“Qual Borgonha! Qual Bordeaux! Temos no Sul muito melhores…”...

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Q4152389 Português

Leia o trecho do romance Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, para responder a questão


    Ricardo agarrou o cálice com delicadeza e respeito, levou-o aos lábios e foi como se todo ele bebesse o licor nacional.

— Está bom, hein?— indagou o major.

— Magnífico — fez Ricardo, estalando os lábios.

— É de Angra. Agora tu vais ver que magnífico vinho do Rio Grande temos… Qual Borgonha! Qual Bordeaux! Temos no Sul muito melhores…

    E o jantar correu assim, nesse tom. Quaresma exaltando os produtos nacionais: a banha, o toucinho e o arroz; a irmã fazia pequenas objeções e Ricardo dizia: “É, é, não há dúvida” — rolando nas órbitas os olhos pequenos, franzindo a testa diminuta que se sumia no cabelo áspero, forçando muito a sua fisionomia miúda e dura a adquirir uma expressão sincera de delicadeza e satisfação.

    Acabado o jantar foram ver o jardim. Era uma maravilha; não tinha nem uma flor… Certamente não se podia tomar por tal míseros beijos-de-frade, palmas-de-santa-rita, quaresmas lutulentas1 , manacás melancólicos e outros belos exemplares dos nossos campos e prados. Como em tudo o mais, o major era em jardinagem essencialmente nacional. Nada de rosas, de crisântemos, de magnólias — flores exóticas; as nossas terras tinham outras mais belas, mais expressivas, mais olentes2 , como aquelas que ele tinha ali.

    Ricardo ainda uma vez concordou e os dois entraram na sala, quando o crepúsculo vinha devagar, muito vagaroso e lento, como se fosse um longo adeus saudoso do sol ao deixar a terra, pondo nas coisas a sua poesia dolente3 e a sua deliquescência4 .

    Mal foi aceso o gás, o mestre de violão empunhou o instrumento, apertou as cravelhas, correu a escala, abaixando-se sobre ele como se o quisesse beijar. Tirou alguns acordes, para experimentar; e dirigiu-se ao discípulo, que já tinha o seu em posição:

— Vamos ver. Tire a escala, major.

(Triste fim de Policarpo Quaresma, 2010.)


1 lutulento: lamacento, lodoso.

2 olente: cheiroso, perfumado.

3 dolente: lamentosa, queixosa.

4 deliquescência: propriedade que certas substâncias têm de extrair água.


“Qual Borgonha! Qual Bordeaux! Temos no Sul muito melhores…” (4o parágrafo)


Mantendo a correção gramatical e o sentido original do texto, a palavra sublinhada pode ser substituída por:

Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito: E

Fundamento decisivo: No trecho “Temos no Sul muito melhores…”, “muito” funciona como advérbio de intensidade sobre “melhores”; por isso, a substituição deve manter esse valor, o que é atendido por “bem”.

Tema central: valor intensificador contextual
Análise das alternativas
A
Errada
“Vários” introduz ideia de quantidade ou multiplicidade, não de intensidade. Além disso, “Temos no Sul vários melhores” não recompõe adequadamente a estrutura comparativa do trecho, porque “muito” ali não determina um nome: intensifica “melhores”.
B
Errada
“Frequentemente” é advérbio de frequência. Sua entrada no trecho trocaria o valor semântico original de intensificação por ideia de habitualidade, que não está presente em “Temos no Sul muito melhores…”.
C
Errada
“Comparativamente” não preserva o valor de intensidade. O contexto já é comparativo por causa de “melhores” e do apoio em “Qual Borgonha! Qual Bordeaux!”; o que “muito” faz é reforçar essa superioridade, não introduzir um advérbio de comparação.
D
Errada
“Outros” muda a classe e a função da palavra no enunciado. No trecho, “muito” é advérbio de intensidade; “outros” é pronome/adjetivo indefinido. Por isso, “Temos no Sul outros melhores” rompe a estrutura e não preserva o sentido original.
E
Certa
“Bem” pode funcionar, nesse contexto, como advérbio de intensidade diante de comparativo: “bem melhores”. Assim, preserva o reforço enfático da superioridade dos vinhos mencionados e mantém a correção gramatical.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre reconhecer “muito” como palavra de quantidade e reconhecer sua função real no trecho: advérbio de intensidade ligado a “melhores”. Também testa se o candidato verifica a função sintática da substituição, e não só uma semelhança vaga de sentido.
Dica para questões semelhantes
  • Antes de substituir a palavra, identifique o que ela modifica na frase; aqui, “muito” modifica “melhores”, não o verbo “temos”.
  • Em reescrita lexical, não basta procurar palavra próxima de sentido: ela precisa manter a mesma função na estrutura.
  • Se houver comparativo como “melhor(es)”, verifique se o termo pedido reforça a comparação ou se introduz outro valor, como frequência ou quantidade.

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