Com relação ao 11º parágrafo, pode-se inferir que: I. A fe...

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Ano: 2011 Banca: UEPA Órgão: UEPA Prova: UEPA - 2011 - UEPA - Vestibular - PROVA OBJETIVA – 1a Fase |
Q1339982 Português
A solidão essencial

O amor que nos resolve a vida é uma promessa enganosa

Acho que foi um professor de cursinho quem contou em classe o mito dos andróginos. Parte homem e parte mulher, esses seres eram tão completos e tão felizes que despertaram a inveja de Zeus. Irado, o patriarca do Olimpo disparou raios que separaram em duas cada uma das criaturas perfeitas. Desde então, elas vagam pelo mundo em busca de sua metade. São solitárias e incompletas. Somos nós.

Não sei o que os gregos queriam dizer ao criar essa lenda, mas a maneira como nós a interpretamos, modernamente, é muito clara: existe alguém lá fora que nasceu para nós. Enquanto não acharmos essa metade (o amor verdadeiro), jamais seremos felizes.

Muitos de nós acreditamos nisso o tempo todo. Outros acreditam apenas de vez em quando. Raro é encontrar alguém totalmente imune a essa espécie de esperança (ou seria armadilha?) romântica.

Mas eu às vezes me pergunto se essa é uma ideia construtiva. É saudável imaginar que a nossa felicidade não depende de nós, mas, sim, de outra pessoa qualquer? Mesmo sem tomar o mito dos andróginos ao pé da letra, milhões de pessoas adiam o futuro diariamente à espera de que a vida lhes traga um grande amor, aquele que vai colocar tudo nos eixos.

Eu pergunto de novo: essa é uma ideia saudável?

Há um livro do qual eu gosto muito que trata dessa questão – a ideia do amor romântico – como nenhum outro. Chama-se “Sem fraude nem favor, estudos sobre o amor romântico” e foi escrito pelo psiquiatra e psicanalista pernambucano Jurandir Freire Costa, uma das pessoas que melhor fala dos sentimentos e das emoções no mundo real (que é o contrário do mundo idealizado no qual a gente, sem perceber, passa a maior parte da nossa vida).

Nesse livro, Jurandir afirma que o amor romântico – ao contrário de tudo que nos dizem – não é natural e universal, não é incontrolável e nem é condição essencial à felicidade humana. Isso seriam apenas coisas em que se acredita.

Não vou reproduzir os argumentos minuciosos e nem a prosa erudita do escritor, mas essencialmente ele afirma que o amor exaltado, sublime e raro que nós endeusamos é uma invenção social (como a música) e uma crença (como a religião) que pode perfeitamente ser questionada e modificada. Não existe um jeito eterno e imutável de amar, diz ele. O amor e a forma de encará-lo sempre variaram ao longo da história. Se nosso jeito atual de amar nos parece opressivo, antiquado ou insatisfatório, que tal tentar outra forma de amar?

É estranho pensar no amor dessa maneira, não? Estamos acostumados a vê-lo como algo imutável, quase sagrado, que as pessoas têm ou não têm, conseguem ou não conseguem. Mas claramente não é assim. Ao redor de nós existem pessoas que tratam o amor de forma muito diferente entre si. Fulano é muito romântico, quase tonto, enquanto fulana é de um pragmatismo inquietante: sabe exatamente o que deseja e vai atrás. Essas são diferenças reais, que mostram que o bicho amor não é exatamente o mesmo para todo o mundo.

Quando se compara o nosso modo de agir e pensar com o das outras culturas, as diferenças ficam ainda mais óbvias.

Nos últimos dias, eu tenho pensado muito em um aspecto particular da nossa ideologia do amor, aquele que diz que é impossível ser feliz sozinho. Não é só a música de Tom Jobim que afirma isso. Tudo que nos circunda brada a mesma mensagem. Ela está nos filmes, nas novelas, nas conversas. Ausência de parceiro é sinônimo de infelicidade, fracasso ou esquisitice. Ou tudo isso junto. Talvez seja verdade que a maioria das pessoas sem parceiros tendem a serem menos felizes, mas o contrário certamente é falso: estar com alguém, ter alguém, não é garantia de felicidade. A gente sabe disso, a gente vive isso, mas, socialmente, a gente não divide essa informação. Para todos os efeitos públicos, vale o seguinte combinado: se a pessoa está casada, ou tem um namorado bacana, sua vida está “resolvida”. Mas isso é falso, não? 

Namorei uma vez uma moça cujo pai, um sujeito espetacular, casado com uma mulher encantadora, estava há meses numa terrível depressão. Eu olhava para o sujeito e não entendia. Ele tinha mulher, filhos, casa, profissão, amigos e... tinha desmoronado. Os motivos íntimos da derrocada talvez nem ele soubesse, mas a lição para mim foi clara: nossas questões interiores não se resolvem com a parceria amorosa, nem mesmo com a família.

Não adianta nos cercamos de um cenário de propaganda de margarina (mulher, filhos, cachorro, condomínio) porque, ao final, nossa felicidade depende de nós, das forças interiores que nós somos capazes de mobilizar. As pessoas que amamos nos ajudam, mas elas não substituem nosso amor próprio, nossa motivação e a nossa estabilidade. Precisamos das pessoas, mas precisamos ainda mais de nós mesmos.

É por isso que a promessa de felicidade amorosa às vezes me incomoda. Ela é falsa. Ela é uma forma de propaganda enganosa. Ele conduz as pessoas numa procura inútil por alguém que as faça sentir inteiras e completas, quando, na verdade, essa sensação de inteireza talvez seja inalcançável.

Se a gente olhar de novo para o mito do andrógino, talvez haja nele outra sabedoria a ser extraída: a de que nós, homens e mulheres, somos criaturas intrinsecamente solitárias. Vivemos em grupo, precisamos do grupo e buscamos conforto na intimidade do outro, no amor. Mas talvez seja da nossa natureza jamais nos sentirmos inteiros e completos.

Talvez haja em nós uma inquietação inextinguível e uma angústia que advêm da nossa própria consciência e que nos torna humanos. O amor seria então um alento, um consolo, uma fogueira que nos protege do frio. Mas o frio está lá. E a melhor medida da felicidade talvez seja a forma como lidamos com ele. Como indivíduos, não como casais.

(Ivan Martins. Época on line, 06/01/2010.)
Com relação ao 11º parágrafo, pode-se inferir que:
I. A felicidade ou a infelicidade independem do ser humano estar só ou estar acompanhado.
II. No referido parágrafo, o autor defende a ideia de parceria como sinônimo de felicidade.
III. Muitos acreditam que é impossível ser feliz quando não se tem um parceiro.
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: O 11º parágrafo contrapõe uma crença social à posição do autor: ele menciona a ideologia do amor “que diz que é impossível ser feliz sozinho” e afirma, logo em seguida, que “estar com alguém, ter alguém, não é garantia de felicidade”. Esse contraste é o critério decisivo: a afirmativa II fica incompatível com o texto, enquanto III retoma a crença mencionada e I decorre da recusa de uma relação determinista entre estar só ou acompanhado e ser feliz.

Tema central: crença social e refutação
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque exclui a afirmativa III. O 11º parágrafo efetivamente apresenta essa crença social ao dizer que há uma ideologia do amor “que diz que é impossível ser feliz sozinho”. Logo, III pode ser inferida do trecho.
B
Errada
Está errada porque inclui a afirmativa II. O autor não defende parceria como sinônimo de felicidade; ele a refuta expressamente com a oposição marcada por “mas”: “mas o contrário certamente é falso: estar com alguém, ter alguém, não é garantia de felicidade.”
C
Certa
A alternativa C está correta porque combina duas leituras autorizadas pelo 11º parágrafo. A afirmativa III é válida, já que o texto registra explicitamente a crença difundida de que “é impossível ser feliz sozinho”. A afirmativa I também se sustenta, mas em sentido não absoluto: o autor admite apenas uma tendência possível — “Talvez seja verdade que a maioria das pessoas sem parceiros tendem a serem menos felizes” — e, logo em seguida, nega a equivalência inversa ao afirmar que “estar com alguém, ter alguém, não é garantia de felicidade”. Portanto, o parágrafo recusa que felicidade ou infelicidade sejam determinadas de modo automático pela presença ou ausência de parceiro.
D
Errada
Está errada porque também inclui a afirmativa II, que contraria frontalmente a posição do autor no 11º parágrafo. Embora III seja compatível com o texto, II não é, porque o autor critica justamente a equiparação entre ter parceiro e ser feliz.
E
Errada
Está errada porque nem todas as afirmativas são corretas. A II é incompatível com o trecho “estar com alguém, ter alguém, não é garantia de felicidade”, que nega a ideia de parceria como sinônimo ou garantia de felicidade.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre a voz da ideologia social apresentada no parágrafo e a tese do autor. Quem atribui ao autor a crença que ele menciona para problematizar acaba marcando II como verdadeira.
Dica para questões semelhantes
  • Separe sempre o que o texto apresenta como crença social do que o autor realmente sustenta.
  • Observe conectores de oposição, como “mas”, porque eles podem marcar refutação explícita de uma ideia anterior.
  • Em inferência textual, não transforme tendência ou possibilidade em regra absoluta.
  • Quando aparecerem palavras como “sinônimo” ou “garantia”, confira se o texto realmente estabelece equivalência direta ou se justamente a nega.

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