Para responder à questão, leia a crônica “Almas
penadas”, de Olavo Bilac, publicada originalmente em 1902.
Outro fantasma?... é verdade: outro fantasma. Já tardava. O Rio de Janeiro não pode passar muito tempo sem o seu
lobisomem. Parece que tudo aqui concorre para nos impelir
ao amor do sobrenatural [...]. Agora, já se não adormecem as
crianças com histórias de fadas e de almas do outro mundo.
Mas, ainda há menos de cinquenta anos, este era um povo
de beatos [...]. [...] Os tempos melhoraram, mas guardam ainda um pouco dessa primitiva credulidade. Inventar um fantasma é ainda um magnífico recurso para quem quer levar a
bom termo qualquer grossa patifaria. As almas simples vão
propagando o terror, e, sob a capa e a salvaguarda desse
temor, os patifes vão rejubilando.
O novo espectro que nos aparece é o de Catumbi. Começou a surgir vagamente, sem espalhafato, pelo pacato
bairro — como um fantasma de grande e louvável modéstia.
E tão esbatido1
passava o seu vulto na treva, tão sutilmente
deslizava ao longo das casas adormecidas — que as primeiras pessoas que o viram não puderam em consciência dizer
se era duende macho ou duende fêmea. [...] O fantasma
não falava — naturalmente por saber de longa data que pela
boca é que morrem os peixes e os fantasmas... Também,
ninguém lhe falava — não por experiência, mas por medo.
Porque, enfim, pode um homem ter nascido num século de
luzes e de descrenças, e ter mamado o leite do liberalismo
nos estafados seios da Revolução Francesa, e não acreditar nem em Deus nem no Diabo — e, apesar disso, sentir a voz presa na garganta, quando encontra na rua, a desoras2
,
uma avantesma3
...
Assim, um profundo mistério cercava a existência do lobisomem de Catumbi — quando começaram de aparecer vestígios assinalados de sua passagem, não já pelas ruas, mas
pelo interior das casas. Não vades agora crer que se tenham
sumido, por exemplo, as hóstias consagradas da igreja de
Catumbi, ou que os empregados do cemitério de S. Francisco de Paula tenham achado alguma sepultura vazia, ou que
algum circunspecto pai de família, certa manhã, ao despertar,
tenha dado pela falta... da própria alma. Nada disso. Os fenômenos eram outros. Desta casa sumiram-se as arandelas,
daquela outra as galinhas, daquela outra as joias... E a polícia, finalmente, adquiriu a convicção de que o lobisomem,
para perpétua e suprema vergonha de toda a sua classe, andava acumulando novos pecados sobre os pecados antigos,
e dando-se à prática de excessos menos merecedores de
exorcismos que de cadeia.
Dizem as folhas4
que a polícia, competentemente munida de bentinhos5
e de revólveres, de amuletos e de sabres,
assaltou anteontem o reduto do fantasma. Um jornal, dando
conta da diligência, disse que o delegado achou dentro da
casa sinistra — um velho pardieiro6
que fica no topo de uma
ladeira íngreme — alguns objetos singulares que pareciam
instrumentos “pertencentes a gatunos”. E acrescentou: “alguns morcegos esvoaçavam espavoridos, tentando apagar
as velas acesas que os sitiantes7
empunhavam”.
Esta nota de morcegos deve ser um chique romântico do
noticiarista. No fundo da alma de todo o repórter há sempre
um poeta... Vamos lá! nestes tempos, que correm, já nem
há morcegos. Esses feios quirópteros, esses medonhos ratos alados, companheiros clássicos do terror noturno, já não
aparecem pelo bairro civilizado de Catumbi. Os animais, que
esvoaçavam espavoridos, eram sem dúvida os frangões roubados aos quintais das casas... Ai dos fantasmas! e mal dos
lobisomens! o seu tempo passou.
(Olavo Bilac. Melhores crônicas, 2005.)
1esbatido: de tom pálido.
2 a desoras: muito tarde.
3 avantesma: alma do outro mundo, fantasma, espectro.
4 folha: periódico diário, jornal.
5 bentinho: objeto de devoção contendo orações escritas.
6 pardieiro: prédio velho ou arruinado.
7 sitiante: policial.
Em relação à reportagem sobre a diligência policial (4o
e 5o
parágrafos), o cronista destaca seu caráter
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