Em relação ao poema, verifica-se que
Pneumotórax
Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
– Diga trinta e três.
– Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
– Respire.
………………………………………………………….
– O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
– Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
BANDEIRA, Manuel. Pneumotórax. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1993. p. 206.
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Tema central: Esta questão exige a interpretação de texto literário, abordando especialmente figuras de linguagem (com destaque para ironia) e a identificação de conceitos como carpe diem.
Justificativa da alternativa correta (E):
O último verso do poema (“A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.”) corresponde a uma ironia. De acordo com a norma-padrão e os estudos literários (Cf. Bechara, Moderna Gramática Portuguesa), a ironia ocorre quando se emprega uma expressão que tem sentido contrário ao literal, geralmente transmitindo um tom crítico ou humorístico. Ao invés de prescrever um tratamento convencional diante da gravidade da doença, o médico sugere algo inusitado e resignado: “tocar um tango argentino” (música tradicional associada à melancolia e ao fim). Esse gesto, além de irônico, sugere implicitamente o conceito de carpe diem (“aproveite o momento”) — já que nada pode curar, resta viver da melhor maneira o tempo que sobra.
Essa leitura é reforçada por autores como Celso Cunha & Lindley Cintra, ao afirmarem que o contexto, as escolhas vocabulares e o tom do discurso são essenciais na identificação de sentidos inferidos no texto poético.
Análise das alternativas incorretas:
A) O terceiro verso (“Tosse, tosse, tosse.”) utiliza repetição para realçar e intensificar o sintoma, não para minimizá-lo. Trata-se de um recurso de ênfase, comum na linguagem poética, conforme apontam gramáticas normativas.
B) O décimo verso consiste em uma longa pausa (“………………………………”). Ele não manifesta desalento explicitamente, mas um silêncio dramático, abrindo espaço para reflexão, sem verbalizar a desesperança pela cura.
C) O oitavo verso, composto apenas por pontilhado, não indica impaciência do médico, e sim uma suspensão ou silêncio, aumentando a tensão dramática.
D) O segundo verso (“A vida inteira que podia ter sido e que não foi.”) trata de frustração e nostalgia, e não faz qualquer referência à poesia pastoril ou à valorização da vida bucólica (modus vivendi agrícola ou campestre).
Estratégias para futuras questões: Atente-se à linguagem figurada e à intenção do autor. Palavras e expressões pouco convencionais quase sempre carregam sentidos implícitos ou figuras de linguagem. Leia atentamente cada opção e relacione-a aos elementos textuais reais, evitando generalizações ou interpretações forçadas.
Conclusão: A alternativa E é correta: o último verso faz uso de ironia para sugerir carpe diem, ou seja, o aproveitamento do pouco tempo de vida que resta, conforme esperado pela literatura e pela análise normativa.
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"Carpe Diem" só me lembro do aproveitem o dia garotos...-Sociedade dos poetas mortos.
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