Leia o texto de Eugênio Bucci para responder à questão.
Se há, como há, um “marketing do bem” que promove a solidariedade social, devemos admitir que a solidariedade se tornou
um valor de mercado e um valor para o mercado. Logo, estamos
diante de uma “solidariedade de mercado”, uma solidariedade
que é não bem um sentimento interior, mas uma imagem de
solidariedade. É uma imagem que ganha vida própria e que vai
se associar a outras imagens para valorizá-las – imagens de
empresas, de marcas, de governos e governantes, de personalidades públicas. A solidariedade, assim posta, como imagem
autônoma ou como imagem que reforça outras imagens, existe
no mercado não como um fim que se basta, um fim desinteressado, mas como um argumento para o consumo – o consumo
de marcas (consumo que é pago em dinheiro, pela compra dos
produtos), de governos e governantes (consumo que é pago
em delegação de poder, pelo voto), de personalidades públicas,
as tais celebridades (que são consumidas pela imitação, pela
admiração, o que se remunera com índices de popularidade).
Portanto, esse tipo mercadológico de solidariedade, além de
constituir um valor de mercado e para o mercado, torna-se também um fator que, para usar aqui a linguagem dos marqueteiros
e marquetólogos, “agrega valor” a produtos, marcas, empresas,
pessoas e governos. A solidariedade assim posta, mais que um
valor ético, é um fator de lucro – ou de proteção contra prejuízos
(econômicos e de imagem). É, necessariamente, uma solidariedade exibicionista.
(Eugênio Bucci. “A solidariedade que não teme aparecer”. In: Eugênio Bucci
e Maria Rita Kehl. Videologias: ensaios sobre televisão, 2004.)