O texto sugere que o surgimento do Curupira, no imaginário ...

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Ano: 2016 Banca: PUC - SP Órgão: PUC - SP Prova: PUC - SP - 2016 - PUC - SP - Vestibular- Primeiro Semestre |
Q762681 Conhecimentos Gerais

Leia o texto abaixo para responder à questão.

“O Descobrimento da América, no quadro da expansão marítima europeia, deu lugar à unificação microbiana do mundo. No troca-troca de vírus, bactérias e bacilos com a Europa, África e Ásia, os nativos da América levaram a pior. Dentre as doenças que maior mortandade causaram nos ameríndios estão as 'bexigas', isto é, a varíola, a varicela e a rubéola (vindas da Europa), a febre amarela (da África) e os tipos mais letais de malária (da Europa mediterrânica e da África). Já a América estava infectada pela hepatite, certos tipos de tuberculose, encefalite e pólio. Mas o melhor 'troco' patogênico que os ameríndios deram nos europeus foi a sífilis venérea, verdadeira vingança que os vencidos da América injetaram no sangue dos conquistadores. Traços do trauma provocado por essas doenças parecem ter-se cristalizado na mitologia indígena. Quatro entidades maléficas se destacavam na religião tupi no final do Quinhentos: Taguaigba ('Fantasma ruim'), Macacheira ou Mocácher ('O que faz a gente se perder'), Anhanga ('O que encesta a gente') e Curupira ('O coberto de pústulas'). É razoável supor que o curupira tenha surgido no imaginário tupi após o choque microbiano das primeiras décadas da descoberta.”

Luiz Felipe de Alencastro. “Índios perderam a guerra bacteriológica”. Folha de S. Paulo, 12.10.1991, p. 7. Adaptado.

O texto sugere que o surgimento do Curupira, no imaginário tupi do final do século XVI, pode ser explicado como uma
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Resposta: Alternativa D

Tema central: interpretação de texto histórico-cultural — como mitos indígenas podem representar, de forma simbólica, traumas sociais causados por epidemias após o contato com europeus.

Resumo teórico: mitos e figuras míticas muitas vezes cristalizam memórias coletivas. Após o "encontro" intercontinental houve intensa troca microbiana (ver Alfred W. Crosby, The Columbian Exchange) e grande mortalidade entre povos ameríndios. A construção de entidades maléficas na tradição tupi pode ser leitura simbólica desse trauma: figuras descritas com características de doenças refletem experiências sanitárias coletivas.

Justificativa da alternativa correta (D): o enunciado informa que Curupira significa “o coberto de pústulas” e relaciona seu surgimento ao “choque microbiano” e à mortandade provocada por doenças trazidas pelos conquistadores. Assim, a leitura mais direta e coerente é que o Curupira é uma representação simbólica da mortandade causada por doenças pustulentas — exatamente o que afirma a alternativa D.

Análise das alternativas incorretas:

A — “tentativa de descobrir formas de cura”: incorreta. O texto indica uma cristalização mítica do trauma, não descreve práticas médicas nem busca terapêutica. Mitos representam experiências, não são manuais de cura.

B — “narrativa para assustar crianças”: parcialmente implausível. Embora mitos possam ser usados para disciplinar ou educar crianças, o texto destaca a ligação simbólica com doenças e mortalidade coletiva, não uma função pedagógica infantil nem associação direta dos males aos conquistadores.

C — “disposição de analisar logicamente a relação entre vencidos e conquistadores”: incorreta. Mitos são expressões simbólicas e emocionais; eles não equivalem a análises racionais ou científicas sobre relações sociais. O trecho fala em trauma cultural, não em uma reflexão lógica-racional.

Estrategia de prova: ao resolver, busque palavras-chave no enunciado (ex.: “pústulas”, “choque microbiano”, “mortandade”, “cristalizado na mitologia”). Elas indicam que o sentido é simbólico/metafórico. Elimine alternativas que propõem ações práticas (cura) ou interpretações funcionais sem relação direta com o texto (assustar crianças, análise lógica).

Fontes sugeridas: Luiz Felipe de Alencastro (texto adaptado) e Alfred W. Crosby, The Columbian Exchange (1972) — leitura útil sobre impacto biológico do contato intercontinental.

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