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Ano: 2014 Banca: FGV Órgão: FGV Prova: FGV - 2014 - FGV - Administração Pública - Vestibular |
Q1338836 Português

Sem aspas na língua


    De início, o que me incomodava era o peso desproporcional que as aspas dão à palavra. Se escrevo mouse pad, por exemplo, suscito em seu pensamento apenas o quadradinho discreto que vive ao lado do teclado, objeto não mais notável na economia do cotidiano do que as dobradiças da janela ou o porta-escova de dentes. Já "mouse pad" parece grafado em neon, brilha diante de seus olhos como o luminoso de uma lanchonete americana. Desequilibra.
    Tá legal, eu aceito o argumento: não se pode exigir do leitor que saiba outra língua além do português. Se encasqueto em ornar meu texto com "dramblys" ou "haveloos" - termos em lituano e holandês para elefante e mulambento, respectivamente -, as aspas surgem para acalmar quem me lê, como se dissessem: "Queridão, os termos discriminados são coisa doutras terras e doutra gente, nada que você devesse conhecer".
    Pois é essa discriminação o que, agora sei, mais me incomoda. Vejo por trás das aspas uma pontinha de xenofobia, como se para circular entre nós a palavra estrangeira precisasse andar com o passaporte aberto, mostrando o carimbo na entrada e na saída.
    Ora, por quê? Será que "blackberries" rolando livremente por nossa terra poderiam frutificar e, como ervas daninhas, roubar os nutrientes da graviola, da mangaba e do cajá? "Samplers", sem as barrinhas duplas de proteção, acabariam poluindo o português com "beats" exógenos, condenando-o a uma versão "remix"? Caso recebêssemos "blowjobs" sem o supracitado preservativo gráfico, doenças venéreas se espalhariam por nosso exposto vernáculo?
    Bobagem, pessoal. Livremos as nossas frases desses arames farpados, desses cacos de vidro. A língua é viva: quanto mais línguas tocar, mais sabores irá provar e experiências poderá acumular.


                            Antônio Prata, Folha de S. Paulo, 22/05/2013. Adaptado

Nos trechos abaixo, o autor dirige-se ao leitor. Desses trechos, o único que pressupõe a opinião do leitor é:
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central da questão: Interpretação de texto – pressuposição. A questão avalia a capacidade de identificar expressões que, no discurso, pressupõem uma opinião ou posicionamento prévio do interlocutor, conceito central nas áreas de pragmática e análise do discurso.

Pressuposição – conceito-chave: Segundo gramáticas como a de Evanildo Bechara, pressupor é assumir implicitamente uma informação como já existente ou aceita por quem ouve/lê. Pressuposições não são afirmadas diretamente, mas deduzidas como necessárias para o sentido do texto.

Justificativa da alternativa correta:
B) “Tá legal, eu aceito o argumento”.
Esse trecho pressupõe que existe um argumento anterior, já formulado ou entendido pelo leitor. Ao dizer “eu aceito o argumento”, o autor subentende que tal argumento já está posto, conhecido – ou seja, considera que o leitor tem uma opinião formada sobre o tema. Esse é o sentido de pressuposição: o autor não apresenta um argumento novo, mas dialoga com algo que supõe que o leitor já defende.

Análise das alternativas incorretas:

A) “suscito em seu pensamento”: Aqui, o autor indica que provoca uma imagem mental no leitor, mas não pressupõe opinião, apenas desencadeia um raciocínio.

C) “nada que você devesse conhecer”: Sugere desconhecimento (“você não precisa saber disso”), mas não pressupõe que o leitor pense algo específico, apenas supõe possível ignorância.

D) “Ora, por quê?”: Expressa indagação ou convite à reflexão, sem pressuposição de opinião já estabelecida no leitor.

E) “Bobagem, pessoal”: O autor expõe seu próprio juízo; não há pressuposição sobre o que pensa o leitor.

Dica de prova: Para identificar pressuposições, procure enunciados que só fazem sentido se houver um contexto tácito, informação ou ideia assumida antes. Expressões como “eu aceito sua opinião...”, “como você sabe...”, “ainda que seja verdade...” geralmente operam sob pressuposição. Atenção a pegadinhas: nem toda frase dirigida ao leitor implica que ele tem opinião formada!

Resumo: O trecho da alternativa B pressupõe, sem dizer explicitamente, a existência de uma opinião do leitor, solucionando a questão pela interpretação fina da pragmática. Isso é essencial para quem presta concursos, como ensina Bechara em "Moderna Gramática Portuguesa" e Fiorin em "Linguagem e Ideologia".

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