Em “...o mundo era tão rico que apodrecia.”, a antítese rev...

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Ano: 2009 Banca: UFAC Órgão: UFAC Prova: UFAC - 2009 - UFAC - Vestibular - PRIMEIRO DIA – CADERNO 1 |
Q1375059 Português
Observe o fragmento abaixo de um conto de Clarice Lispector:


“Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos. O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam as águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranqüila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos. Ao mesmo tempo que imaginário – era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudos, o abraço era macio, colado. Como a repulsa que precedesse uma entrega – era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante. As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumada... Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos, enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheio adocicado... O jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno.” (LISPECTOR, C. Amor. Laços de família. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. P. 25)
Em “...o mundo era tão rico que apodrecia.”, a antítese revela uma extraordinária capacidade de percepção da personagem porque:
Alternativas

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: Em “...o mundo era tão rico que apodrecia.”, a antítese aproxima abundância e decomposição para expressar uma realidade paradoxal. No contexto do fragmento, isso não indica erro nem limitação da personagem: mostra que Ana apreende o real em sua complexidade contraditória por meio de imagem figurada, o que sustenta a alternativa D.

Tema central: antítese e percepção
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque afirma “compreensão pobre” do universo, quando o fragmento mostra o contrário: a personagem percebe simultaneamente riqueza, apodrecimento, fascínio e repulsa. A antítese amplia a percepção do real; não a reduz.
B
Errada
Está errada porque transforma a antítese em equívoco de avaliação. O texto não indica engano sobre o valor dos fenômenos percebidos; indica percepção aguda de sua ambivalência. A estranheza da imagem não é confusão, mas tradução linguística da coexistência de polos contrários.
C
Errada
Está errada porque introduz a limitação do “universo doméstico” como fundamento decisivo da frase, mas isso não é sustentado pelo trecho cobrado nem pelo efeito da antítese em foco. A questão pede o que a construção “rico/apodrecia” revela sobre a percepção da personagem naquele momento, e não uma explicação biográfica ou social mais ampla.
D
Certa
A alternativa D acerta porque reconhece a função expressiva da antítese no contexto do fragmento: não há empobrecimento nem erro de percepção, mas tentativa de apreender o movimento contraditório das coisas. No trecho, a exuberância do jardim já contém decomposição, como também aparece em “A decomposição era profunda, perfumada...” e em “O jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno.”. A formulação figurada condensa essa percepção intensificada do real.
E
Errada
Está errada porque extrapola o fragmento para uma incapacidade futura e permanente da personagem. A base textual só autoriza afirmar que, naquele instante, a experiência é formulada por imagens figuradas intensas; não autoriza concluir impossibilidade definitiva de compreender fora delas.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre antítese e erro de percepção: a oposição “rico/apodrecia” pode parecer incoerência ou equívoco, mas no texto ela serve para expressar a complexidade contraditória do real, não para mostrar limitação da personagem.
Dica para questões semelhantes
  • Quando a questão perguntar o efeito de uma figura de linguagem, examine o que ela faz no contexto, não apenas sua definição.
  • Se o texto reunir polos opostos de forma recorrente, trate a oposição como construção de sentido, não como erro lógico.
  • Evite alternativas que extrapolam para incapacidade permanente, futuro da personagem ou causas não sustentadas pelo trecho.

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