Para o autor do texto, a comparação à literatura configura

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Q1797644 Português
Leia o texto de Caio Prado Júnior para responder à questão.

     De tudo se trata, pode-se dizer, ou se tem tratado na “filosofia”, e até os mesmos assuntos, ou aparentemente os mesmos, são considerados em perspectivas de tal modo apartadas uma das outras que não se combinam e entrosam entre si, tornando-se impossível contrastá-las. Para alguns, essa situação é não apenas normal, mas plenamente justificável. A filosofia seria isso mesmo: uma especulação infinita e desregrada em torno de qualquer assunto ou questão, ao sabor de cada autor, de suas preferências e mesmo de seus humores. Há mesmo quem afirme não caber à filosofia “resolver”, e sim unicamente sugerir questões e propor problemas, fazer perguntas cujas respostas não têm maior interesse, e com o fim unicamente de estimular a reflexão, aguçar a curiosidade. E já se afirmou até que a filosofia não passava de uma ginástica do pensamento, entendendo por isso o simples exercício e adestramento de uma função — no caso, o pensamento em vez dos músculos, sem outra finalidade que essa.
     Apesar, contudo, de boa parte da especulação filosófica, particularmente em nossos dias, parecer confirmar tal ponto de vista, ele certamente não é verdadeiro. Há sem dúvida um terreno comum onde a filosofia, ou aquilo que se tem entendido como tal, se confunde com a literatura (no bom sentido, entenda-se bem) e não objetiva realmente conclusão alguma, destinando-se tão somente, como toda literatura, a par do entretimento que proporciona, levar aos leitores ou ouvintes, a partir destes centros condensadores da consciência coletiva que são os profissionais do pensamento, levar-lhes impressões e estados de espírito, emoções e estímulos, dúvidas e indagações. Mas esse terreno que a filosofia, ou pelo menos aquilo que se tem entendido por “filosofia”, compartilha com a literatura, não é toda filosofia, nem mesmo, de certo modo, a sua mais importante e principal parte.
     Com toda sua heterogeneidade, confusão e hermetismo, a filosofia ainda encontra ressonância tal, que bastaria para comprovar que nela se abrigam questões que dizem muito de perto com interesses e aspirações humanas que devem, por isso, ser atendidos, e não frustrados pela ausência ou desconhecimento de objetivo e rumo seguros da parte daqueles que se ocupam do assunto.
     Mas onde encontrar esse “objeto” último e profundo da especulação filosófica para o qual converge e onde se concentra a variegada problemática de que a filosofia vem através dos séculos e em todos os lugares se ocupando; e de que se trata?

(O que é filosofia, 2008. Adaptado.)
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Tema central: Interpretação de Texto. A questão exige que o candidato compreenda a posição do autor quanto à relação entre filosofia e literatura e identifique como o autor avalia essa possível aproximação entre as duas áreas.

Justificativa da alternativa correta (B):
O autor, Caio Prado Júnior, reconhece que a comparação entre filosofia e literatura é justificável, pois compartilham um campo de reflexão, emoções e estímulos. No entanto, ele esclarece que essa aproximação não abarca toda a filosofia e ressalta que existe um objeto mais profundo e específico da filosofia que não é explicado plenamente pela comparação com a literatura. A resolução correta parte da interpretação global do texto e da análise das relações de coesão e coerência, conforme orientam Evanildo Bechara e o Manual de Redação da Presidência da República: é preciso observar conectivos, oposições e retomadas de ideias-chave no texto.

Análise das alternativas incorretas:

A) Incorreta, pois o autor não considera a comparação uma definição eficaz; ele mesmo indica que esse não é o principal aspecto da filosofia.

C) Também inadequada, já que o autor nunca diz tratar-se de uma solução definitiva para o problema da definição da filosofia.

D) Falsa, pois o texto não refere a comparação como jogo de linguagem, mas sim como uma aproximação limitada, sem intenção de transferir o problema apenas.

E) Errada, porque o autor reconhece explicitamente pontos em comum entre as duas áreas, recusando a ideia de que seja um esforço “implausível”.

Estratégias importantes para esse tipo de questão:

- Leia atentamente as conclusões do autor, concentrando-se nas afirmações que aparecem após conectivos como “apesar”, “contudo” e “mas” – geralmente, neles está a opinião central.
- Cuidado com alternativas absolutas (“solução definitiva”, “definição eficaz”) – o autor tende a relativizar e a apresentar ressalvas.
- Foque na coerência da resposta com o texto integral, para não cair em pegadinhas por leitura apressada ou parcial.

Resumo: O texto reconhece que a aproximação com a literatura é relevante, mas não suficiente para definir o que é a filosofia – por isso, a alternativa B é a correta.

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