011). Para contextualização acadêmica, ver entradas sobre "Cartesian doubt" na Stanford Encyclopedia of Philosophy.
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