O SOBREVIVENTE Impossível compor um poema a essa altura da ...
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Ano: 2023
Banca:
FUVEST
Órgão:
USP
Prova:
FUVEST - 2023 - USP - Vestibular - Conhecimentos Gerais V |
Q4237281
Português
O SOBREVIVENTE
Impossível compor um poema a essa altura da evolução [da humanidade. Impossível escrever um poema – uma linha que seja – de [verdadeira poesia.
O último trovador morreu em 1914. Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.
Há máquinas terrivelmente complicadas para as [necessidades mais simples.
Se quer fumar um charuto aperte um botão. Paletós abotoam-se por eletricidade. Amor se faz pelo sem-fio. Não precisa estômago para digestão.
Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta muito para atingirmos um nível razoável de cultura. Mas até lá, felizmente, estarei morto.
Os homens não melhoraram e matam-se como percevejos. Os percevejos heroicos renascem. Inabitável o mundo é cada vez mais habitado. E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo [dilúvio.
(Desconfio que escrevi um poema.)
Carlos Drummond de Andrade. Alguma Poesia, 1930.
Entre o primeiro e o último verso, há uma aparente contradição, que, todavia, não se sustenta porque
Impossível compor um poema a essa altura da evolução [da humanidade. Impossível escrever um poema – uma linha que seja – de [verdadeira poesia.
O último trovador morreu em 1914. Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.
Há máquinas terrivelmente complicadas para as [necessidades mais simples.
Se quer fumar um charuto aperte um botão. Paletós abotoam-se por eletricidade. Amor se faz pelo sem-fio. Não precisa estômago para digestão.
Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta muito para atingirmos um nível razoável de cultura. Mas até lá, felizmente, estarei morto.
Os homens não melhoraram e matam-se como percevejos. Os percevejos heroicos renascem. Inabitável o mundo é cada vez mais habitado. E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo [dilúvio.
(Desconfio que escrevi um poema.)
Carlos Drummond de Andrade. Alguma Poesia, 1930.
Entre o primeiro e o último verso, há uma aparente contradição, que, todavia, não se sustenta porque