Pelo que se depreende do posicionamento assumido pelo autor ...

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Ano: 2010 Banca: VUNESP Órgão: UNESP Prova: VUNESP - 2010 - UNESP - Vestibular - Segundo Semestre |
Q534988 Português

Instrução: A  questão  toma  por base uma passagem do livro Palhaços, do docente e pesquisador da UNESP Mario Fernando Bolognesi:


      [...] O circo é a exposição do corpo humano em seus limites biológico e social. O espetáculo fundamenta-se na relação do homem com a natureza, expondo a dominação e a superação humanas. O adestramento de feras é demonstração do controle do homem sobre o mundo natural, confirmando, assim, a sua superioridade sobre as demais espécies animais. Acrobacias, malabarismos, equilibrismos e ilusionismos diversos deixam evidente a capacidade humana de superação de seus próprios limites. Mas, ao apresentar espetacularmente a superação, terminam por confirmar a contingência natural da existência, expressa na sublimidade do corpo altivo, distante do cotidiano.

      Os riscos dos artistas circenses são reais, dentro do contexto espetaculoso de cada função. No espetáculo, os artistas não apresentam “interioridades”; eles são puro corpo exteriorizado, sublime ou grotesco, que se realiza e se extingue na dimensão mesma do seu gesto. Eles não são atores a interpretar um “outro”, uma realidade externa e distante. O espetáculo, assim, se aproxima de um ritual que se repete e que evidencia a possibilidade concreta de fracasso. A emoção da plateia então oscila entre uma possível frustração diante do malogro do acrobata e a sugestão de superação de limites presente a cada número. Um trapezista pode cair, como acontece vez ou outra. Por isso o público não afasta o olhar das evoluções aéreas. Estabelece-se, assim, uma relação ritualística que encontra eco, em última instância, nas estruturas coletivas de sobrevivência e necessidade de transposição dos percalços do cotidiano. Se o artista falha, ele é aplaudido porque ao menos tentou. Ele ousou, e isso já é o bastante para impulsionar a fantasia coletiva da superação.

      Os números cômicos, por sua vez, ao explorar os estereótipos e situações extremas, evidenciam os limites psicológicos e sociais do existir. Eles trabalham, no plano simbólico, com tipos que não deixam de ser máscaras sociais biologicamente determinadas (os palhaços são desajeitados, lerdos, fisicamente deformados, estúpidos etc.). Esses limites se revelam com o riso espontâneo que escancara as estreitas fronteiras do social. Quando os palhaços entram no picadeiro, o olhar espetaculoso se desloca objetivamente para a realidade diária da plateia.

      [...]

   [...] O movimento de superação da natureza e a possibilidade (quando não a capacidade) de subjugar as limitações biológicas e de criticar as máscaras sociais garantem a legitimidade do exercício do sonho. Está aberto, no espetáculo de circo, o terreno da utopia.


                    (Mario Fernando Bolognesi. Palhaços. São Paulo: Editora da Unesp, 2003.)

Pelo que se depreende do posicionamento assumido pelo autor em todo o fragmento, o emprego da palavra utopia, no final,
Alternativas

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: O critério decisivo é o sentido contextual da palavra final, definido pelo fecho do texto: "O movimento de superação da natureza e a possibilidade (quando não a capacidade) de subjugar as limitações biológicas e de criticar as máscaras sociais garantem a legitimidade do exercício do sonho. Está aberto, no espetáculo de circo, o terreno da utopia." Nesse encadeamento, "utopia" não significa sociedade ideal nem engano, mas a abertura imaginária para o sonho sustentada pela superação de limites e pela fantasia coletiva mobilizada pelo espetáculo, o que conduz à alternativa A.

Tema central: sentido contextual de utopia
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A é a única que preserva a cadeia de sentido construída no fragmento: o circo expõe limites humanos, mostra sua superação em números como acrobacias e equilibrismos, envolve a plateia na possibilidade de fracasso e ousadia e, com isso, impulsiona "a fantasia coletiva da superação". Por isso, quando o autor afirma que se abre "o terreno da utopia", ele está nomeando esse campo do sonho e da fantasia ligado à superação humana no espetáculo circense. Embora a alternativa destaque os limites físicos, ela permanece compatível com o núcleo do texto.
B
Errada
A alternativa introduz uma leitura moralizante inexistente no fragmento. O texto não fala em prática do bem, nem em ações voltadas à felicidade geral; fala em superação de limites, fantasia coletiva e exercício do sonho. Trata-se de extrapolação semântica não autorizada.
C
Errada
Ela contraria o texto de modo direto. O autor afirma expressamente: "Os riscos dos artistas circenses são reais". Além disso, o fragmento apresenta a superação como possibilidade concreta do espetáculo, não como fingimento que provaria que os limites jamais são superados.
D
Errada
A alternativa usa uma acepção genérica e externa de "utopia" como sociedade ideal com igualdade de direitos e obrigações. Esse conteúdo político-social não é desenvolvido no fragmento. Aqui, a palavra é delimitada pelo contexto de "exercício do sonho" e de superação simbólica e concreta, não por um projeto de organização social.
E
Errada
O erro está na inferência sobre a plateia. O texto não diz que o espectador é incapaz de perceber a realidade do circo; ao contrário, a emoção do público nasce justamente da percepção de que o fracasso pode ocorrer, já que "Um trapezista pode cair". Portanto, "utopia" não equivale a cegueira ou ilusão enganosa do espectador.
Pegadinha da questão
A banca explora a tendência de ler "utopia" em sentido dicionarizado amplo, como sociedade ideal, ou de confundi-la com ilusão enganosa; o texto, porém, redefine a palavra pelo encadeamento "superação" + "fantasia coletiva" + "exercício do sonho".
Dica para questões semelhantes
  • Interprete a palavra pedida pelo contexto imediato e pela progressão argumentativa, não pelo sentido mais conhecido fora do texto.
  • Observe quais expressões prepararam o termo final; aqui, "fantasia coletiva da superação" e "exercício do sonho" delimitam o sentido de "utopia".
  • Elimine alternativas que acrescentem temas ausentes, como moral universal, sociedade ideal ou engano do público.
  • Quando o texto traz afirmações explícitas, use-as para excluir leituras incompatíveis; neste caso, "Os riscos dos artistas circenses são reais" afasta a ideia de fingimento.

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