Considerando os textos, verifica-se que os Parangolés consti...
Leia os textos 01 a 04 para responder à questão.
Texto 01
A minha posição ao propor “Parangolé” é a da busca de uma nova fundação objetiva na arte. Não se confundir com uma “nova figuração”, isto é, pretexto para uma volta a uma representação figurada de todo superada, ou ao “quadro”, seu suporte expressivo. O “Parangolé” é não só a superação definitiva do quadro, como a proposição de uma estrutura nova do objetoarte, uma nova reestruturação da visão espacial da obra de arte, superando também a contradição das categorias “pintura e escultura”. Na verdade, ao propor uma arte ambiental, não quero sair do “quadro” para a “escultura”, mas fundar uma nova condição estrutural do objeto que já não admite essas categorias tradicionais. Seria tentar a constituição de um novo “mito do objeto”, que não é nem o objeto transposto da pop art, nem o objeto-verdade do nouveau-réalisme, mas a fundação do objeto em todas as suas ordens e categorias manifestadas no mundo ambiental, que é revelada aqui pela obra de arte. O objeto que não existia passa a existir e o que já existia se revela de outro modo pela visão dada pelo novo objeto que passou a existir. Estão reservados ao artista a tarefa e o poder de transformar a visão e os conceitos na sua estrutura mais íntima e fundamental; é esta a maneira mais eficaz para o homem de hoje dominar o mundo ambiental, isto é, para recriá-lo a seu modo e segundo sua suprema vontade. É esta também uma proposição eminentemente coletiva, que visa abarcar a grande massa popular e lhes dar também uma oportunidade criativa. Essa oportunidade, é claro, teria que se realizar através das individualidades nessa coletividade; o novo aqui é que as possibilidades dessa valorização do indivíduo na coletividade se tornam cada vez mais generalizadas – há a exaltação dos valores coletivos nas suas aspirações criativas mais fundamentais, ao mesmo tempo em que é dada ao indivíduo a possibilidade de inventar, de criar – é a retomada dos mitos da cor, da dança, das estruturas criativas enfim.
OITICICA, Helio. Paragolé: uma nova fundação objetiva na arte. In: Ciclo de exposições sobre arte no Rio de Janeiro - 5. OPINIÃO 65. Curadoria Frederico Morais; apresentação Frederico Morais. Rio de Janeiro: Galeria de Arte Banerj, 1985 [72]. [Adaptado].
Texto 02
Parangolivro
negro pobre poeta
sem noção de sequência
multiplicidade de olhares
ler e descobrir
escrever bater com a cabeça
uma arma em nossa mira
não caber
dentro da armadura
debater até sangrar
entrar e sair
como se não estivesse
viver longo
cada instante
olhar os filhos sem fim
caminhar sob o sol
fugir do inferno de si
[...]
osso em febre
oco do fim do mundo
uma palavra porrada
parangolivro parangolé
morro raimundo de montes
claros colares
hélio morro da mangueira
parangolé oiticica
ninhos gibis
incertezas
instantes de interdelírio
garotos hospícios
parangolivres
[...]
PEREIRA, Aroldo. Parangolivro. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2007. p. 13, 15.
Texto 03
Parangolé
Entre
a
casa
é sua
sua casa-
camisa
suas vestes-
vestíbulos
saia-sala
chão-chapéu
entre
a casa
é sua
corredor
para o corpo
escada
para o êxtase
vestido
com vista
para o mar
MARQUES, Ana Martins. Da arte das armadilhas. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 54-55.
Texto 04
Parangolé Pamplona
O Parangolé Pamplona você mesmo faz
O Parangolé Pamplona a gente mesmo faz
Com um retângulo de pano de uma cor só
E é só dançar
E é só deixar a cor tomar conta do ar
Verde
Rosa
Branco no branco no preto nu
Branco no branco no preto nu
O Parangolé Pamplona
Faça você mesmo
E quando o couro come
É só pegar carona
Laranja
Vermelho
Para o espaço estandarte
Para o êxtase asa delta
Para o delírio porta aberta
Pleno ar
Puro hélio
Mas
O Parangolé Pamplona você mesmo faz
CALCANHOTTO, Adriana. Parangolé Pamplona. Disponível em: https://www.letras.mus.br/adriana-calcanhotto/87107/. Acesso em: 27 fev. 2024.
Gabarito comentado
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Tema central: Trata-se de uma questão de interpretação de texto, que exige a análise e a síntese das ideias principais nos quatro textos sobre os “Parangolés” de Hélio Oiticica.
Justificativa da alternativa correta (B):
Os textos apresentam os Parangolés como uma experiência estética que rompe com a arte tradicional estática, privilegiando o gesto, o movimento e a integração entre arte e vida. No texto 01, Oiticica afirma que o Parangolé propõe “uma nova reestruturação da visão espacial da obra de arte” e supera a “contradição das categorias ‘pintura e escultura’”. Isso evidencia a ideia de imersão e participação ativa, não apenas contemplativa.
No texto 04, tem-se: “O Parangolé Pamplona você mesmo faz [...]. E é só dançar. E é só deixar a cor tomar conta do ar”. Confirma-se a ênfase na participação criadora, na fusão arte/vida através do movimento e da experiência coletiva e individual.
A alternativa B sintetiza essa proposta ao afirmar que o Parangolé “cria um ato artístico pautado na poética do gesto, do movimento e da plástica, que funde a arte e a vida num acontecimento de imanência estética e que rompe com a estaticidade das obras artísticas”.
Análise das alternativas incorretas:
A) Reduz a experiência a um estudo antropológico das favelas, quando o texto central supera essa limitação, buscando ampla “reestruturação da visão da obra de arte”.
C) Enfatiza o registro imagético para fotografia/cinema, não o fazer-experimentar coletivo da proposta.
D) Traz a interação com a natureza como eixo criativo, o que não está contemplado nos textos; o enfoque é a interação humana e urbana.
E) Põe em destaque o papel do observador passivo, contradizendo o convite à participação ativa e à criação coletiva presentes na obra de Oiticica.
Elementos centrais para interpretação correta: Prestar atenção ao vocabulário dos textos (“superação do quadro”, “proposição eminentemente coletiva”, “dançar”, “inventar, criar”) revela a ideia de experiência viva, ação e inovação. Estratégia essencial: identificar termos que apontem para participação ativa e ruptura com a tradição, evitando generalizações ou restrições temáticas não presentes nos textos.
Gramática de referência: Conforme Celso Cunha & Lindley Cintra e Bechara, a produção de sentido em textos exige identificar coesão (repetição de ideias, conectores) e coerência (alinhamento do todo ao objetivo textual). Aqui, a coerência dos textos reforça a alternativa B.
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