Foram encontradas 2.575 questões

Resolva questões gratuitamente!

Junte-se a mais de 4 milhões de concurseiros!

Q3551389 Português
Débora Ferraz - Ogivas

Por Alexandre Kovacs

        A ambiguidade no título desta mais recente antologia de contos de Débora Ferraz desperta a curiosidade do leitor. Afinal, trata-se de referência às estruturas formadas por dois arcos que se cortam em ângulo, chamadas também de arcos ogivais, tão comuns na arquitetura gótica que revolucionou a história da arte ou trata-se de referência às temidas ogivas nucleares, presentes nos mísseis de longo alcance? Depois de ler as narrativas curtas e afiadas da autora, não me resta dúvida de que a intenção aqui é de que a arte, na forma leve de construção literária dos contos, possa ser também uma arma demolidora contra o preconceito e a violência cotidiana.

        E Débora Ferraz, que já foi vencedora dos Prêmios Sesc e São Paulo de Literatura, prepara as suas bombas como uma "exímia terrorista literária" na ótima definição do escritor Bruno Ribeiro na orelha do livro. No curto espaço de manobra dos contos, utilizando uma estrutura narrativa que tem muito de visual, Débora coloca o leitor no centro da ação desde o início, fazendo com que os detonadores sejam acionados quando menos se espera.

        Em "Você", uma estrutura narrativa em segunda pessoa trabalha de forma bem-humorada com os delírios de um ex-fumante que luta contra o vício (ler trecho abaixo), colocando em dúvida a própria condição mental do protagonista (você/eu). Por sinal, o humor está presente na maioria dos contos, com exceção de alguns como: "Pedra, papel e tesoura" que lida com a tragédia das balas perdidas que destroem futuros nas periferias dos grandes centros urbanos, "Dois perdidos em um dia branco", no qual um casal de amigos perdedores compartilha o alcoolismo e a falta de esperança na vida, assim como o sensível "Quatro de julho" que encerra o livro com o resumo de uma relação entre pai e filho por meio do futebol e das decisões de algumas copas do mundo disputadas pelo Brasil.

        "Foi desde a última quinta que o desejo de fumar veio com tudo. Bastou o avião pousar no aeroporto Santos Dumont e suas grandes habilidades começaram a pulular. Bastou caminhar pelo saguão com todas aquelas lojas oferecendo cigarros, descaradamente. Uma coisa que descobri faz pouco tempo é que todo fumante sempre sabe onde o cigarro está. É uma espécie de sexto sentido. Mas os fumantes em recuperação são ainda piores. Eles sabem até dos lugares em que podem consegui-los na unidade (ah, unidades são os queridinhos dos fumantes em recuperação otimistas). Um fumante em recuperação, tal como um agente secreto ou um paranóico, ele está o tempo inteiro, enquanto finge falar com você, enquanto anda pelo saguão, enquanto preenche o cadastro, ele está o tempo inteiro esquadrinhando sua área em busca do inimigo. Conhece todas as rotas que o levam ao cigarro. Você envelhece nesse tempo inteiro. E foi assim que ontem você saiu de bermuda até o bar da esquina. Estava fechado. Menos mal, você pensou. Você disse a si mesmo que não, que de jeito nenhum. Isso não teve a menor intenção de saber a que horas aquele bar fechava. Então voltou para casa, fez polichinelos, flexões, marinheiro, agachamentos... Hoje está praticamente aleijado de dor muscular. E ainda assim querendo um cigarro." (p. 114-5) - Trecho do conto “Você” 

        No assustador e real "Notas sobre a travessia", novamente uma opção da autora pela transição da narrativa em primeira para segunda pessoa, também não há espaço para o humor quando a protagonista declara na abertura: "Tem uma bomba-relógio presa em meu corpo" e apresenta em retrospecto os primeiros dias da pandemia em 2020, o medo de um vírus então muito pouco conhecido e que ela carregava em seu próprio organismo ao retornar para o Brasil: "Mas, neste momento, parada de pé no meio do aeroporto de Guarulhos, você é uma personagem. Você decide ali mesmo pela paranoia. No fundo, sentir medo sempre foi sua especialidade."

        E assim, com suas ogivas literárias, o livro de Débora Ferraz atinge o objetivo ao nos fazer refletir sobre as dificuldades de preservar o nosso resto de humanidade ainda possível em um mundo que mantém a sua rota de autodestruição ou, até mesmo, de enfrentar as nossas crises pessoais. Exemplo disso está em "O filhote do terremoto" (ler trecho abaixo), um conto que demonstra com muito lirismo a chegada da terceira idade, mesmo sendo uma condição ainda distante para a jovem autora, o texto é muito convincente. Uma obra recomendada e que se destaca na literatura contemporânea pela coragem na escolha dos temas.

        "Aí depois foi bem no cantinho do olho. Começou a tremer também. Sabe quando dizem que é vista cansada? É isso... é isso. Cansaço. Eu abstraía a sensação nos meus movimentos repetidos. Descascar cebola, me encolher nos dias, olhar o menino brincando, derramar chá. Então, já era o dedinho e o canto do olho. O terremoto que me abalava os dias. Parte de mim trabalhava, inconscientemente, apenas para observar que os outros, minguados e distantes, mal perceberam o fato de que meu olho começava a rachar. Dava pra ver, se olhasse de perto, os vincos formando. São sinais tão claros, meu Deus... Eu conseguia ouvir o barulho, até. Era dentro de mim. E só de sentir, sozinha, eu sabia que eu ainda ia rachar inteira. O terremoto desfazia minhas bases. Definitivo. Fadado. Dava uma agonia medonha. Mas deixa que passa. Essas coisas são assim mesmo, não são? Dá e passa." (p. 174) - Trecho do conto “O filhote de terremoto”

Disponível em https://www.mundodek.com/2022/04/debora-ferraz-ogivas.html. Adaptado. Acessado em 06.maio.2024.
*Sobre a autora: Débora Laís Ferraz dos Santos é uma escritora brasileira contemporânea. Nasceu no sertão de Pernambuco, mudou-se ainda em 2001 para João Pessoa, onde formou-se em Jornalismo pela Universidade Federal da Paraíba, em 2009. Escreveu seu primeiro livro, Os anjos, em 2003.

“Eles sabem até dos lugares em que podem consegui-los na unidade (ah, unidades são os queridinhos dos fumantes em recuperação otimistas)”. O pronome “los”. em destaque no excerto extraído do Texto, exerce a função sintática de 
Alternativas
Q3551388 Português
Débora Ferraz - Ogivas

Por Alexandre Kovacs

        A ambiguidade no título desta mais recente antologia de contos de Débora Ferraz desperta a curiosidade do leitor. Afinal, trata-se de referência às estruturas formadas por dois arcos que se cortam em ângulo, chamadas também de arcos ogivais, tão comuns na arquitetura gótica que revolucionou a história da arte ou trata-se de referência às temidas ogivas nucleares, presentes nos mísseis de longo alcance? Depois de ler as narrativas curtas e afiadas da autora, não me resta dúvida de que a intenção aqui é de que a arte, na forma leve de construção literária dos contos, possa ser também uma arma demolidora contra o preconceito e a violência cotidiana.

        E Débora Ferraz, que já foi vencedora dos Prêmios Sesc e São Paulo de Literatura, prepara as suas bombas como uma "exímia terrorista literária" na ótima definição do escritor Bruno Ribeiro na orelha do livro. No curto espaço de manobra dos contos, utilizando uma estrutura narrativa que tem muito de visual, Débora coloca o leitor no centro da ação desde o início, fazendo com que os detonadores sejam acionados quando menos se espera.

        Em "Você", uma estrutura narrativa em segunda pessoa trabalha de forma bem-humorada com os delírios de um ex-fumante que luta contra o vício (ler trecho abaixo), colocando em dúvida a própria condição mental do protagonista (você/eu). Por sinal, o humor está presente na maioria dos contos, com exceção de alguns como: "Pedra, papel e tesoura" que lida com a tragédia das balas perdidas que destroem futuros nas periferias dos grandes centros urbanos, "Dois perdidos em um dia branco", no qual um casal de amigos perdedores compartilha o alcoolismo e a falta de esperança na vida, assim como o sensível "Quatro de julho" que encerra o livro com o resumo de uma relação entre pai e filho por meio do futebol e das decisões de algumas copas do mundo disputadas pelo Brasil.

        "Foi desde a última quinta que o desejo de fumar veio com tudo. Bastou o avião pousar no aeroporto Santos Dumont e suas grandes habilidades começaram a pulular. Bastou caminhar pelo saguão com todas aquelas lojas oferecendo cigarros, descaradamente. Uma coisa que descobri faz pouco tempo é que todo fumante sempre sabe onde o cigarro está. É uma espécie de sexto sentido. Mas os fumantes em recuperação são ainda piores. Eles sabem até dos lugares em que podem consegui-los na unidade (ah, unidades são os queridinhos dos fumantes em recuperação otimistas). Um fumante em recuperação, tal como um agente secreto ou um paranóico, ele está o tempo inteiro, enquanto finge falar com você, enquanto anda pelo saguão, enquanto preenche o cadastro, ele está o tempo inteiro esquadrinhando sua área em busca do inimigo. Conhece todas as rotas que o levam ao cigarro. Você envelhece nesse tempo inteiro. E foi assim que ontem você saiu de bermuda até o bar da esquina. Estava fechado. Menos mal, você pensou. Você disse a si mesmo que não, que de jeito nenhum. Isso não teve a menor intenção de saber a que horas aquele bar fechava. Então voltou para casa, fez polichinelos, flexões, marinheiro, agachamentos... Hoje está praticamente aleijado de dor muscular. E ainda assim querendo um cigarro." (p. 114-5) - Trecho do conto “Você” 

        No assustador e real "Notas sobre a travessia", novamente uma opção da autora pela transição da narrativa em primeira para segunda pessoa, também não há espaço para o humor quando a protagonista declara na abertura: "Tem uma bomba-relógio presa em meu corpo" e apresenta em retrospecto os primeiros dias da pandemia em 2020, o medo de um vírus então muito pouco conhecido e que ela carregava em seu próprio organismo ao retornar para o Brasil: "Mas, neste momento, parada de pé no meio do aeroporto de Guarulhos, você é uma personagem. Você decide ali mesmo pela paranoia. No fundo, sentir medo sempre foi sua especialidade."

        E assim, com suas ogivas literárias, o livro de Débora Ferraz atinge o objetivo ao nos fazer refletir sobre as dificuldades de preservar o nosso resto de humanidade ainda possível em um mundo que mantém a sua rota de autodestruição ou, até mesmo, de enfrentar as nossas crises pessoais. Exemplo disso está em "O filhote do terremoto" (ler trecho abaixo), um conto que demonstra com muito lirismo a chegada da terceira idade, mesmo sendo uma condição ainda distante para a jovem autora, o texto é muito convincente. Uma obra recomendada e que se destaca na literatura contemporânea pela coragem na escolha dos temas.

        "Aí depois foi bem no cantinho do olho. Começou a tremer também. Sabe quando dizem que é vista cansada? É isso... é isso. Cansaço. Eu abstraía a sensação nos meus movimentos repetidos. Descascar cebola, me encolher nos dias, olhar o menino brincando, derramar chá. Então, já era o dedinho e o canto do olho. O terremoto que me abalava os dias. Parte de mim trabalhava, inconscientemente, apenas para observar que os outros, minguados e distantes, mal perceberam o fato de que meu olho começava a rachar. Dava pra ver, se olhasse de perto, os vincos formando. São sinais tão claros, meu Deus... Eu conseguia ouvir o barulho, até. Era dentro de mim. E só de sentir, sozinha, eu sabia que eu ainda ia rachar inteira. O terremoto desfazia minhas bases. Definitivo. Fadado. Dava uma agonia medonha. Mas deixa que passa. Essas coisas são assim mesmo, não são? Dá e passa." (p. 174) - Trecho do conto “O filhote de terremoto”

Disponível em https://www.mundodek.com/2022/04/debora-ferraz-ogivas.html. Adaptado. Acessado em 06.maio.2024.
*Sobre a autora: Débora Laís Ferraz dos Santos é uma escritora brasileira contemporânea. Nasceu no sertão de Pernambuco, mudou-se ainda em 2001 para João Pessoa, onde formou-se em Jornalismo pela Universidade Federal da Paraíba, em 2009. Escreveu seu primeiro livro, Os anjos, em 2003.

De acordo com o comentário feito por Alexandre Kovacs, disposto no Texto, o nome Ogivas, referente ao livro da escritora Débora Ferraz, apresenta um sentido
Alternativas
Q3532243 Pedagogia

Considere as afirmações a seguir sobre o controle da movimentação dos alunos dentro do ambiente escolar:



I. O monitoramento constante dos alunos nos intervalos e trocas de aula é uma medida eficaz para manter a segurança.


II. Deixar os alunos livremente sem qualquer supervisão nos espaços comuns promove a independência e autogestão.


III. Estabelecer rotas seguras e bem sinalizadas dentro da escola contribui para a prevenção de acidentes e confusões.



Está correto o que se afirma em:

Alternativas
Q3532242 Pedagogia
Em relação às diretrizes para questões de saúde no espaço escolar, qual das seguintes afirmações é VERDADEIRA?
Alternativas
Q3532241 Pedagogia
Em uma sala de aula inclusiva, qual estratégia um Agente Educacional deve evitar ao adaptar atividades para alunos com deficiências?
Alternativas
Q3532240 Noções de Primeiros Socorros
No caso de um aluno que sofre uma convulsão na escola, qual é a ação INICIAL mais adequada por parte do Agente Educacional?
Alternativas
Q3532239 Gestão de Pessoas
Qual comportamento é fundamental para um Agente Educacional ao lidar com conflitos entre colegas de trabalho, visando manter um ambiente de trabalho ético e respeitoso?
Alternativas
Q3532238 Noções de Primeiros Socorros

Considere as seguintes afirmações sobre a prestação de primeiros socorros em ambiente escolar:



I. Em caso de queimaduras, deve-se aplicar imediatamente gelo sobre a área afetada para aliviar a dor.


II. No atendimento a fraturas, a imobilização da área afetada é crucial até que se obtenha atendimento médico especializado.


III. Hemorragias devem ser controladas com pressão direta sobre o ferimento, utilizando-se um pano limpo ou gaze.



Está correto o que se afirma em: 

Alternativas
Q3532237 Pedagogia
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece direitos e garantias para proteger integralmente a infância e a juventude. Qual das seguintes práticas NÃO está alinhada aos princípios do ECA?
Alternativas
Q3532236 Pedagogia

Avalie as seguintes afirmações relacionadas ao atendimento de alunos em uma unidade escolar:



I. A identificação precisa e a escuta ativa são fundamentais no atendimento às necessidades dos alunos.


II. A comunicação de informações deve ser feita de forma clara, evitando o uso de termos técnicos que possam confundir o aluno ou responsável.


III. É adequado compartilhar informações confidenciais dos alunos com colegas de trabalho para facilitar o atendimento.



Está correto o que se afirma em:

Alternativas
Q3532235 Pedagogia
Na implementação de práticas de educação inclusiva, qual estratégia um Agente Educacional deve evitar ao trabalhar com alunos com deficiência?
Alternativas
Q3532234 Noções de Primeiros Socorros
Em caso de fratura óssea suspeita em um aluno, qual é a ação inicial correta por parte do Agente Educacional antes da chegada do socorro médico? 
Alternativas
Q3532233 Gestão de Pessoas
Qual comportamento é essencial para um Agente Educacional ao interagir com colegas de trabalho e contribuir para um ambiente escolar positivo?
Alternativas
Q3532232 Pedagogia
Um Agente Educacional percebe um grupo de alunos correndo nos corredores, claramente violando as normas da escola sobre segurança. Qual é a abordagem mais adequada para lidar com esta situação, considerando a manutenção da ordem e a segurança dos alunos? 
Alternativas
Q3532231 Ética na Administração Pública
A ética no serviço público é fundamental para construir relações de confiança entre servidores e comunidade. Qual ação compromete essa confiança?
Alternativas
Q3532230 Noções de Primeiros Socorros
Se um aluno se machuca levemente no recreio, qual é o procedimento inicial correto que um Agente Educacional deve tomar antes de encaminhá-lo para cuidados mais específicos?
Alternativas
Q3532229 Atendimento ao Público
Qual comportamento NÃO é apropriado para o trato diário com o público interno, externo e colegas de trabalho? 
Alternativas
Q3532228 Noções de Primeiros Socorros
Em caso de necessidade, como um agente educacional deve proceder ao atender um aluno que se sente mal? 
Alternativas
Q3532227 Pedagogia
Na observação da conduta dos alunos, qual ação é fundamental para promover um ambiente escolar positivo?
Alternativas
Q3532226 Pedagogia
Qual estratégia NÃO é eficaz no controle da movimentação dos alunos dentro do ambiente escolar? 
Alternativas
Respostas
841: B
842: A
843: B
844: B
845: B
846: C
847: D
848: B
849: B
850: A
851: C
852: B
853: D
854: B
855: D
856: C
857: C
858: B
859: C
860: A