“Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas, e p...

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Ano: 2012 Banca: IFG Órgão: IF-GO Prova: IFG - 2012 - IF-GO - Vestibular |
Q1273701 Português

A questão toma por base o texto a seguir, de Carlos Drummond de Andrade.  

Elegia 1938

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco, onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo. Praticas laboriosamente os gestos universais, sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas, e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção. À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer. Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito. A literatura estragou tuas melhores horas de amor. Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota e adiar para outro século a felicidade coletiva. Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia Poética. 47

ed. Rio de Janeiro: Record, 2001.

Vocabulário:

Elegia – Poema lírico, cujo tom é quase sempre terno e triste. 

“Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas, e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.”
Ao relacionarmos o sentido figurado dos termos “heróis” e “arrastas” nos versos de Drummond transcritos acima, constatamos que:
Alternativas

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Gabarito: E

Fundamento decisivo: O ponto decisivo é a leitura contextual e irônica de "Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas, / e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.": "heróis" aparece em sentido figurado, em contraste com a condição de quem "te arrastas", o que afasta qualquer leitura literal e orienta a resposta para a crítica a discursos de resignação.

Tema central: ironia e sentido figurado
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque "arrastas" tem sujeito identificável. A flexão verbal está na 2ª pessoa do singular e se articula com o interlocutor construído ao longo do poema: "Trabalhas", "Praticas", "sentes", "Amas", "sabes", "Aceitas". Não haver sujeito expresso lexicalmente no verso não significa ausência de sujeito identificável.
B
Errada
Está errada por análise sintática e concordância verbal. "Os heróis" é sujeito de "enchem" e de "preconizam". Já "arrastas" está na 2ª pessoa do singular, na oração "da cidade em que te arrastas", e seu sujeito é o "tu" a quem o poema se dirige, não "os heróis".
C
Errada
Está errada porque atribui a "arrastas" um valor moral que o texto não sustenta. No contexto, o verbo exprime abatimento, desgaste e rebaixamento, não comodismo. Além disso, o poema não acusa os marginalizados de não valorizarem a virtude; ele critica justamente a pregação abstrata da renúncia diante da opressão concreta.
D
Errada
Está errada por leitura literal indevida e por acrescentar elementos não autorizados pelo texto. "Heróis" não denota qualidade real; o contexto produz ironia. O poema também não identifica essas figuras como "intelectuais e religiosos", nem menciona "mansidão" e "direito à vida". O verso fala em "virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção".
E
Certa
A alternativa E está correta porque capta o valor irônico de "heróis" no contexto do verso e o relaciona à fala desses sujeitos: eles "preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção" enquanto o interlocutor "te arrastas" numa condição de sofrimento e impotência. Assim, o poema não elogia esses "heróis"; critica, por contraste, a defesa hipócrita da resignação dos oprimidos diante do sofrimento.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: ler "heróis" literalmente, perdendo a ironia, e transformar o abatimento expresso por "te arrastas" em juízo moral de comodismo.
Dica para questões semelhantes
  • Quando um termo elogioso aparece ao lado de um quadro de sofrimento ou degradação, verifique se o contexto produz ironia em vez de exaltação literal.
  • Não atribua ao verbo um valor moral sem apoio textual: em contexto poético, a escolha verbal pode marcar condição existencial ou social, não defeito de caráter.
  • Em alternativas interpretativas, elimine as que acrescentam grupos, ideias ou valores não nomeados no texto-base.
  • Se houver dúvida sobre sujeito verbal, confira primeiro a flexão da forma verbal e a continuidade enunciativa do texto.

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