O nome da rapsódia é Macunaíma, mas não é só Macunaíma. Mari...

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Q1275770 Literatura
O nome da rapsódia é Macunaíma, mas não é só Macunaíma. Mario de Andrade quis dizer alguma coisa do seu protagonista e acrescentou ao título um atributo paradoxal: O herói sem nenhum caráter. O nome, Macunaíma, centro da rapsódia. O epíteto, herói. A diferença está na cauda de cada proposição: no começo, sem nenhum caráter; no fim, de nossa gente. O que se pode inferir é a presença viva, no autor, de duas motivações tão fortes que se converteram em molas da composição da obra: a) por um lado, o desejo de contar e cantar episódios em torno de uma figura lendária que o fascinara pelos mais diversos motivos e que trazia em si os atributos do herói, entendido no senso mais lato possível de um ser entre humano e mítico, que desempenha certos papéis, vai em busca de um bem essencial, arrosta perigos, sofre mudanças extraordinárias, enfim, vence ou malogra. b) por outro lado, o desejo não menos imperioso de pensar o povo brasileiro, nossa gente, percorrendo as trilhas cruzadas ou superpostas da sua existência selvagem, colonial e moderna, à procura de uma identidade que, de tão plural que é, beira a surpresa e a indeterminação; daí ser o herói sem nenhum caráter. Compreender Macunaíma é sondar ambas as motivações: a de narrar, que é lúdica e estética; a de interpretar, que é histórica e ideológica.
BOSI. A. Situação de Macunaíma. In: ANDRADE. M. Macunaíma. São Paulo: Scipione Cultural, 1997 (adaptado).
Com base no fragmento acima do crítico literário Alfredo Bosi é possível inferir que o Macunaíma de Mário de Andrade
Alternativas

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: O critério decisivo é identificar a alternativa que preserva, ao mesmo tempo, a função de narrar de modo lúdico e estético e a função de interpretar o Brasil de modo histórico e ideológico. No enunciado, isso aparece em “pensar o povo brasileiro, nossa gente” e em “identidade que, de tão plural que é, beira a surpresa e a indeterminação”, o que conduz ao gabarito D.

Tema central: identidade nacional plural
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque reduz a obra à figura de um herói mitológico voltado a realidades sobre-humanas e afastado do real. O trecho de Bosi afirma expressamente que Macunaíma também quer “pensar o povo brasileiro” e que há uma motivação “histórica e ideológica”. Logo, a dimensão mítica não exclui a interpretação da realidade brasileira.
B
Errada
Está errada porque atribui à obra um retorno idílico a um Brasil rural, popular e harmonizado com a natureza. Isso contraria o fundamento do texto, que fala em trilhas “cruzadas ou superpostas” da existência “selvagem, colonial e moderna” e em identidade plural e indeterminada. Não há idealização regressiva do passado, mas leitura crítica da formação brasileira.
C
Errada
Está errada porque nega exatamente o que o fragmento afirma. Bosi diz que a obra tem duas motivações: uma “lúdica e estética” e outra “histórica e ideológica”. Portanto, não se pode classificá-la como romance apenas lúdico, “à moda romântica”, nem dizer que está livre do componente político-ideológico.
D
Certa
A alternativa D é a única que corresponde ao núcleo interpretativo do fragmento: Macunaíma não é só narrativa de um herói mítico, mas também interpretação do Brasil. O texto-base afirma que a obra busca “pensar o povo brasileiro” por meio de uma formação composta por camadas “selvagem, colonial e moderna” e por uma identidade “plural” e indeterminada. Por isso, faz sentido ler o “herói sem nenhum caráter” como figura incompatível com uma identidade nacional pura, fixa, exemplar ou idealizada. A alternativa acerta ao reconhecer a convivência de tradições diversas e ao rejeitar a redução da obra a um nacionalismo romântico redutor.
E
Errada
Está errada porque desloca a finalidade da diversidade linguística e folclórica para uma simples ironização do caos cultural causado por vanguardas europeias mal assimiladas. O texto-base sustenta outra função: interpretar o povo brasileiro em sua pluralidade histórica e cultural. A alternativa troca a ideia central de construção crítica da identidade brasileira por uma sátira cujo foco não é o que o enunciado autoriza concluir.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre presença de mito, folclore e ludismo, de um lado, e ausência de leitura histórica e ideológica, de outro; também testa se o candidato entende “herói sem nenhum caráter” como identidade não fixa, e não como simples defeito moral ou como modelo nacional romântico.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o texto crítico apresentar dupla função da obra, elimine alternativas que absolutizem apenas uma delas.
  • Em Macunaíma, a expressão “sem nenhum caráter” deve ser lida como recusa de identidade fixa e homogênea, não como mera falha moral.
  • Se o enunciado destacar pluralidade, sobreposição histórica e formação híbrida, descarte respostas que idealizem a nação ou proponham retorno idílico ao passado.

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