Os Parangolés de Hélio Oiticica podem ser considerados obras...

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Ano: 2024 Banca: UEG Órgão: UEG Prova: UEG - 2024 - UEG - Vestibular - Medicina (2º Semestre 2024) |
Q3509401 Português

Leia os textos 01 a 04 para responder à questão.


Texto 01


A minha posição ao propor “Parangolé” é a da busca de uma nova fundação objetiva na arte. Não se confundir com uma “nova figuração”, isto é, pretexto para uma volta a uma representação figurada de todo superada, ou ao “quadro”, seu suporte expressivo. O “Parangolé” é não só a superação definitiva do quadro, como a proposição de uma estrutura nova do objetoarte, uma nova reestruturação da visão espacial da obra de arte, superando também a contradição das categorias “pintura e escultura”. Na verdade, ao propor uma arte ambiental, não quero sair do “quadro” para a “escultura”, mas fundar uma nova condição estrutural do objeto que já não admite essas categorias tradicionais. Seria tentar a constituição de um novo “mito do objeto”, que não é nem o objeto transposto da pop art, nem o objeto-verdade do nouveau-réalisme, mas a fundação do objeto em todas as suas ordens e categorias manifestadas no mundo ambiental, que é revelada aqui pela obra de arte. O objeto que não existia passa a existir e o que já existia se revela de outro modo pela visão dada pelo novo objeto que passou a existir. Estão reservados ao artista a tarefa e o poder de transformar a visão e os conceitos na sua estrutura mais íntima e fundamental; é esta a maneira mais eficaz para o homem de hoje dominar o mundo ambiental, isto é, para recriá-lo a seu modo e segundo sua suprema vontade. É esta também uma proposição eminentemente coletiva, que visa abarcar a grande massa popular e lhes dar também uma oportunidade criativa. Essa oportunidade, é claro, teria que se realizar através das individualidades nessa coletividade; o novo aqui é que as possibilidades dessa valorização do indivíduo na coletividade se tornam cada vez mais generalizadas – há a exaltação dos valores coletivos nas suas aspirações criativas mais fundamentais, ao mesmo tempo em que é dada ao indivíduo a possibilidade de inventar, de criar – é a retomada dos mitos da cor, da dança, das estruturas criativas enfim.  


OITICICA, Helio. Paragolé: uma nova fundação objetiva na arte. In: Ciclo de exposições sobre arte no Rio de Janeiro - 5. OPINIÃO 65. Curadoria Frederico Morais; apresentação Frederico Morais. Rio de Janeiro: Galeria de Arte Banerj, 1985 [72]. [Adaptado].



Texto 02 


Parangolivro 


negro pobre poeta
sem noção de sequência
multiplicidade de olhares
ler e descobrir
escrever bater com a cabeça
uma arma em nossa mira
não caber
dentro da armadura
debater até sangrar
entrar e sair
como se não estivesse
viver longo
cada instante
olhar os filhos sem fim
caminhar sob o sol
fugir do inferno de si
[...]
osso em febre
oco do fim do mundo
uma palavra porrada
parangolivro parangolé
morro raimundo de montes
claros colares
hélio morro da mangueira
parangolé oiticica
ninhos gibis
incertezas
instantes de interdelírio
garotos hospícios
parangolivres
[...]


PEREIRA, Aroldo. Parangolivro. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2007. p. 13, 15.



Texto 03


Parangolé


Entre
a
casa
é sua
sua casa-
camisa
suas vestes-
vestíbulos
saia-sala
chão-chapéu
entre
a casa
é sua
corredor
para o corpo
escada
para o êxtase
vestido
com vista
para o mar


MARQUES, Ana Martins. Da arte das armadilhas. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 54-55.



Texto 04


Parangolé Pamplona


O Parangolé Pamplona você mesmo faz
O Parangolé Pamplona a gente mesmo faz
Com um retângulo de pano de uma cor só
E é só dançar
E é só deixar a cor tomar conta do ar
Verde
Rosa
Branco no branco no preto nu
Branco no branco no preto nu


O Parangolé Pamplona
Faça você mesmo
E quando o couro come
É só pegar carona
Laranja
Vermelho


Para o espaço estandarte
Para o êxtase asa delta
Para o delírio porta aberta
Pleno ar
Puro hélio
Mas
O Parangolé Pamplona você mesmo faz


CALCANHOTTO, Adriana. Parangolé Pamplona. Disponível em: https://www.letras.mus.br/adriana-calcanhotto/87107/. Acesso em: 27 fev. 2024.

Os Parangolés de Hélio Oiticica podem ser considerados obras antiartísticas. A partir deles, podia-se questionar o status quo dos suportes das obras de arte, como a escultura e a pintura, tendo em vista seu ato transgressor de criar uma “nova condição estrutural” da “arte ambiental”, conforme texto 1. Portanto, uma exposição de Parangolés neutralizaria sua própria natureza: essa nova estrutura buscava recriar a ambiência e a atmosfera das favelas, numa específica fusão de espaçotempo, que desafiava as noções de duração, suporte e experiência estética.



As três fontes de influência que levaram Oiticica a conceber o Parangolé como uma síntese são:

Alternativas

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Tema central da questão: Interpretação de Texto

Esta questão avalia sua capacidade de interpretar textos não apenas de modo literal, mas também inferindo ideias e reconhecendo conceitos-síntese, a partir de trechos e conteúdos centrais apresentados em quatro textos sobre o Parangolé de Hélio Oiticica.

Alternativa correta: Ao samba; a noção de coletividade anônima; a fusão entre os espaços público e íntimo da arquitetura das favelas.

Justificativa:

De acordo com o texto 1, Oiticica enfatiza a ideia de arte coletiva, acessível ao povo e capaz de integrar a todos numa experiência sensível — o que se vê expresso nas frases: “visar abarcar a grande massa popular [...] exaltação dos valores coletivos”. Além disso, há clara referência à coletividade anônima característica das comunidades de favela. O samba, como expressão cultural desses espaços, também é elemento fundamental na obra do autor, evidenciado inclusive nas referências ao Morro da Mangueira.

Por fim, a fusão de espaços público e íntimo aparece na discussão da obra como “arte ambiental”, onde o Parangolé opera rompendo fronteiras tradicionais, resultando numa experiência estética que une corpo, movimento e coletividade.

Análise das alternativas incorretas:

B: Usa “transgressão presente no morro da Mangueira”, expressão que, embora conectada ao espírito do Parangolé, não é selecionada como síntese dos textos, além da “inspiração nas fachadas”, que restringe o sentido.

C: Inclui “pagode” (não citado nos textos) e “individualidade criativa”, quando o foco dos textos é a expressão coletiva.

D: Destaca a “mimese das fachadas”, elemento ausente como conceito-síntese dos textos analisados.

E: Traz “continuidade visual do movimento das ocupações”, um conceito não explicitado nos textos base.

Dicas de prova: Palavras-chave como coletividade, fusão de espaços e samba são fundamentais. Leia atentamente e busque identificar as ideias que se repetem ou que são ressaltadas ao longo dos textos.

Segundo Evanildo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa), interpretar texto é “inferir sentidos, relações e estruturas, percebendo não apenas o explícito, mas também o implícito”. Fique atento aos detalhes e evite generalizações fora dos textos.

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