Sobre as informações contidas no 1º parágrafo do texto, pode...

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Ano: 2011 Banca: UEPA Órgão: UEPA Prova: UEPA - 2011 - UEPA - Vestibular - PROVA OBJETIVA – 1a Fase |
Q1339981 Português
A solidão essencial

O amor que nos resolve a vida é uma promessa enganosa

Acho que foi um professor de cursinho quem contou em classe o mito dos andróginos. Parte homem e parte mulher, esses seres eram tão completos e tão felizes que despertaram a inveja de Zeus. Irado, o patriarca do Olimpo disparou raios que separaram em duas cada uma das criaturas perfeitas. Desde então, elas vagam pelo mundo em busca de sua metade. São solitárias e incompletas. Somos nós.

Não sei o que os gregos queriam dizer ao criar essa lenda, mas a maneira como nós a interpretamos, modernamente, é muito clara: existe alguém lá fora que nasceu para nós. Enquanto não acharmos essa metade (o amor verdadeiro), jamais seremos felizes.

Muitos de nós acreditamos nisso o tempo todo. Outros acreditam apenas de vez em quando. Raro é encontrar alguém totalmente imune a essa espécie de esperança (ou seria armadilha?) romântica.

Mas eu às vezes me pergunto se essa é uma ideia construtiva. É saudável imaginar que a nossa felicidade não depende de nós, mas, sim, de outra pessoa qualquer? Mesmo sem tomar o mito dos andróginos ao pé da letra, milhões de pessoas adiam o futuro diariamente à espera de que a vida lhes traga um grande amor, aquele que vai colocar tudo nos eixos.

Eu pergunto de novo: essa é uma ideia saudável?

Há um livro do qual eu gosto muito que trata dessa questão – a ideia do amor romântico – como nenhum outro. Chama-se “Sem fraude nem favor, estudos sobre o amor romântico” e foi escrito pelo psiquiatra e psicanalista pernambucano Jurandir Freire Costa, uma das pessoas que melhor fala dos sentimentos e das emoções no mundo real (que é o contrário do mundo idealizado no qual a gente, sem perceber, passa a maior parte da nossa vida).

Nesse livro, Jurandir afirma que o amor romântico – ao contrário de tudo que nos dizem – não é natural e universal, não é incontrolável e nem é condição essencial à felicidade humana. Isso seriam apenas coisas em que se acredita.

Não vou reproduzir os argumentos minuciosos e nem a prosa erudita do escritor, mas essencialmente ele afirma que o amor exaltado, sublime e raro que nós endeusamos é uma invenção social (como a música) e uma crença (como a religião) que pode perfeitamente ser questionada e modificada. Não existe um jeito eterno e imutável de amar, diz ele. O amor e a forma de encará-lo sempre variaram ao longo da história. Se nosso jeito atual de amar nos parece opressivo, antiquado ou insatisfatório, que tal tentar outra forma de amar?

É estranho pensar no amor dessa maneira, não? Estamos acostumados a vê-lo como algo imutável, quase sagrado, que as pessoas têm ou não têm, conseguem ou não conseguem. Mas claramente não é assim. Ao redor de nós existem pessoas que tratam o amor de forma muito diferente entre si. Fulano é muito romântico, quase tonto, enquanto fulana é de um pragmatismo inquietante: sabe exatamente o que deseja e vai atrás. Essas são diferenças reais, que mostram que o bicho amor não é exatamente o mesmo para todo o mundo.

Quando se compara o nosso modo de agir e pensar com o das outras culturas, as diferenças ficam ainda mais óbvias.

Nos últimos dias, eu tenho pensado muito em um aspecto particular da nossa ideologia do amor, aquele que diz que é impossível ser feliz sozinho. Não é só a música de Tom Jobim que afirma isso. Tudo que nos circunda brada a mesma mensagem. Ela está nos filmes, nas novelas, nas conversas. Ausência de parceiro é sinônimo de infelicidade, fracasso ou esquisitice. Ou tudo isso junto. Talvez seja verdade que a maioria das pessoas sem parceiros tendem a serem menos felizes, mas o contrário certamente é falso: estar com alguém, ter alguém, não é garantia de felicidade. A gente sabe disso, a gente vive isso, mas, socialmente, a gente não divide essa informação. Para todos os efeitos públicos, vale o seguinte combinado: se a pessoa está casada, ou tem um namorado bacana, sua vida está “resolvida”. Mas isso é falso, não? 

Namorei uma vez uma moça cujo pai, um sujeito espetacular, casado com uma mulher encantadora, estava há meses numa terrível depressão. Eu olhava para o sujeito e não entendia. Ele tinha mulher, filhos, casa, profissão, amigos e... tinha desmoronado. Os motivos íntimos da derrocada talvez nem ele soubesse, mas a lição para mim foi clara: nossas questões interiores não se resolvem com a parceria amorosa, nem mesmo com a família.

Não adianta nos cercamos de um cenário de propaganda de margarina (mulher, filhos, cachorro, condomínio) porque, ao final, nossa felicidade depende de nós, das forças interiores que nós somos capazes de mobilizar. As pessoas que amamos nos ajudam, mas elas não substituem nosso amor próprio, nossa motivação e a nossa estabilidade. Precisamos das pessoas, mas precisamos ainda mais de nós mesmos.

É por isso que a promessa de felicidade amorosa às vezes me incomoda. Ela é falsa. Ela é uma forma de propaganda enganosa. Ele conduz as pessoas numa procura inútil por alguém que as faça sentir inteiras e completas, quando, na verdade, essa sensação de inteireza talvez seja inalcançável.

Se a gente olhar de novo para o mito do andrógino, talvez haja nele outra sabedoria a ser extraída: a de que nós, homens e mulheres, somos criaturas intrinsecamente solitárias. Vivemos em grupo, precisamos do grupo e buscamos conforto na intimidade do outro, no amor. Mas talvez seja da nossa natureza jamais nos sentirmos inteiros e completos.

Talvez haja em nós uma inquietação inextinguível e uma angústia que advêm da nossa própria consciência e que nos torna humanos. O amor seria então um alento, um consolo, uma fogueira que nos protege do frio. Mas o frio está lá. E a melhor medida da felicidade talvez seja a forma como lidamos com ele. Como indivíduos, não como casais.

(Ivan Martins. Época on line, 06/01/2010.)
Sobre as informações contidas no 1º parágrafo do texto, pode-se afirmar:

I. Uma das causas da ira de Zeus veio em consequência da felicidade dos andróginos.
II. A expressão patriarca do Olimpo substitui o vocábulo Zeus.
III. Os andróginos eram criaturas perfeitas por serem parte homem e parte mulher.
IV. Os andróginos são retratados no texto em dois momentos distintos: um momento antes e um momento depois da ira de Zeus.
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito: E

Fundamento decisivo: A resolução depende da leitura literal do 1º parágrafo, com atenção à coesão referencial, à causalidade e à progressão temporal: “Parte homem e parte mulher, esses seres eram tão completos e tão felizes que despertaram a inveja de Zeus. Irado, o patriarca do Olimpo disparou raios que separaram em duas cada uma das criaturas perfeitas. Desde então, elas vagam pelo mundo em busca de sua metade. São solitárias e incompletas.” Esse trecho valida I, II, III e IV, o que conduz à alternativa E.

Tema central: informações explícitas no 1º parágrafo
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque exclui III e IV, mas ambas são sustentadas pelo 1º parágrafo. III decorre da caracterização inicial dos andróginos como “Parte homem e parte mulher” e, nessa mesma apresentação, como seres completos/perfeitos. IV decorre do contraste temporal marcado por “Desde então”, que separa o estado anterior e o posterior à ação de Zeus.
B
Errada
Está errada porque exclui II e IV. II é confirmada pela coesão referencial: “o patriarca do Olimpo” substitui “Zeus”, mantendo o mesmo referente. IV também é correta, porque o parágrafo descreve claramente dois momentos distintos dos andróginos: antes da separação e depois dela.
C
Errada
Está errada porque exclui I e III. I está expressa na relação causal de “tão completos e tão felizes que despertaram a inveja de Zeus”, logo a felicidade integra o motivo da reação divina. III também se sustenta, pois o texto associa a formação híbrida “parte homem e parte mulher” à condição de seres completos/perfeitos no interior do mito.
D
Errada
Está errada porque exclui I e II, ambas explicitamente confirmadas no parágrafo. I se apoia no trecho em que a felicidade e a completude dos andróginos despertam a inveja de Zeus. II se apoia na retomada lexical “o patriarca do Olimpo”, que não introduz novo personagem, mas retoma Zeus.
E
Certa
A alternativa E está correta porque as quatro afirmativas retomam dados expressos no 1º parágrafo. I se sustenta em “tão completos e tão felizes que despertaram a inveja de Zeus”, de modo que a felicidade participa da causa da reação de Zeus. II se sustenta porque “o patriarca do Olimpo” retoma o mesmo referente já mencionado, Zeus. III se sustenta porque o texto apresenta os andróginos como “Parte homem e parte mulher” e, no mesmo núcleo descritivo, como seres “completos” e “criaturas perfeitas”, dentro da lógica do mito narrado. IV se sustenta pela oposição temporal explícita: antes da ação de Zeus, eles são completos, felizes e perfeitos; depois, “Desde então”, tornam-se “solitárias e incompletas”.
Pegadinha da questão
A banca explora quatro confusões possíveis: não perceber que a felicidade dos andróginos participa da causa da reação de Zeus; não reconhecer “o patriarca do Olimpo” como retomada de “Zeus”; tratar III como se exigisse prova externa ao texto, quando basta a lógica interna do mito narrado; e ignorar o marcador temporal “Desde então”, que separa nitidamente o antes e o depois.
Dica para questões semelhantes
  • Em questão de informação explícita, localize no texto o trecho exato que responde a cada afirmativa antes de avaliar as alternativas.
  • Verifique se expressões nominais diferentes retomam o mesmo referente; isso evita erro em itens de coesão referencial.
  • Observe conectores e marcadores temporais como “Desde então”, porque eles costumam definir a organização da informação no texto.

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo