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Q791906 Português
Ler devia ser proibido
(Guiomar de Gramont*)
A pensar a fundo na questão, eu diria que ler devia ser proibido. Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social. Não me deixam mentir os exemplos de Don Quixote e Madame Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram, meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tornou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.
Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-lo com cabriolas da imaginação.
Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?
Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem necessariamente ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.
Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebidas.
É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.
Não, não deem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, podem levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, podem estimular uma curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.
Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos, em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verossimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.
O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas leem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos, bulas de remédio, projetos, manuais, etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incômodas. É esse o tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a máquina do tempo. Para o homem que lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura? 
É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metrôs, ou no silêncio da alcova… Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um. Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos. Para obedecer, não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submissão.
Para executar ordens, a palavra é inútil.
Além disso, a leitura promove a comunicação de dores, alegrias, tantos outros sentimentos. A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna coletivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.
Ler pode tornar o homem perigosamente humano.
Publicado originalmente em A formação do leitor: pontos de vista. Org. Juan Prado e Paulo Condini, Leia Brasil, 1999.
*Escritora e professora de Filosofia no Instituto de Filosofia e Artes da UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto)  
Atente para as frases a seguir: “Sem leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram.” “Além disso, o livro estimula os sonhos, a imaginação, a fantasia.” Os enunciados apresentam, respectivamente, os seguintes recursos estilísticos:
Alternativas
Q791904 Português
Ler devia ser proibido
(Guiomar de Gramont*)
A pensar a fundo na questão, eu diria que ler devia ser proibido. Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social. Não me deixam mentir os exemplos de Don Quixote e Madame Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram, meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tornou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.
Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-lo com cabriolas da imaginação.
Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?
Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem necessariamente ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.
Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebidas.
É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.
Não, não deem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, podem levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, podem estimular uma curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.
Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos, em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verossimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.
O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas leem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos, bulas de remédio, projetos, manuais, etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incômodas. É esse o tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a máquina do tempo. Para o homem que lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura? 
É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metrôs, ou no silêncio da alcova… Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um. Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos. Para obedecer, não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submissão.
Para executar ordens, a palavra é inútil.
Além disso, a leitura promove a comunicação de dores, alegrias, tantos outros sentimentos. A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna coletivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.
Ler pode tornar o homem perigosamente humano.
Publicado originalmente em A formação do leitor: pontos de vista. Org. Juan Prado e Paulo Condini, Leia Brasil, 1999.
*Escritora e professora de Filosofia no Instituto de Filosofia e Artes da UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto)  
Marque a alternativa CORRETA sobre o artigo de Guiomar de Gramont:
Alternativas
Q789918 Raciocínio Lógico
A sentença “Se Teixeira de Freitas é um município do extremo sul da Bahia, então Salvador não é a capital da Bahia” equivale a:
Alternativas
Q788823 Técnicas em Laboratório
Na determinação dos índices hematimétricos de uma amostra de sangue total de um homem adulto, um Técnico de Laboratório encontrou os seguintes valores: hemácias = 3,1 × 10⁶ /mm³ , hemoglobina = 10,7 mg/L e hematócrito = 33 fentolitros. Considerando esses resultados, o Técnico concluiu que essa amostra apresenta eritrócitos
Alternativas
Q788822 Técnicas em Laboratório
Considerando as medidas e equipamentos de segurança no laboratório de análises clínicas, marque a alternativa que apresenta apenas equipamentos de proteção individual para o Técnico de Análises Clínicas.
Alternativas
Q788821 Técnicas em Laboratório
Em relação ao teste de coombs indireto, marque a alternativa que apresenta a amostra biológica a ser obtida para a realização desse teste durante a investigação da compatibilidade sanguínea materno-fetal.
Alternativas
Q788820 Técnicas em Laboratório
Para a realização do teste do tempo de atividade de protrombina (TAP), é necessária a adição de um substrato à amostra biológica. Esse substrato é:
Alternativas
Q788819 Técnicas em Laboratório
A escolha do meio de cultura é fundamental para o sucesso do diagnóstico microbiológico. Para a cultura de amostras biológicas com suspeita de Mycobacterium tuberculosis, para diagnóstico da tuberculose, o meio de cultura adequado é o
Alternativas
Q788818 Técnicas em Laboratório
Um Técnico de Laboratório procedeu à semeadura de uma urina de jato médio de um homem de 35 anos em uma placa de ágar cled. Para isso, utilizou uma alça calibrada de 0,001 mL. Nesse caso, qual é o número mínino de bactérias que devem ser encontradas nessa placa para que a quantidade de microrganismos seja considerada significativa e a cultura positiva?
Alternativas
Q788817 Técnicas em Laboratório
Em relação às alterações encontradas na contagem diferencial de leucócitos do hemograma, qual a alteração esperada para um paciente que apresenta quadro de infecção bacteriana aguda?
Alternativas
Q788816 Técnicas em Laboratório
Para realização da dosagem de creatinina sérica, foram determinadas as absorbâncias do tubo contendo a amostra desconhecida (Absorbância = 0,750) e da amostra padrão (Absorbância = 1,000). Sabendo-se que a concentração da amostra padrão é 2,0 mg/dL e que a reação obedece à Lei de Lambert-Beer, marque a alternativa que apresenta a concentração de creatinina na amostra desconhecida.
Alternativas
Q788815 Técnicas em Laboratório
Durante uma análise bioquímica do sangue, um Técnico de Laboratório encontrou os seguintes valores para os lipídeos plasmáticos: colesterol total = 180 mg/dL, triglicerídeos = 200 mg/dL e colesterol HDL = 40 mg/dL. Com esses resultados, ele calculou os valores de colesterol VLDL e colesterol LDL, que foram, respectivamente:
Alternativas
Q788814 Técnicas em Laboratório
Na pesquisa de anticorpos para diagnóstico de doenças infecciosas, são utilizados diferentes testes imunológicos. O teste laboratorial indicado para a determinação da quantidade de anticorpos circulantes por meio da medida da densidade ótica da cor formada pela reação antígeno-anticorpo é:
Alternativas
Q788813 Técnicas em Laboratório
Em relação aos métodos de análise bioquímica da urina, qual composto bioquímico estará presente na urina quando a reação de Van den Bergh for positiva na tira reativa?
Alternativas
Q788812 Técnicas em Laboratório
A presença de cristais na urina é influenciada pelo seu pH. Qual alternativa apresenta um cristal que poderia ser encontrado em uma amostra de urina com pH = 8?
Alternativas
Q788811 Técnicas em Laboratório
Considerando os métodos parasitológicos e as formas evolutivas dos helmintos encontrados nas fezes, marque a alternativa que apresenta o método adequado para pesquisa de Strongyloides stercoralis, bem como sua forma evolutiva encontrada nas fezes de um indivíduo parasitado.
Alternativas
Q788810 Técnicas em Laboratório
Em relação à pesquisa de hematozoários e ao diagnóstico da malária, marque a alternativa que apresenta o principal método para o diagnóstico da doença no Brasil e a maneira adequada para a obtenção de amostra biológica.
Alternativas
Q788809 Técnicas em Laboratório
Para a contagem de leucócitos em câmara de Neubauer, deve-se proceder à diluição do sangue total em líquido de Turk, adicionar a diluição na câmara e contar um número apropriado de quadrados. A razão da diluição do sangue e o número de quadrados contados na câmara são, respectivamente:
Alternativas
Q788808 Técnicas em Laboratório
Os testes laboratoriais, para apresentarem resultados satisfatórios, devem ser exatos e precisos. Precisão ou exatidão separadamente não fornecerão resultados confiáveis na rotina de um laboratório de análises clínicas. Durante a realização de vários testes de glicemia em amostras de soro com concentração conhecida, o Técnico que estava processando as análises percebeu que em todas elas o resultado era sempre acima do valor esperado, com uma variação semelhante nas várias dosagens realizadas. Nesse caso, o teste de glicemia que estava sendo realizado era
Alternativas
Q788807 Técnicas em Laboratório
Durante a realização de testes bioquímicos, é necessária a utilização de amostras controle, com concentrações conhecidas do analito a ser determinado. Essas amostras controle devem ser analisadas diariamente ou antes do início de cada corrida analítica e servem para determinar se a análise está dentro ou fora do controle esperado. Segundo as regras de Westgard, NÃO é considerado indicador de que a corrida analítica está fora de controle quando a concentração determinada na amostra controle
Alternativas
Respostas
2161: B
2162: D
2163: A
2164: D
2165: B
2166: D
2167: C
2168: A
2169: B
2170: B
2171: C
2172: D
2173: A
2174: D
2175: A
2176: A
2177: B
2178: C
2179: B
2180: D