Para responder à questão, leia o artigo “Pó de
pirlimpimpim”, do neurocientista brasileiro Sidarta Ribeiro.
Alcançar o aprendizado instantâneo é um desejo poderoso, pois o cérebro sem informação é pouco mais que estofo de macela1
. Emília, a sabida boneca de Monteiro Lobato,
aprendeu a falar copiosamente após engolir uma pílula, adquirindo de supetão todo o vocabulário dos seres humanos
ao seu redor. No filme Matrix (1999), a ingestão de uma pílula
colorida faz o personagem Neo descobrir que todo o mundo
em que sempre viveu não passa de uma simulação chamada
Matriz, dentro da qual é possível programar qualquer coisa.
Poucos instantes depois de se conectar a um computador,
Neo desperta e profere estupefato: “I know kung fu”.
Entretanto, na matriz cerebral das pessoas de carne e
osso, vale o dito popular: “Urubu, pra cantar, demora.” O
aprendizado de comportamentos complexos é difícil e demorado, pois requer a alteração massiva de conexões neuronais. Há consenso hoje em dia de que o conteúdo dos nossos pensamentos deriva dos padrões de ativação de vastas
redes neuronais, impossibilitando a aquisição instantânea de
memórias intrincadas.
Mas nem sempre foi assim. Há meio século, experimentos realizados na Universidade de Michigan pareciam indicar
que as planárias, vermes aquáticos passíveis de condicionamento clássico, eram capazes de adquirir, mesmo sem treinamento, associações estímulo-resposta por ingestão de um
extrato de planárias já condicionadas. O resultado, aparentemente revolucionário, sugeria que os substratos materiais
da memória são moléculas. Contudo, estudos posteriores
demonstraram que a ingestão de planárias não condicionadas também acelerava o aprendizado, revelando um efeito
hormonal genérico, independente do conteúdo das memórias
presentes nas planárias ingeridas.
A ingestão de memórias é impossível porque elas são
estados complexos de redes neuronais, não um quantum
de significado como a pílula da Emília. Por outro lado, é sim
possível acelerar a consolidação das memórias por meio da
otimização de variáveis fisiológicas envolvidas no processo.
Uma linha de pesquisa importante diz respeito ao sono, cujo
benefício à consolidação de memórias já foi comprovado. Em
2006, pesquisadores alemães publicaram um estudo sobre
os efeitos mnemônicos da estimulação cerebral com ondas
lentas (0,75 Hz) aplicadas durante o sono por meio de um
estimulador elétrico. Os resultados mostraram que a estimulação de baixa frequência é suficiente para melhorar o aprendizado de diferentes tarefas. Ao que parece, as oscilações
lentas do sono são puro pó de pirlimpimpim.
(Sidarta Ribeiro. Limiar: ciência e vida contemporânea, 2020.)
1macela: planta herbácea cujas flores costumam ser usadas pela população como estofo de travesseiros.
“Entretanto, na matriz cerebral das pessoas de carne e
osso, vale o dito popular: ‘Urubu, pra cantar, demora.’” (2o
parágrafo)
Considerando o contexto, o ditado popular mencionado pode
ser substituído pelo seguinte provérbio:
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
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