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O clube
― Aqui estamos nós. Cada vez mais velhos…
― E gordos…
― Você está enorme.
― Você também.
― Graças a Deus. Já perdi todos os meus apetites, menos o de comida.
― É o que eu sempre digo: comida é bom e alimenta.
― O clube está deserto. Os criados foram todos embora?
― Você não se lembra? Não há mais criados.
― É mesmo. Não havia mais razão para mantê-los aqui. Afinal, nos reunimos só uma vez por mês.
― Mas eu vivo só para estas reuniões.
― Eu também. Não há mais nada.
― Não compreendo por que esta mesa posta para doze. Do grupo original, só sobramos nós dois.
― É a tradição. Temos que manter a tradição. Cada lugar vazio corresponde a um membro do clube que se foi.
― Ali se sentava o… Como era mesmo?
― O Gastão.
― Gastão, Gastão… Não sei se me lembro…
― Advogado. Morreu aqui na mesa mesmo, com uma espinha de peixe atravessada na garganta. Foi um escândalo. Ele rolou por cima da mesa. Destruiu um pudim de claras que parecia estar útimo. Nunca o perdoei.
― É engraçado. Não consigo me lembrar…
― Fazia um assado de perna de vitela com molho de hortelã.
― Claro! Agora me lembro. E batatas noisette. Sim, sim.
― Ali, sentava o doutor Malvino.
― Camarões com molho de nata.
― Não. Musse de salmão.
― Exato. Divina. E do lado dele…
― O Cerdeira. O primeiro dos nossos a morrer. Coração.
― Me lembro. Lamentável. Todos sentimos muito a sua morte. Ninguém fazia uma salada de anchovas como ele.
― Se ao menos tivesse deixado a receita do molho…
― Lamentável, lamentável.
― E quando morreu o Parreirinha?
― Nem me fale. Foi um golpe duro. Pensar que nunca mais provaríamos o seu creme de avelãs.
― Todos os membros do clube foram ao seu enterro. Houve cenas de desespero. Muitos salivavam descontroladamente junto ao caixão.
― A viúva alegou que ele não deixara a receita. Pensamos em recorrer à Justiça, lembra? Era birra dela. Dizia que o clube tinha matado o Parreirinha, de congestão.
― Balela. Sempre fomos incompreendidos. Nos acusavam de sermos símbolos de uma classe empanturrada pela própria inconsciência, qualquer coisa assim. Diziam que para nós a comida era tudo. Injustiça. [...]
― Mas chega de recordações. Vamos ao prato de hoje.
― Preparei a minha especialidade. Panquecas de hadock flambadas ao conhaque.
― Me ajude com o conhaque. Já não consigo segurar…
― Cuidado. Assim. Epa.
― Derramou um pouco na toalha. Não faz mal.
― Cuidado com esse fósforo. Não aproxime muito da… Olha aí, prendeu fogo na toalha.
― Olha a garrafa!
― Caiu embaixo da mesa.
― O fogo já chegou no chão.
― Você, quando fala em “flambé”, é “flambé” mesmo… Toda a mesa está em chamas.
― Salva as panquecas! Salva as panquecas!
― Tarde demais.
― Acho que devíamos chamar alguém para…
― Já estamos cercados pelo fogo. Não há ninguém aqui. E eu, francamente, não tenho ânimo para sair desta cadeira.
― Eu sei que a pergunta, a esta altura, é acadêmica, mas que conhaque era?
― Hennesy quatro estrelas, naturalmente. Eu não uso outra coisa.
― Pelas chamas, eu juraria que era um Martel.
― Ai.
― Hein?
― “Ai”. Denotando dor. Acho que está pegando fogo na minha calça. Qual seria o seu prato para a nossa próxima reunião?
― Bisque de lagosta.
― Pena, pena. Enfim…
― O pior é morrer assim, queimado.
― Você preferia como?
― Pelo menos mal-passado.
Luís Fernando Verissimo. (Adaptado). Ed Mort – todas as histórias. 1™ Ed. São Paulo: Objetiva, 2011.
O clube
― Aqui estamos nós. Cada vez mais velhos…
― E gordos…
― Você está enorme.
― Você também.
― Graças a Deus. Já perdi todos os meus apetites, menos o de comida.
― É o que eu sempre digo: comida é bom e alimenta.
― O clube está deserto. Os criados foram todos embora?
― Você não se lembra? Não há mais criados.
― É mesmo. Não havia mais razão para mantê-los aqui. Afinal, nos reunimos só uma vez por mês.
― Mas eu vivo só para estas reuniões.
― Eu também. Não há mais nada.
― Não compreendo por que esta mesa posta para doze. Do grupo original, só sobramos nós dois.
― É a tradição. Temos que manter a tradição. Cada lugar vazio corresponde a um membro do clube que se foi.
― Ali se sentava o… Como era mesmo?
― O Gastão.
― Gastão, Gastão… Não sei se me lembro…
― Advogado. Morreu aqui na mesa mesmo, com uma espinha de peixe atravessada na garganta. Foi um escândalo. Ele rolou por cima da mesa. Destruiu um pudim de claras que parecia estar útimo. Nunca o perdoei.
― É engraçado. Não consigo me lembrar…
― Fazia um assado de perna de vitela com molho de hortelã.
― Claro! Agora me lembro. E batatas noisette. Sim, sim.
― Ali, sentava o doutor Malvino.
― Camarões com molho de nata.
― Não. Musse de salmão.
― Exato. Divina. E do lado dele…
― O Cerdeira. O primeiro dos nossos a morrer. Coração.
― Me lembro. Lamentável. Todos sentimos muito a sua morte. Ninguém fazia uma salada de anchovas como ele.
― Se ao menos tivesse deixado a receita do molho…
― Lamentável, lamentável.
― E quando morreu o Parreirinha?
― Nem me fale. Foi um golpe duro. Pensar que nunca mais provaríamos o seu creme de avelãs.
― Todos os membros do clube foram ao seu enterro. Houve cenas de desespero. Muitos salivavam descontroladamente junto ao caixão.
― A viúva alegou que ele não deixara a receita. Pensamos em recorrer à Justiça, lembra? Era birra dela. Dizia que o clube tinha matado o Parreirinha, de congestão.
― Balela. Sempre fomos incompreendidos. Nos acusavam de sermos símbolos de uma classe empanturrada pela própria inconsciência, qualquer coisa assim. Diziam que para nós a comida era tudo. Injustiça. [...]
― Mas chega de recordações. Vamos ao prato de hoje.
― Preparei a minha especialidade. Panquecas de hadock flambadas ao conhaque.
― Me ajude com o conhaque. Já não consigo segurar…
― Cuidado. Assim. Epa.
― Derramou um pouco na toalha. Não faz mal.
― Cuidado com esse fósforo. Não aproxime muito da… Olha aí, prendeu fogo na toalha.
― Olha a garrafa!
― Caiu embaixo da mesa.
― O fogo já chegou no chão.
― Você, quando fala em “flambé”, é “flambé” mesmo… Toda a mesa está em chamas.
― Salva as panquecas! Salva as panquecas!
― Tarde demais.
― Acho que devíamos chamar alguém para…
― Já estamos cercados pelo fogo. Não há ninguém aqui. E eu, francamente, não tenho ânimo para sair desta cadeira.
― Eu sei que a pergunta, a esta altura, é acadêmica, mas que conhaque era?
― Hennesy quatro estrelas, naturalmente. Eu não uso outra coisa.
― Pelas chamas, eu juraria que era um Martel.
― Ai.
― Hein?
― “Ai”. Denotando dor. Acho que está pegando fogo na minha calça. Qual seria o seu prato para a nossa próxima reunião?
― Bisque de lagosta.
― Pena, pena. Enfim…
― O pior é morrer assim, queimado.
― Você preferia como?
― Pelo menos mal-passado.
Luís Fernando Verissimo. (Adaptado). Ed Mort – todas as histórias. 1™ Ed. São Paulo: Objetiva, 2011.
Considere as seguintes sentenças, retiradas do texto:
I. “Sempre fomos incompreendidos.”
II. “Pensamos em recorrer à Justiça, lembra?”
Nas sentenças dadas, os verbos “ser” e “recorrer” apresentam, respectivamente, as regências:
O clube
― Aqui estamos nós. Cada vez mais velhos…
― E gordos…
― Você está enorme.
― Você também.
― Graças a Deus. Já perdi todos os meus apetites, menos o de comida.
― É o que eu sempre digo: comida é bom e alimenta.
― O clube está deserto. Os criados foram todos embora?
― Você não se lembra? Não há mais criados.
― É mesmo. Não havia mais razão para mantê-los aqui. Afinal, nos reunimos só uma vez por mês.
― Mas eu vivo só para estas reuniões.
― Eu também. Não há mais nada.
― Não compreendo por que esta mesa posta para doze. Do grupo original, só sobramos nós dois.
― É a tradição. Temos que manter a tradição. Cada lugar vazio corresponde a um membro do clube que se foi.
― Ali se sentava o… Como era mesmo?
― O Gastão.
― Gastão, Gastão… Não sei se me lembro…
― Advogado. Morreu aqui na mesa mesmo, com uma espinha de peixe atravessada na garganta. Foi um escândalo. Ele rolou por cima da mesa. Destruiu um pudim de claras que parecia estar útimo. Nunca o perdoei.
― É engraçado. Não consigo me lembrar…
― Fazia um assado de perna de vitela com molho de hortelã.
― Claro! Agora me lembro. E batatas noisette. Sim, sim.
― Ali, sentava o doutor Malvino.
― Camarões com molho de nata.
― Não. Musse de salmão.
― Exato. Divina. E do lado dele…
― O Cerdeira. O primeiro dos nossos a morrer. Coração.
― Me lembro. Lamentável. Todos sentimos muito a sua morte. Ninguém fazia uma salada de anchovas como ele.
― Se ao menos tivesse deixado a receita do molho…
― Lamentável, lamentável.
― E quando morreu o Parreirinha?
― Nem me fale. Foi um golpe duro. Pensar que nunca mais provaríamos o seu creme de avelãs.
― Todos os membros do clube foram ao seu enterro. Houve cenas de desespero. Muitos salivavam descontroladamente junto ao caixão.
― A viúva alegou que ele não deixara a receita. Pensamos em recorrer à Justiça, lembra? Era birra dela. Dizia que o clube tinha matado o Parreirinha, de congestão.
― Balela. Sempre fomos incompreendidos. Nos acusavam de sermos símbolos de uma classe empanturrada pela própria inconsciência, qualquer coisa assim. Diziam que para nós a comida era tudo. Injustiça. [...]
― Mas chega de recordações. Vamos ao prato de hoje.
― Preparei a minha especialidade. Panquecas de hadock flambadas ao conhaque.
― Me ajude com o conhaque. Já não consigo segurar…
― Cuidado. Assim. Epa.
― Derramou um pouco na toalha. Não faz mal.
― Cuidado com esse fósforo. Não aproxime muito da… Olha aí, prendeu fogo na toalha.
― Olha a garrafa!
― Caiu embaixo da mesa.
― O fogo já chegou no chão.
― Você, quando fala em “flambé”, é “flambé” mesmo… Toda a mesa está em chamas.
― Salva as panquecas! Salva as panquecas!
― Tarde demais.
― Acho que devíamos chamar alguém para…
― Já estamos cercados pelo fogo. Não há ninguém aqui. E eu, francamente, não tenho ânimo para sair desta cadeira.
― Eu sei que a pergunta, a esta altura, é acadêmica, mas que conhaque era?
― Hennesy quatro estrelas, naturalmente. Eu não uso outra coisa.
― Pelas chamas, eu juraria que era um Martel.
― Ai.
― Hein?
― “Ai”. Denotando dor. Acho que está pegando fogo na minha calça. Qual seria o seu prato para a nossa próxima reunião?
― Bisque de lagosta.
― Pena, pena. Enfim…
― O pior é morrer assim, queimado.
― Você preferia como?
― Pelo menos mal-passado.
Luís Fernando Verissimo. (Adaptado). Ed Mort – todas as histórias. 1™ Ed. São Paulo: Objetiva, 2011.
Considere as seguintes sentenças, retiradas do texto:
I. “Cada lugar vazio corresponde a um membro do clube que se foi.”
II. “Eu sei que a pergunta, a esta altura, é acadêmica, mas que conhaque era?”
III. “― Acho que devíamos chamar alguém para…”
IV. “Qual seria o seu prato para a nossa próxima reunião?”
V. “― Cuidado com esse fósforo.” Nas sentenças dadas, observam-se diferentes tipos de pronomes.
Aquela que apresenta apenas um pronome, sendo este do tipo demonstrativo, É a:
O clube
― Aqui estamos nós. Cada vez mais velhos…
― E gordos…
― Você está enorme.
― Você também.
― Graças a Deus. Já perdi todos os meus apetites, menos o de comida.
― É o que eu sempre digo: comida é bom e alimenta.
― O clube está deserto. Os criados foram todos embora?
― Você não se lembra? Não há mais criados.
― É mesmo. Não havia mais razão para mantê-los aqui. Afinal, nos reunimos só uma vez por mês.
― Mas eu vivo só para estas reuniões.
― Eu também. Não há mais nada.
― Não compreendo por que esta mesa posta para doze. Do grupo original, só sobramos nós dois.
― É a tradição. Temos que manter a tradição. Cada lugar vazio corresponde a um membro do clube que se foi.
― Ali se sentava o… Como era mesmo?
― O Gastão.
― Gastão, Gastão… Não sei se me lembro…
― Advogado. Morreu aqui na mesa mesmo, com uma espinha de peixe atravessada na garganta. Foi um escândalo. Ele rolou por cima da mesa. Destruiu um pudim de claras que parecia estar útimo. Nunca o perdoei.
― É engraçado. Não consigo me lembrar…
― Fazia um assado de perna de vitela com molho de hortelã.
― Claro! Agora me lembro. E batatas noisette. Sim, sim.
― Ali, sentava o doutor Malvino.
― Camarões com molho de nata.
― Não. Musse de salmão.
― Exato. Divina. E do lado dele…
― O Cerdeira. O primeiro dos nossos a morrer. Coração.
― Me lembro. Lamentável. Todos sentimos muito a sua morte. Ninguém fazia uma salada de anchovas como ele.
― Se ao menos tivesse deixado a receita do molho…
― Lamentável, lamentável.
― E quando morreu o Parreirinha?
― Nem me fale. Foi um golpe duro. Pensar que nunca mais provaríamos o seu creme de avelãs.
― Todos os membros do clube foram ao seu enterro. Houve cenas de desespero. Muitos salivavam descontroladamente junto ao caixão.
― A viúva alegou que ele não deixara a receita. Pensamos em recorrer à Justiça, lembra? Era birra dela. Dizia que o clube tinha matado o Parreirinha, de congestão.
― Balela. Sempre fomos incompreendidos. Nos acusavam de sermos símbolos de uma classe empanturrada pela própria inconsciência, qualquer coisa assim. Diziam que para nós a comida era tudo. Injustiça. [...]
― Mas chega de recordações. Vamos ao prato de hoje.
― Preparei a minha especialidade. Panquecas de hadock flambadas ao conhaque.
― Me ajude com o conhaque. Já não consigo segurar…
― Cuidado. Assim. Epa.
― Derramou um pouco na toalha. Não faz mal.
― Cuidado com esse fósforo. Não aproxime muito da… Olha aí, prendeu fogo na toalha.
― Olha a garrafa!
― Caiu embaixo da mesa.
― O fogo já chegou no chão.
― Você, quando fala em “flambé”, é “flambé” mesmo… Toda a mesa está em chamas.
― Salva as panquecas! Salva as panquecas!
― Tarde demais.
― Acho que devíamos chamar alguém para…
― Já estamos cercados pelo fogo. Não há ninguém aqui. E eu, francamente, não tenho ânimo para sair desta cadeira.
― Eu sei que a pergunta, a esta altura, é acadêmica, mas que conhaque era?
― Hennesy quatro estrelas, naturalmente. Eu não uso outra coisa.
― Pelas chamas, eu juraria que era um Martel.
― Ai.
― Hein?
― “Ai”. Denotando dor. Acho que está pegando fogo na minha calça. Qual seria o seu prato para a nossa próxima reunião?
― Bisque de lagosta.
― Pena, pena. Enfim…
― O pior é morrer assim, queimado.
― Você preferia como?
― Pelo menos mal-passado.
Luís Fernando Verissimo. (Adaptado). Ed Mort – todas as histórias. 1™ Ed. São Paulo: Objetiva, 2011.
O clube
― Aqui estamos nós. Cada vez mais velhos…
― E gordos…
― Você está enorme.
― Você também.
― Graças a Deus. Já perdi todos os meus apetites, menos o de comida.
― É o que eu sempre digo: comida é bom e alimenta.
― O clube está deserto. Os criados foram todos embora?
― Você não se lembra? Não há mais criados.
― É mesmo. Não havia mais razão para mantê-los aqui. Afinal, nos reunimos só uma vez por mês.
― Mas eu vivo só para estas reuniões.
― Eu também. Não há mais nada.
― Não compreendo por que esta mesa posta para doze. Do grupo original, só sobramos nós dois.
― É a tradição. Temos que manter a tradição. Cada lugar vazio corresponde a um membro do clube que se foi.
― Ali se sentava o… Como era mesmo?
― O Gastão.
― Gastão, Gastão… Não sei se me lembro…
― Advogado. Morreu aqui na mesa mesmo, com uma espinha de peixe atravessada na garganta. Foi um escândalo. Ele rolou por cima da mesa. Destruiu um pudim de claras que parecia estar útimo. Nunca o perdoei.
― É engraçado. Não consigo me lembrar…
― Fazia um assado de perna de vitela com molho de hortelã.
― Claro! Agora me lembro. E batatas noisette. Sim, sim.
― Ali, sentava o doutor Malvino.
― Camarões com molho de nata.
― Não. Musse de salmão.
― Exato. Divina. E do lado dele…
― O Cerdeira. O primeiro dos nossos a morrer. Coração.
― Me lembro. Lamentável. Todos sentimos muito a sua morte. Ninguém fazia uma salada de anchovas como ele.
― Se ao menos tivesse deixado a receita do molho…
― Lamentável, lamentável.
― E quando morreu o Parreirinha?
― Nem me fale. Foi um golpe duro. Pensar que nunca mais provaríamos o seu creme de avelãs.
― Todos os membros do clube foram ao seu enterro. Houve cenas de desespero. Muitos salivavam descontroladamente junto ao caixão.
― A viúva alegou que ele não deixara a receita. Pensamos em recorrer à Justiça, lembra? Era birra dela. Dizia que o clube tinha matado o Parreirinha, de congestão.
― Balela. Sempre fomos incompreendidos. Nos acusavam de sermos símbolos de uma classe empanturrada pela própria inconsciência, qualquer coisa assim. Diziam que para nós a comida era tudo. Injustiça. [...]
― Mas chega de recordações. Vamos ao prato de hoje.
― Preparei a minha especialidade. Panquecas de hadock flambadas ao conhaque.
― Me ajude com o conhaque. Já não consigo segurar…
― Cuidado. Assim. Epa.
― Derramou um pouco na toalha. Não faz mal.
― Cuidado com esse fósforo. Não aproxime muito da… Olha aí, prendeu fogo na toalha.
― Olha a garrafa!
― Caiu embaixo da mesa.
― O fogo já chegou no chão.
― Você, quando fala em “flambé”, é “flambé” mesmo… Toda a mesa está em chamas.
― Salva as panquecas! Salva as panquecas!
― Tarde demais.
― Acho que devíamos chamar alguém para…
― Já estamos cercados pelo fogo. Não há ninguém aqui. E eu, francamente, não tenho ânimo para sair desta cadeira.
― Eu sei que a pergunta, a esta altura, é acadêmica, mas que conhaque era?
― Hennesy quatro estrelas, naturalmente. Eu não uso outra coisa.
― Pelas chamas, eu juraria que era um Martel.
― Ai.
― Hein?
― “Ai”. Denotando dor. Acho que está pegando fogo na minha calça. Qual seria o seu prato para a nossa próxima reunião?
― Bisque de lagosta.
― Pena, pena. Enfim…
― O pior é morrer assim, queimado.
― Você preferia como?
― Pelo menos mal-passado.
Luís Fernando Verissimo. (Adaptado). Ed Mort – todas as histórias. 1™ Ed. São Paulo: Objetiva, 2011.
Considere as seguintes sentenças, retiradas do texto:
I. “― Você não se lembra? Não há mais criados.”
II. “― Ali se sentava o… Como era mesmo?”
III. “― Se ao menos tivesse deixado a receita do molho…”
Nas sentenças dadas, a palavra “se” atua como conjunção condicional apenas em:
O clube
― Aqui estamos nós. Cada vez mais velhos…
― E gordos…
― Você está enorme.
― Você também.
― Graças a Deus. Já perdi todos os meus apetites, menos o de comida.
― É o que eu sempre digo: comida é bom e alimenta.
― O clube está deserto. Os criados foram todos embora?
― Você não se lembra? Não há mais criados.
― É mesmo. Não havia mais razão para mantê-los aqui. Afinal, nos reunimos só uma vez por mês.
― Mas eu vivo só para estas reuniões.
― Eu também. Não há mais nada.
― Não compreendo por que esta mesa posta para doze. Do grupo original, só sobramos nós dois.
― É a tradição. Temos que manter a tradição. Cada lugar vazio corresponde a um membro do clube que se foi.
― Ali se sentava o… Como era mesmo?
― O Gastão.
― Gastão, Gastão… Não sei se me lembro…
― Advogado. Morreu aqui na mesa mesmo, com uma espinha de peixe atravessada na garganta. Foi um escândalo. Ele rolou por cima da mesa. Destruiu um pudim de claras que parecia estar útimo. Nunca o perdoei.
― É engraçado. Não consigo me lembrar…
― Fazia um assado de perna de vitela com molho de hortelã.
― Claro! Agora me lembro. E batatas noisette. Sim, sim.
― Ali, sentava o doutor Malvino.
― Camarões com molho de nata.
― Não. Musse de salmão.
― Exato. Divina. E do lado dele…
― O Cerdeira. O primeiro dos nossos a morrer. Coração.
― Me lembro. Lamentável. Todos sentimos muito a sua morte. Ninguém fazia uma salada de anchovas como ele.
― Se ao menos tivesse deixado a receita do molho…
― Lamentável, lamentável.
― E quando morreu o Parreirinha?
― Nem me fale. Foi um golpe duro. Pensar que nunca mais provaríamos o seu creme de avelãs.
― Todos os membros do clube foram ao seu enterro. Houve cenas de desespero. Muitos salivavam descontroladamente junto ao caixão.
― A viúva alegou que ele não deixara a receita. Pensamos em recorrer à Justiça, lembra? Era birra dela. Dizia que o clube tinha matado o Parreirinha, de congestão.
― Balela. Sempre fomos incompreendidos. Nos acusavam de sermos símbolos de uma classe empanturrada pela própria inconsciência, qualquer coisa assim. Diziam que para nós a comida era tudo. Injustiça. [...]
― Mas chega de recordações. Vamos ao prato de hoje.
― Preparei a minha especialidade. Panquecas de hadock flambadas ao conhaque.
― Me ajude com o conhaque. Já não consigo segurar…
― Cuidado. Assim. Epa.
― Derramou um pouco na toalha. Não faz mal.
― Cuidado com esse fósforo. Não aproxime muito da… Olha aí, prendeu fogo na toalha.
― Olha a garrafa!
― Caiu embaixo da mesa.
― O fogo já chegou no chão.
― Você, quando fala em “flambé”, é “flambé” mesmo… Toda a mesa está em chamas.
― Salva as panquecas! Salva as panquecas!
― Tarde demais.
― Acho que devíamos chamar alguém para…
― Já estamos cercados pelo fogo. Não há ninguém aqui. E eu, francamente, não tenho ânimo para sair desta cadeira.
― Eu sei que a pergunta, a esta altura, é acadêmica, mas que conhaque era?
― Hennesy quatro estrelas, naturalmente. Eu não uso outra coisa.
― Pelas chamas, eu juraria que era um Martel.
― Ai.
― Hein?
― “Ai”. Denotando dor. Acho que está pegando fogo na minha calça. Qual seria o seu prato para a nossa próxima reunião?
― Bisque de lagosta.
― Pena, pena. Enfim…
― O pior é morrer assim, queimado.
― Você preferia como?
― Pelo menos mal-passado.
Luís Fernando Verissimo. (Adaptado). Ed Mort – todas as histórias. 1™ Ed. São Paulo: Objetiva, 2011.
O clube
― Aqui estamos nós. Cada vez mais velhos…
― E gordos…
― Você está enorme.
― Você também.
― Graças a Deus. Já perdi todos os meus apetites, menos o de comida.
― É o que eu sempre digo: comida é bom e alimenta.
― O clube está deserto. Os criados foram todos embora?
― Você não se lembra? Não há mais criados.
― É mesmo. Não havia mais razão para mantê-los aqui. Afinal, nos reunimos só uma vez por mês.
― Mas eu vivo só para estas reuniões.
― Eu também. Não há mais nada.
― Não compreendo por que esta mesa posta para doze. Do grupo original, só sobramos nós dois.
― É a tradição. Temos que manter a tradição. Cada lugar vazio corresponde a um membro do clube que se foi.
― Ali se sentava o… Como era mesmo?
― O Gastão.
― Gastão, Gastão… Não sei se me lembro…
― Advogado. Morreu aqui na mesa mesmo, com uma espinha de peixe atravessada na garganta. Foi um escândalo. Ele rolou por cima da mesa. Destruiu um pudim de claras que parecia estar útimo. Nunca o perdoei.
― É engraçado. Não consigo me lembrar…
― Fazia um assado de perna de vitela com molho de hortelã.
― Claro! Agora me lembro. E batatas noisette. Sim, sim.
― Ali, sentava o doutor Malvino.
― Camarões com molho de nata.
― Não. Musse de salmão.
― Exato. Divina. E do lado dele…
― O Cerdeira. O primeiro dos nossos a morrer. Coração.
― Me lembro. Lamentável. Todos sentimos muito a sua morte. Ninguém fazia uma salada de anchovas como ele.
― Se ao menos tivesse deixado a receita do molho…
― Lamentável, lamentável.
― E quando morreu o Parreirinha?
― Nem me fale. Foi um golpe duro. Pensar que nunca mais provaríamos o seu creme de avelãs.
― Todos os membros do clube foram ao seu enterro. Houve cenas de desespero. Muitos salivavam descontroladamente junto ao caixão.
― A viúva alegou que ele não deixara a receita. Pensamos em recorrer à Justiça, lembra? Era birra dela. Dizia que o clube tinha matado o Parreirinha, de congestão.
― Balela. Sempre fomos incompreendidos. Nos acusavam de sermos símbolos de uma classe empanturrada pela própria inconsciência, qualquer coisa assim. Diziam que para nós a comida era tudo. Injustiça. [...]
― Mas chega de recordações. Vamos ao prato de hoje.
― Preparei a minha especialidade. Panquecas de hadock flambadas ao conhaque.
― Me ajude com o conhaque. Já não consigo segurar…
― Cuidado. Assim. Epa.
― Derramou um pouco na toalha. Não faz mal.
― Cuidado com esse fósforo. Não aproxime muito da… Olha aí, prendeu fogo na toalha.
― Olha a garrafa!
― Caiu embaixo da mesa.
― O fogo já chegou no chão.
― Você, quando fala em “flambé”, é “flambé” mesmo… Toda a mesa está em chamas.
― Salva as panquecas! Salva as panquecas!
― Tarde demais.
― Acho que devíamos chamar alguém para…
― Já estamos cercados pelo fogo. Não há ninguém aqui. E eu, francamente, não tenho ânimo para sair desta cadeira.
― Eu sei que a pergunta, a esta altura, é acadêmica, mas que conhaque era?
― Hennesy quatro estrelas, naturalmente. Eu não uso outra coisa.
― Pelas chamas, eu juraria que era um Martel.
― Ai.
― Hein?
― “Ai”. Denotando dor. Acho que está pegando fogo na minha calça. Qual seria o seu prato para a nossa próxima reunião?
― Bisque de lagosta.
― Pena, pena. Enfim…
― O pior é morrer assim, queimado.
― Você preferia como?
― Pelo menos mal-passado.
Luís Fernando Verissimo. (Adaptado). Ed Mort – todas as histórias. 1™ Ed. São Paulo: Objetiva, 2011.
Leia atentamente o texto a seguir para responder a questão.
Os pais devem consolar o seu filho ou deixar que ele se acalme sozinho? Maria Montessori nos orienta sobre isso.

Disponível em https://www.revistapazes.com/os-pais-devem-consolar-os-seus-filhos-ou-deve-deixar-que-ele-se-acalmesozinho-maria-montessori-nos-orienta-sobre-isso/
Acessado em 3/03/2020
I. A computação paralela é caracterizada pelo uso de várias unidades de processamento, que trabalham de forma simultânea, com o objetivo de otimizar a execução de uma tarefa. Baseia-se no conceito de dividir-para-conquistar. II. A execução de tarefas em um ambiente fortemente acoplado permite que a memória seja compartilhada entre os processos cooperantes. III. Para a elaboração de um programa paralelo, não é necessário prévio conhecimento da arquitetura de comunicação entre os processadores.
A sequência correta das afirmativas e
Rótulo i Índice de linha ii Palavra(s) dentro do bloco iii
A quantidade de bits de cada um dos campos acima, representados por i, ii e iii, são, respectivamente,
I. O conteúdo do e-mail foi alterado antes de chegar ao destino. II. O conteúdo do e-mail foi lido por uma pessoa que não é o destinatário devido.
Nas situações I e II, respectivamente, foram violados os seguintes princípios básicos da segurança da informação:
I. Os firewalls da categoria filtro de pacotes simples atuam na camada de rede e podem tomar decisões com base no endereço IP de origem, no endereço IP de destino, ou ainda com base na porta do protocolo TCP ou UDP. II. Os firewalls de estado são mais elaborados que os filtros de pacotes simples porque trabalham na camada de transporte e são capazes de detectar falhas não só no nível dos pacotes mas também no nível das conexões TCP. III. Os firewalls de aplicação conseguem analisar conteúdos das mensagens na camada mais alta da comunicação, tendo a capacidade de bloquear páginas web com conteúdos indesejados, por exemplo.
Considerando-se V para verdadeiro e F para falso, o julgamento correto das afirmativas é