O dentista me passou a receita de remédio para ajudar
a cicatrizar melhor uma pequena cirurgia. Parei na primeira farmácia. Aliás, uma grande farmácia, pertencente a uma
dessas redes. Farmácia se tornou supermercado. A gente
entra, recebe cestinha, procura os remédios nas gôndolas. E
importamos o costume norte-americano de drugstore. Tem de
tudo, de remédios a bolachas, leite em pó, calcinha e sutiãs,
refrigerantes. Aguardem: cachorro-quente!
Pois o jovem que me serviu apanhou a receita, olhou,
reolhou e perguntou:
— O que está escrito aqui?
— O nome do remédio.
— Sei, mas qual é o remédio?
— Você é quem tem de saber.
— Mas como vou saber, se não entendo a letra?
— Acho que deve ser... Periogard... Isto? Existe um remédio com esse nome?
— Vou ver.
Ele foi. Olhou o que foi possível no P. E voltou.
— Não temos.
— Acabou ou está em falta?
— Está em falta.
Deixei por isso mesmo e continuei. Parei na próxima.
Também o jovem olhou, reolhou, cochichou com outro que
deu uma vista na receita.
— Não temos.
— Que remédio mesmo é?
— É esse que está escrito aí.
— Sei. Mas não entendo letra de médico. — Nem eu. Por que não escreveu à máquina?
Continuei mais um pouco, mas desisti. E fui para casa,
pensando naqueles tempos em que o farmacêutico lia qualquer letra. E os médicos pareciam fazer de propósito aqueles
garranchos, para colocar à prova o pobre boticário. Que, por
sua vez, não dava o braço a torcer. Olhava, e sabia o medicamento. Pode ser que muita gente tenha tomado aquilo que
o farmacêutico entendeu e que nem sempre correspondia ao
prescrito. Mas, era batata, não falhava. Em Araraquara, de
vez em quando, a professora apanhava a prova de um aluno:
— Que letrinha, hein? Vai ser médico? O que pensa?
Que o professor é farmacêutico?
Eram duas castas bem estabelecidas. Os médicos com
as letras ruins e os farmacêuticos que decifravam tudo,
champolions1
dedicados. Muitas vezes imaginei que houvesse um conluio, principalmente quando se deixava a receita
para aviar2
. Na calada da noite, o farmacêutico batendo à
porta do médico e pedindo: “Socorro, doutor. Pode me decifrar as receitas de hoje?” E lá ficavam os dois, labutando.
Hoje, médicos usam computadores. E as farmácias têm
tantos, mas tantos remédios, que é impossível se guardar o
nome de todos. Há pilhas de listas, grossíssimas. Ou o povo
anda muito doente ou o melhor negócio do mundo é montar
um laboratório e em seguida uma farmácia.
(Ignácio de Loyola Brandão. Crônicas para ler na escola, 2010.)
1
champolion: Jean-François Champollion, principal responsável pela
decifração dos hieróglifos egípcios.
2
aviar: preparar um medicamento segundo uma prescrição.
O cronista recorre a expressão própria da linguagem coloquial
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