Considere as afirmativas a seguir. I. No poema Auto-retrato...

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Ano: 2012 Banca: IFG Órgão: IF-GO Prova: IFG - 2012 - IF-GO - Vestibular - Prova 1 |
Q1273375 Português
TEXTO 4

Auto-retrato

Provinciano que nunca soube

Escolher bem uma gravata;

Pernambucano a quem repugna

A faca do pernambucano;

Poeta ruim que na arte da prosa

Envelheceu na infância da arte,

E até mesmo escrevendo crônicas

Ficou cronista de província; 

Arquiteto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão
Um tísico profissional.”
(Manuel Bandeira. Poesia completa e prosa.
Rio de Janeiro: Aguilar, 1983)

TEXTO 5

Felicidade clandestina (excerto)

    Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
    Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.
    Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.”

(Clarice Lispector. Felicidade clandestina: contos. Rio de Janeiro: Rocco, 1998) 

Considere as afirmativas a seguir.

I. No poema Auto-retrato, como em boa parte de sua obra, Manuel Bandeira apresenta uma visão bem humorada dos sofrimentos e descontentamentos do ser humano diante de suas limitações.

II. Clarice Lispector escreveu contos e romances que discutem a relevância do contexto social para os personagens de suas narrativas, com uma perspectiva politicamente engajada.

III. Escritores brasileiros do século XX, Clarice Lispector e Manuel Bandeira se aproximam pela tendência negativista, apresentando sempre o homem por seus hábitos e características mais condenáveis.

IV. Manuel Bandeira é considerado um autor da primeira geração modernista, enquanto Clarice Lispector filia-se à terceira geração de autores do modernismo brasileiro.  


Estão corretas: 

Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é o confronto entre o tom dos excertos e a filiação literária dos autores: em Bandeira, “Poeta ruim que na arte da prosa / Envelheceu na infância da arte, / ... / Arquiteto falhado, músico / Falhado (engoliu um dia / Um piano, mas o teclado / Ficou de fora); ... / E em matéria de profissão / Um tísico profissional.” revela autodepreciação irônica e bem-humorada, o que valida I; a periodização consagrada confirma IV, de modo que a alternativa correta é C.

Tema central: Interpretação e periodização literária
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque inclui a afirmativa II. O excerto de Clarice não sustenta leitura de engajamento político-social; ao contrário, o foco recai sobre experiência subjetiva, humilhação, crueldade infantil e percepção íntima, como em “Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho.” e “Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia:”.
B
Errada
Está errada porque inclui II e III, ambas incorretas. II extrapola o excerto ao atribuir a Clarice perspectiva politicamente engajada. III também falha por generalização indevida: dizer que os dois autores “sempre” apresentam o homem por características condenáveis não é autorizado nem pelo poema de Bandeira, que trabalha a autodepreciação com humor, nem pelo excerto de Clarice, que mostra a crueldade de uma personagem específica, não uma tese universal sobre o homem.
C
Certa
A alternativa C está correta porque reúne exatamente as duas afirmativas sustentáveis. A I se apoia no modo como o eu lírico enumera fracassos, insuficiências e sofrimento sem tom de pura lamentação: há ironia e comicidade na autodefinição, como em “Arquiteto falhado, músico / Falhado” e na imagem “engoliu um dia / Um piano, mas o teclado / Ficou de fora”, além da formulação “Um tísico profissional.” Já a IV está correta porque corresponde à classificação literária consagrada: Manuel Bandeira se vincula à primeira geração modernista, e Clarice Lispector, à terceira geração do modernismo brasileiro.
D
Errada
Está errada porque, embora I e IV sejam corretas, a afirmativa III invalida a alternativa. O problema está na universalização de “sempre” e na redução dos autores a uma “tendência negativista”. Em Bandeira, o conteúdo negativo é reelaborado por ironia e comicidade, não por condenação absoluta; em Clarice, o excerto não permite generalizar toda a obra como centrada nos hábitos mais condenáveis do homem.
E
Errada
Está errada porque reúne apenas II e III, e ambas são insustentáveis. II atribui ao texto de Clarice um eixo político-social engajado que não aparece no excerto. III transforma traços pontuais — crueldade de uma personagem e autodepreciação irônica — em regra geral sobre os dois autores, o que constitui generalização indevida.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: ler o poema de Bandeira apenas pelo vocabulário de fracasso e ignorar a ironia bem-humorada, e aceitar a generalização da afirmativa III, especialmente pelo peso indevido do termo “sempre”.
Dica para questões semelhantes
  • Verifique se o trecho apresenta dor ou fracasso em chave trágica ou em chave irônica; o tom decide a interpretação.
  • Desconfie de afirmativas com universalização, como “sempre”, quando o excerto mostra apenas um caso ou um efeito localizado.
  • Não confunda relações sociais entre personagens com engajamento político-social do autor.
  • Em literatura, combine leitura do excerto com o dado de periodização apenas quando a questão exigir as duas frentes.

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