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Ano: 2011 Banca: PUC - RS Órgão: PUC - RS Prova: PUC - RS - 2011 - PUC - RS - Vestibular - Prova 2 |
Q341274 Português
INSTRUÇÃO: Para responder à questão 37, ler o fragmento do poema “A morte do leiteiro”, de Carlos Drummond de Andrade.

Há pouco leite no país
é preciso entregá- lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá- lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.
Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
(...)
E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro...
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.
Meu leiteiro tão sutil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.

Mas este entrou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.
(...)


Da garrafa estilhaçada.
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue... não sei
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.

De acordo com o texto, afirma-se:

I. Em plena madrugada, o leiteiro cumpre um papel fundamental na distribuição de um leite bom que alimenta inclusive gente ruim.

II. Na sua ríspida e barulhenta marcha, o leiteiro acorda todos que dormem nas casas nas quais o leite é entregue.

III. De forma premeditada, o morador mata o raivoso leiteiro que se aproxima também para assaltá- lo.

IV. Devido a um trágico engano, um cidadão inocente é morto no exercício da profissão.

As afirmativas corretas são, apenas,

Alternativas

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: O critério decisivo é o confronto textual direto entre as assertivas e a sequência narrativa do poema: “Então o moço que é leiteiro / de madrugada com sua lata / sai correndo e distribuindo / leite bom para gente ruim. (...) Sem fazer barulho, é claro, / que barulho nada resolve. / Meu leiteiro tão sutil / de passo maneiro e leve, / antes desliza que marcha. (...) Mas este entrou em pânico / (ladrões infestam o bairro), / não quis saber de mais nada. / O revólver da gaveta / saltou para sua mão. / Ladrão? se pega com tiro. / Os tiros na madrugada / liquidaram meu leiteiro.” Esse núcleo confirma I e autoriza IV, mas exclui II e III por contradição com o que o texto efetivamente diz.

Tema central: Interpretação textual
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque reúne apenas as assertivas sustentadas pelo poema. A I é literal: o leiteiro sai “de madrugada” e distribui “leite bom para gente ruim”. A IV também se sustenta no enredo: o morador “entrou em pânico”, confunde o trabalhador com ladrão e o mata enquanto ele exercia sua função, o que configura um engano trágico com vítima inocente.
B
Errada
Está errada porque inclui II e III, ambas incompatíveis com o texto. A II falseia a caracterização do leiteiro: o poema diz “Sem fazer barulho, é claro” e “Meu leiteiro tão sutil / de passo maneiro e leve, / antes desliza que marcha”, o oposto de “ríspida e barulhenta marcha”. Além disso, “E há sempre um senhor que acorda” não autoriza dizer que ele acorda todos. A III também é falsa: o morador não age de forma premeditada; o texto diz que ele “entrou em pânico”. Também não há base para chamar o leiteiro de “raivoso” nem para afirmar que ele se aproximava para assaltar.
C
Errada
Está errada porque combina uma assertiva correta, IV, com uma falsa, II. A II é excluída por contradição semântica expressa: o leiteiro é silencioso, sutil e leve, e o poema registra apenas a possibilidade de algum ruído ocasional, não uma marcha barulhenta. Também há generalização indevida em “acorda todos”, pois o texto diz apenas: “E há sempre um senhor que acorda, / resmunga e torna a dormir.”
D
Errada
Está errada porque, embora a I seja correta, inclui II e III, que não resistem ao confronto com o texto. A II troca a caracterização do leiteiro por outra incompatível com os versos. A III acrescenta elementos inexistentes no poema: premeditação do morador, raiva do leiteiro e tentativa de assalto. Basta a falsidade dessas duas assertivas para invalidar a alternativa.
E
Errada
Está errada porque acrescenta a III a duas assertivas corretas. A III não é autorizada pelo poema: o morador mata sob pânico e reação imediata, não por ação planejada; o leiteiro não é descrito como “raivoso”; e o texto mostra justamente uma confusão, não um assalto real. O verso “Ladrão? se pega com tiro” expressa a crença do morador, não a verdade dos fatos.
Pegadinha da questão
A banca troca ou exagera dados do poema para testar fidelidade de leitura: transforma o leiteiro silencioso e sutil em alguém “ríspido e barulhento”, generaliza “há sempre um senhor que acorda” para “acorda todos” e converte o pânico do morador em premeditação contra um assaltante real.
Dica para questões semelhantes
  • Confronte cada assertiva com palavras exatas do texto antes de aceitar inferências.
  • Desconfie de termos absolutos como “todos” quando o texto traz marca restritiva como “um” ou “algum”.
  • Separe o que o personagem acredita do que o enredo confirma como fato.
  • Elimine alternativas que acrescentam traços não ditos no texto, como intenção, caráter ou motivação sem apoio verbal.

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