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O narrador do romance manifesta-se ironicamente, em tom joc...

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Q4152387 Português

Leia o trecho do romance Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, para responder a questão


    Ricardo agarrou o cálice com delicadeza e respeito, levou-o aos lábios e foi como se todo ele bebesse o licor nacional.

— Está bom, hein?— indagou o major.

— Magnífico — fez Ricardo, estalando os lábios.

— É de Angra. Agora tu vais ver que magnífico vinho do Rio Grande temos… Qual Borgonha! Qual Bordeaux! Temos no Sul muito melhores…

    E o jantar correu assim, nesse tom. Quaresma exaltando os produtos nacionais: a banha, o toucinho e o arroz; a irmã fazia pequenas objeções e Ricardo dizia: “É, é, não há dúvida” — rolando nas órbitas os olhos pequenos, franzindo a testa diminuta que se sumia no cabelo áspero, forçando muito a sua fisionomia miúda e dura a adquirir uma expressão sincera de delicadeza e satisfação.

    Acabado o jantar foram ver o jardim. Era uma maravilha; não tinha nem uma flor… Certamente não se podia tomar por tal míseros beijos-de-frade, palmas-de-santa-rita, quaresmas lutulentas1 , manacás melancólicos e outros belos exemplares dos nossos campos e prados. Como em tudo o mais, o major era em jardinagem essencialmente nacional. Nada de rosas, de crisântemos, de magnólias — flores exóticas; as nossas terras tinham outras mais belas, mais expressivas, mais olentes2 , como aquelas que ele tinha ali.

    Ricardo ainda uma vez concordou e os dois entraram na sala, quando o crepúsculo vinha devagar, muito vagaroso e lento, como se fosse um longo adeus saudoso do sol ao deixar a terra, pondo nas coisas a sua poesia dolente3 e a sua deliquescência4 .

    Mal foi aceso o gás, o mestre de violão empunhou o instrumento, apertou as cravelhas, correu a escala, abaixando-se sobre ele como se o quisesse beijar. Tirou alguns acordes, para experimentar; e dirigiu-se ao discípulo, que já tinha o seu em posição:

— Vamos ver. Tire a escala, major.

(Triste fim de Policarpo Quaresma, 2010.)


1 lutulento: lamacento, lodoso.

2 olente: cheiroso, perfumado.

3 dolente: lamentosa, queixosa.

4 deliquescência: propriedade que certas substâncias têm de extrair água.


O narrador do romance manifesta-se ironicamente, em tom jocoso, em:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: O critério decisivo é o contraste semântico interno no 6º parágrafo: a expressão elogiosa “Era uma maravilha” é desmentida pela informação “não tinha nem uma flor”. Esse descompasso textual é o que caracteriza a ironia e sustenta o gabarito B.

Tema central: ironia do narrador
Análise das alternativas
A
Errada
O trecho tem tom lírico-descritivo. A imagem do crepúsculo que “vinha devagar, muito vagaroso e lento, como se fosse um longo adeus saudoso do sol” constrói personificação e expressividade poética, mas não há contraste interno que desminta o que foi dito. Sem esse descompasso entre aparência elogiosa e conteúdo incompatível, não se caracteriza a ironia pedida.
B
Certa
A alternativa B está correta porque traz o mecanismo de ironia descrito na base: o narrador formula um elogio aparente ao jardim, mas logo o invalida com um dado incompatível. Em “Era uma maravilha; não tinha nem uma flor…”, o contraste entre a avaliação positiva e a ausência de flores produz o tom jocoso pedido na questão.
C
Errada
Há intensificação descritiva na cena em que Ricardo bebe, com formulação enfática da reverência ao “licor nacional”. Isso pode soar exagerado, mas o trecho não apresenta a oposição semântica interna decisiva da ironia. Trata-se de hipérbole descritiva, não de elogio aparente imediatamente invalidado por informação contrária.
D
Errada
Esse recorte apenas narra a continuidade da ação: Ricardo concorda e ambos entram na sala. Não há marca de humor, contraste, desautorização do enunciado nem qualquer formulação que transforme o dito em seu contrário. A narração, nesse ponto, é neutra.
E
Errada
A expressão “como se o quisesse beijar” é uma comparação expressiva que vivifica a relação do mestre com o instrumento. Ela produz efeito imagético, não ironia jocosa. Falta o mecanismo central da questão: o enunciado não afirma algo para em seguida ser desmentido por um dado incompatível.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre linguagem expressiva e ironia: várias alternativas têm lirismo, exagero ou comparação, mas só B traz a justaposição entre elogio e informação que o anula.
Dica para questões semelhantes
  • Procure se o narrador diz algo em tom positivo e logo depois apresenta um elemento que desfaz esse valor.
  • Não marque ironia só porque o trecho é expressivo, exagerado ou figurado; ironia exige descompasso crítico entre o dito e o mostrado.
  • Leia a continuação imediata do trecho: nesta questão, a chave está em não isolar “Era uma maravilha” de “não tinha nem uma flor”.

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Essa tava na cara

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