(...) Um poeta dizia que o menino é o pai do homem. Se isto ...

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Q215422 Português
Instrução: Leia o excerto para responder às questões de números 11 e 12.

   Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d’amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm’lo de maldade,
Nem são livres p’ra morrer...
Prende-os a mesma corrente
– Férrea, lúgubre serpente –
Nas roscas da escravidão.
E assim roubados à morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoite... Irrisão!...

(Castro Alves. Fragmento de O navio negreiro – tragédia no mar.)

(...) Um poeta dizia que o menino é o pai do homem. Se isto é verdade, vejamos alguns lineamentos do menino.
  Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de “menino diabo”; e verdadeiramente não era outra coisa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negara uma colher do doce de coco que estava fazendo,
e, não contente com o malefício, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui dizer à minha mãe que a escrava é que estragara o doce “por pirraça”; e eu tinha apenas seis anos. Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, – algumas vezes gemendo – mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um – “ai, nhonhô!” – ao que eu retorquia: “Cala a boca, besta!” – Esconder os chapéus das visitas, deitar rabos de papel a pessoas graves, puxar pelo rabicho das cabeleiras, dar beliscões nos braços das matronas, e outras muitas façanhas deste jaez, eram mostras de um gênio indócil, mas devo crer que eram também expressões de um espírito robusto, porque meu pai tinha-me em grande admiração; e se às vezes me repreendia, à vista de gente, fazia-o por simples formalidade: em particular dava-me beijos.
 Não se conclua daqui que eu levasse todo o resto da minha vida a quebrar a cabeça dos outros nem a esconder-lhes os chapéus; mas opiniático, egoísta e algo contemptor dos homens, isso fui; se não passei o tempo a esconder-lhes os chapéus, alguma vez lhes puxei pelo rabicho das cabeleiras.

(Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas.)


Compare o trecho de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, com o fragmento do poema O navio negreiro – tragédia no mar, de Castro Alves (questões 11 e 12). Indique a alternativa que apresenta aspectos observáveis nos dois textos.

Alternativas

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a comparação entre os dois excertos para verificar apenas os traços comummente comprováveis em ambos. Em Castro Alves, a escravidão é denunciada por meio de uma construção versificatória marcada por enumerações, paralelismos e cortes expressivos; em Machado, a crítica à violência escravista aparece na prosa memorialista com cadência sintática própria. Assim, o item correto é o que reúne escravidão, visão crítica da realidade, efeito rítmico e desumanização.

Tema central: escravidão e desumanização
Análise das alternativas
A
Errada
O erro está em “contenção expressional” como traço comum. No trecho de Castro Alves, o tom é enfático, imagético e exclamativo, não contido. A alternativa mistura características reais dos dois textos com uma característica incompatível com o poema.
B
Errada
A exclusão segura está em “intertextualidade explícita” como aspecto observável nos dois textos. No excerto machadiano há a referência “Um poeta dizia...”, mas isso não aparece no fragmento de Castro Alves apresentado. Como o comando exige elemento comum aos dois, a alternativa cai por esse ponto.
C
Certa
A alternativa C acerta porque reúne somente aspectos comuns aos dois textos. Em Castro Alves, a escravidão aparece de modo direto e coletivo, com denúncia da violência e da degradação: “Nem são livres p’ra morrer... / (...) / Nas roscas da escravidão.” Em Machado, a escravidão surge na cena doméstica, mas igualmente como sistema de brutalização: “quebrei a cabeça de uma escrava” e “Prudêncio (...) era o meu cavalo de todos os dias; (...) fustigava-o”. Nos dois casos, há visão crítica da realidade social, representação do ser humano tratado como coisa ou animal e construção verbal com forte marca rítmica por enumerações, paralelismos e cadência sintática.
D
Errada
Também é eliminada por “intertextualidade explícita”. Ainda que “estilo apurado”, “visão crítica da realidade” e “representação do homem como objeto do homem” possam ser admitidos, a presença de um traço não comum aos dois textos invalida a alternativa.
E
Errada
O problema está em “tom arrebatado” como característica dos dois excertos. Esse traço se ajusta ao poema de Castro Alves, mas não ao trecho de Machado, cujo efeito dominante é narrativo, mais contido e irônico. A alternativa erra ao generalizar para ambos um tom que pertence sobretudo ao poema.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre traço presente em apenas um texto e traço comum aos dois, especialmente em “intertextualidade explícita”, “contenção expressional” e “tom arrebatado”.
Dica para questões semelhantes
  • Em comparação de textos, elimine a alternativa que traga um único elemento não comprovável nos dois fragmentos.
  • Separe conteúdo temático de tom discursivo: dois textos podem criticar a mesma realidade por registros expressivos diferentes.
  • Procure o ponto de interseção textual concreto: aqui, escravidão, crítica social, ritmo verbal e desumanização.

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Comentários

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Gabarito: Letra C

"Compare os trechos"...

Sem os trechos fica difícil.

Essa é pra adivinhar kkkk

ESSA NAO TEM COMO A TROPA OBA BRILHAR KKKKK

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