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Ano: 2010 Banca: IFG Órgão: IF-GO Prova: IFG - 2010 - IF-GO - Vestibular - Prova 2 |
Q1273622 Português
TEXTO 4

Auto-retrato

Provinciano que nunca soube
Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano;
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crônicas
Ficou cronista de província; 
Arquiteto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão
Um tísico profissional.”
(Manuel Bandeira. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1983) 

 TEXTO 5

Felicidade clandestina (excerto)

    Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
    Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”. 
    Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.”

(Clarice Lispector. Felicidade clandestina: contos. Rio de Janeiro: Rocco, 1998)  
Nos textos 4 e 5, os autores utilizam a descrição para:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a função discursiva da descrição como caracterização subjetiva e avaliativa: em “Poeta ruim que na arte da prosa / Envelheceu na infância da arte [...] Arquiteto falhado, músico / Falhado [...] Um tísico profissional."; "Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. [...] Mas que talento tinha para a crueldade. [...] Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo.”, os traços selecionados não são neutros, mas orientam a leitura dos sujeitos descritos e sustentam a alternativa A.

Tema central: função da descrição
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A acerta porque identifica o uso da descrição para construir sentido sobre os sujeitos descritos, e não apenas para retratá-los externamente. No poema, a autodescrição reúne traços de fracasso, inadequação e limitação, como “Poeta ruim” e “Arquiteto falhado, músico / Falhado”, sustentando um autorretrato autodepreciativo em chave irônica. No conto, a narradora parte da descrição física da menina e a completa com traços comportamentais explícitos — “Mas que talento tinha para a crueldade” e “Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo” —, o que sustenta a caracterização da personagem como cruel e sádica. Há, de fato, uma inconsistência material na numeração dos textos dentro da alternativa, mas seu conteúdo corresponde ao confronto entre os textos apresentados.
B
Errada
Está errada porque atribui às descrições um caráter “realista” e “exato” que a base não autoriza. Nos dois textos, os traços são filtrados pela voz enunciadora e organizados de modo avaliativo. Além disso, a alternativa sugere que as atitudes decorrem de características físicas típicas, o que introduz um determinismo não sustentado pelos textos.
C
Errada
Está errada porque reduz a descrição a estados de espírito que não são os centrais. No poema, o efeito dominante é a autoironia com autodepreciação, não a simples tristeza. No conto, o excerto não apresenta alegria da narradora; ao contrário, enfatiza humilhação, ânsia de ler e a crueldade da outra menina.
D
Errada
Está errada porque afirma irrelevância dos detalhes, quando justamente esses detalhes são decisivos para a compreensão dos textos. No poema, a enumeração de falhas compõe o autorretrato irônico; no conto, os traços físicos e comportamentais constroem a imagem subjetiva da menina como cruel. Portanto, os detalhes não são gratuitos nem indiferentes ao sentido.
E
Errada
Está errada porque desloca o foco para um julgamento moral abstrato e para uma suposta imobilização diante das dificuldades, elementos não sustentados pelos textos. No poema, o núcleo é a autoironia do sujeito sobre si mesmo. No conto, a menina é caracterizada como cruel, mas a narradora não aparece imobilizada: ela insiste em pedir os livros. A alternativa ainda transforma características físicas e psicológicas em limite determinante, o que a base rejeita.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre descrição subjetiva e retrato objetivo: como há muitos detalhes físicos, o candidato pode marcar a alternativa que fala em realismo ou em enumeração de traços, quando o decisivo é perceber que esses traços estão a serviço de uma avaliação — ironia no poema e sadismo no conto. Há também erro material de numeração na alternativa correta, mas isso não altera seu conteúdo semântico.
Dica para questões semelhantes
  • Quando a pergunta for “para que” serve a descrição, procure o efeito discursivo produzido por ela, não apenas os traços enumerados.
  • Separe descrição neutra de descrição avaliativa: adjetivos e rótulos como “Poeta ruim” e “talento tinha para a crueldade” mostram julgamento do enunciador.
  • Não conclua que traço físico causa comportamento se o texto apenas os aproxima na perspectiva da narradora ou do eu lírico.

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