Questões de Concurso Para prefeitura de astolfo dutra - mg

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Q3484543 Direito Sanitário
“A Conferência de Saúde reunir-se-á a cada ________________ com a representação dos vários segmentos sociais, para avaliar a situação de saúde e propor as diretrizes para a formulação da política de saúde nos níveis correspondentes, convocada pelo Poder Executivo ou, extraordinariamente, por esta ou pelo Conselho de Saúde.” Sobre a periodicidade estabelecida para Conferência de Saúde se reunir, assinale a alternativa que completa corretamente a afirmativa anterior.
Alternativas
Q3484542 Saúde Pública
Os Municípios poderão estabelecer consórcio para execução de ações e serviços de saúde, remanejando, entre si, parcelas de recursos orçamentários. De acordo com as diretrizes do SUS e da RAS a serem operacionalizadas na Atenção Básica, marque V para as verdadeiras e F para as falsas.

( ) Fundo de Saúde.
( ) Conselho de Saúde.
( ) Plano de Saúde.
( ) Contrapartida de recursos para a saúde no respectivo orçamento.
( ) Comissão de elaboração do Plano de Carreira, Cargos e Salários (PCCS).

A sequência está correta em
Alternativas
Q3484541 Saúde Pública
A legislação atual define que “o acesso universal, igualitário e ordenado às ações e serviços de saúde se inicia pelas portas de entrada do SUS e se completa na rede regionalizada e hierarquizada”. Nesse contexto, a gestão municipal deve articular e criar condições, para que a referência aos serviços especializados ambulatoriais seja realizada preferencialmente pela Atenção Básica, sendo de sua responsabilidade:

I. Ordenar o fluxo das pessoas nos demais pontos de atenção da RAS.
II. Gerir a referência e contrarreferência em outros pontos de atenção.
III. Estabelecer relação com os especialistas que cuidam das pessoas do território.

Está correto o que se afirma em
Alternativas
Q3484540 Saúde Pública
As informações a seguir contextualizam a questão. Leia-as atentamente.


A Portaria nº 2.436, de 21 de setembro de 2017, aprovou a Política Nacional de Atenção Básica, estabelecendo a revisão de diretrizes para a organização da Atenção Básica, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). 
No que se refere às diretrizes do SUS e da RAS a serem operacionalizados na Atenção Básica, marque V para as afirmativas verdadeiras e F para as falsas.

( ) Regionalização e emancipação.
( ) Territorialização.
( ) População adstrita.
( ) Cuidado centrado na comunidade.

A sequência está correta em
Alternativas
Q3484539 Saúde Pública
As informações a seguir contextualizam a questão. Leia-as atentamente.


A Portaria nº 2.436, de 21 de setembro de 2017, aprovou a Política Nacional de Atenção Básica, estabelecendo a revisão de diretrizes para a organização da Atenção Básica, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). 
São considerados princípios do SUS e das Redes de Atenção à Saúde (RAS) a serem operacionalizados na Atenção Básica, EXCETO:
Alternativas
Q3484538 Português
O texto contextualiza a questão. Leia-o atentamente.


Missa do Galo 


    Nunca pude esquecer a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia- -noite.

    A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas. A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem, quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranquilo, naquela casa assobradada da Rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça; mas, afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.

    Boa Conceição! Chamavam-lhe “a santa”, e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. No capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.


(ASSIS, Machado de. Missa do Galo. In Contos Consagrados. Rio de Janeiro: Ediouro; São Paulo: Publifolha, 1997. Excertos.)
Em: Chamavam-lhe “a santa”, e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. (3º§), as aspas foram empregadas para:
Alternativas
Q3484537 Português
O texto contextualiza a questão. Leia-o atentamente.


Missa do Galo 


    Nunca pude esquecer a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia- -noite.

    A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas. A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem, quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranquilo, naquela casa assobradada da Rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça; mas, afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.

    Boa Conceição! Chamavam-lhe “a santa”, e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. No capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.


(ASSIS, Machado de. Missa do Galo. In Contos Consagrados. Rio de Janeiro: Ediouro; São Paulo: Publifolha, 1997. Excertos.)
Dentre as transcrições textuais relacionadas, assinale a que expressa ideia de condição.
Alternativas
Q3484536 Português
O texto contextualiza a questão. Leia-o atentamente.


Missa do Galo 


    Nunca pude esquecer a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia- -noite.

    A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas. A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem, quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranquilo, naquela casa assobradada da Rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça; mas, afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.

    Boa Conceição! Chamavam-lhe “a santa”, e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. No capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.


(ASSIS, Machado de. Missa do Galo. In Contos Consagrados. Rio de Janeiro: Ediouro; São Paulo: Publifolha, 1997. Excertos.)
A frase em que o vocábulo destacado tem seu sinônimo INDEVIDAMENTE indicado é:
Alternativas
Q3484535 Português
O texto contextualiza a questão. Leia-o atentamente.


Missa do Galo 


    Nunca pude esquecer a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia- -noite.

    A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas. A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem, quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranquilo, naquela casa assobradada da Rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça; mas, afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.

    Boa Conceição! Chamavam-lhe “a santa”, e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. No capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.


(ASSIS, Machado de. Missa do Galo. In Contos Consagrados. Rio de Janeiro: Ediouro; São Paulo: Publifolha, 1997. Excertos.)
Metonímia é a substituição de uma palavra por outra, quando entre ambas existe uma relação de proximidade de sentidos que permite essa troca. Trata-se uma figura de linguagem que surge da necessidade do falante ou escritor dar mais ênfase à comunicação. Depreende-se que há um exemplo de metonímia em:
Alternativas
Q3484534 Português
O texto contextualiza a questão. Leia-o atentamente.


Missa do Galo 


    Nunca pude esquecer a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia- -noite.

    A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas. A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem, quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranquilo, naquela casa assobradada da Rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça; mas, afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.

    Boa Conceição! Chamavam-lhe “a santa”, e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. No capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.


(ASSIS, Machado de. Missa do Galo. In Contos Consagrados. Rio de Janeiro: Ediouro; São Paulo: Publifolha, 1997. Excertos.)
“Missa do Galo” é um título que se refere à tradição da Missa de Natal que é celebrada à meia-noite na véspera do Natal. O conto é visto como uma reflexão sobre a vida, a morte e a espiritualidade. De acordo com as ideias do texto, NÃO é possível presumir que:
Alternativas
Q3484533 Português
O texto contextualiza a questão. Leia-o atentamente.


Em forma de pomba


    Talvez você ache esquisito eu estar te escrevendo hoje; talvez não: no fundo o surpreendente sempre foi habitual para você. Em todo caso, eu é que estou achando, pois nunca te escrevi antes, e só estivemos juntas uma vez. Lembra-se? Foi há quase dois anos, em abril de 76, quando você veio a Buenos Aires para o encerramento da Feira do Livro. Essas coisas: eu sempre admirando tanto você, lendo os seus livros, distribuindo os seus contos entre os meus alunos, e ao mesmo tempo com aquele receio de te conhecer, de você não corresponder à figura um pouco irreal que eu imaginava (às vezes, são os escritores cuja obra mais frequentamos os que mais nos decepcionam em carne e osso), de tomar o seu tempo, de você me achar muito professora de português, com mania de virgular direitinho e obedecer à sintaxe – o contrário do que você tão magnificamente sempre foi. Sei lá. E com tantos amigos em comum... Marly de Oliveira era uma que falava em você o tempo todo, estava sempre contando as conversas que tinham tido e um famoso passeio que fizeram a Friburgo. O fato é que os anos passavam e não nos reuniam.


    Então você chegou aqui. Pensei: “Vou vê-la? O pessoal já deve andar atrás dela, exigindo autógrafos e declarações – melhor deixá-la em paz”. Pois foi você quem me telefonou uma manhã: identifiquei logo sua voz, de “erres” carregados, que eu conhecia de ouvir contar. Ah, você nem imagina com que emoção aceitei o convite para almoçarmos juntas no dia seguinte. Caprichei no vestidinho verde e azul – que depois você elogiou com espontaneidade – e cheguei pontualmente ao hotel, pois você me recomendara com certa aflição que não me atrasasse. Que susto quando soube que você já havia saído, sem deixar recado. Foi um boy da portaria, que por acaso tinha visto você entrar no cabeleireiro da calçada em frente, que me salvou. Atravessei a rua e encontrei você lá, de terninho bege, esperando tranquilamente ser atendida. Você me abraçou com alegria: parecia a coisa mais natural do mundo eu te descobrir num lugar diferente do combinado. Como você insistisse em levar alguma encomenda minha para o Rio, e como o salão estava cheíssimo e você aparentemente iria demorar bastante, aproveitei para ir até a Harrods, buscar umas pastilhas de hortelã e chocolate, que o meu povinho adora. Quando voltei, 15 minutos depois, você já estava à minha espera, penteadíssima, enquanto Olga, seu anjo da guarda, pagava a conta. Não havia dúvida – concluí – que a lógica vulgar de todos nós nada tinha que ver com a sua, mágica por excelência.


    E as surpresas não terminaram aí, porque o almoço não foi num restaurante, como havíamos decidido na véspera, mas na casa de uma senhora argentina, praticamente desconhecida, que na noite anterior fora comprar um livro seu na Feira e ficara fascinada por você. Numa época em que aqui só se falava em sequestros, você, com a perfeita intuição de sempre, achou normalíssima a gentileza com que a moça nos levou de táxi a um apartamento de luxo, repleto de aços e acrílicos, onde um marido grego, que vendia tapetes, e uma gata siamesa, batizada Lou Salomé, nos aguardavam. Você adorou a bichinha, e contou que o seu cachorro, Ulisses, fumava muito. Que coincidência: há mil anos atrás, outro cão, de uma novelinha adolescente que cometi a imprudência de escrever, também se chamava Ulisses; e ainda tínhamos, cada uma, um filho de nome Pedro. Falar em filhos, e você retomou o tema que tanto te emocionava naquela tarde: o casamento do outro garoto, Paulo, acontecido poucos dias antes. Como você se iluminava toda ao descrever a festa em torno da piscina...


    O casal seguia suas palavras com tamanho interesse, que acabou entendendo o português, que você insistia em falar, e dispensando qualquer tradução. Como primeiro prato serviram uma quiche Lorraine, que você apreciou e repetiu, mas na hora da carne assada você pediu licença e saiu da mesa para descansar. Todos te seguimos sem estranheza, como se de repente o almoço tivesse terminado; fomos até o quarto e tomamos café sentados na cama gigantesca (a maior que já vi), coberta por uma colcha azul. Havia uma pombinha de cerâmica sobre a mesa de cabeceira; ao notar seu interesse pela peça, a dona da casa exultou: Te la regalo, e você agradeceu com ar sonhador.


    Saímos apressadas, porque você ainda tinha que gravar uma entrevista e receber vários repórteres. Já na rua, enquanto Olga procurava um táxi, você descobriu outra pomba, esta de verdade, pousada junto à porta do edifício. É tão frequente encontrar essas aves nas ruas da cidade, que nem me detive, mas você parou e olhou-a longamente, como se se tratasse de um milagre único e insubstituível. Senti que você estava vivendo um instante poético e não me aproximei, para não perturbar o silencioso diálogo. Você então me chamou, segurou-me pela mão, fitou-me seriamente e me pediu: “Quer me fazer um favor? Escreva uma história sobre esta pomba”. Concordei, meio sem jeito, com a secreta convicção que não manteria a palavra. Não sei inventar casos, como você; acho que, se pudesse, teria escrito, mas não deu.


    Depois você voltou para o Brasil, nós nos perdemos de vista e tudo continuou mais ou menos como antes. Só que de repente você partiu, e não pude nem me despedir. Já tem quase um mês: como é que passou depressa, hein? Você que nunca se perturbou com a mesquinha dimensão do nosso tempo, deve estar se divertindo com essa mania que a gente tem de fazer as coisas sempre na hora (in)certa. Fiquei com a sensação incômoda de não haver cumprido a promessa. Sei que você sempre pairou acima de tudo isso – e agora nem se fala – mas eu ainda estou, sempre estive presa às pequenas contingências. Deve ser por isso que aqui estou para te pedir desculpas por não haver escrito a história. E te dizer que estamos sentindo muito a sua falta, mas fique tranquila: seus livros nos fazem companhia. E para te mandar este beijo, Clarice, em forma de pomba.


(Coleção Melhores Crônicas: Maria Julieta Drummond de Andrade. Seleção e prefácio de Marcos Pasche, Global, 2012, pp. 45-48. Publicada no livro: Um buquê de alcachofras, 1980.)
Considere os dois termos que compõem o nome da autora do texto: “Maria” e “Julieta”. É correto afirmar que ambos os vocábulos têm em comum o fato de serem:
Alternativas
Q3484532 Português
O texto contextualiza a questão. Leia-o atentamente.


Em forma de pomba


    Talvez você ache esquisito eu estar te escrevendo hoje; talvez não: no fundo o surpreendente sempre foi habitual para você. Em todo caso, eu é que estou achando, pois nunca te escrevi antes, e só estivemos juntas uma vez. Lembra-se? Foi há quase dois anos, em abril de 76, quando você veio a Buenos Aires para o encerramento da Feira do Livro. Essas coisas: eu sempre admirando tanto você, lendo os seus livros, distribuindo os seus contos entre os meus alunos, e ao mesmo tempo com aquele receio de te conhecer, de você não corresponder à figura um pouco irreal que eu imaginava (às vezes, são os escritores cuja obra mais frequentamos os que mais nos decepcionam em carne e osso), de tomar o seu tempo, de você me achar muito professora de português, com mania de virgular direitinho e obedecer à sintaxe – o contrário do que você tão magnificamente sempre foi. Sei lá. E com tantos amigos em comum... Marly de Oliveira era uma que falava em você o tempo todo, estava sempre contando as conversas que tinham tido e um famoso passeio que fizeram a Friburgo. O fato é que os anos passavam e não nos reuniam.


    Então você chegou aqui. Pensei: “Vou vê-la? O pessoal já deve andar atrás dela, exigindo autógrafos e declarações – melhor deixá-la em paz”. Pois foi você quem me telefonou uma manhã: identifiquei logo sua voz, de “erres” carregados, que eu conhecia de ouvir contar. Ah, você nem imagina com que emoção aceitei o convite para almoçarmos juntas no dia seguinte. Caprichei no vestidinho verde e azul – que depois você elogiou com espontaneidade – e cheguei pontualmente ao hotel, pois você me recomendara com certa aflição que não me atrasasse. Que susto quando soube que você já havia saído, sem deixar recado. Foi um boy da portaria, que por acaso tinha visto você entrar no cabeleireiro da calçada em frente, que me salvou. Atravessei a rua e encontrei você lá, de terninho bege, esperando tranquilamente ser atendida. Você me abraçou com alegria: parecia a coisa mais natural do mundo eu te descobrir num lugar diferente do combinado. Como você insistisse em levar alguma encomenda minha para o Rio, e como o salão estava cheíssimo e você aparentemente iria demorar bastante, aproveitei para ir até a Harrods, buscar umas pastilhas de hortelã e chocolate, que o meu povinho adora. Quando voltei, 15 minutos depois, você já estava à minha espera, penteadíssima, enquanto Olga, seu anjo da guarda, pagava a conta. Não havia dúvida – concluí – que a lógica vulgar de todos nós nada tinha que ver com a sua, mágica por excelência.


    E as surpresas não terminaram aí, porque o almoço não foi num restaurante, como havíamos decidido na véspera, mas na casa de uma senhora argentina, praticamente desconhecida, que na noite anterior fora comprar um livro seu na Feira e ficara fascinada por você. Numa época em que aqui só se falava em sequestros, você, com a perfeita intuição de sempre, achou normalíssima a gentileza com que a moça nos levou de táxi a um apartamento de luxo, repleto de aços e acrílicos, onde um marido grego, que vendia tapetes, e uma gata siamesa, batizada Lou Salomé, nos aguardavam. Você adorou a bichinha, e contou que o seu cachorro, Ulisses, fumava muito. Que coincidência: há mil anos atrás, outro cão, de uma novelinha adolescente que cometi a imprudência de escrever, também se chamava Ulisses; e ainda tínhamos, cada uma, um filho de nome Pedro. Falar em filhos, e você retomou o tema que tanto te emocionava naquela tarde: o casamento do outro garoto, Paulo, acontecido poucos dias antes. Como você se iluminava toda ao descrever a festa em torno da piscina...


    O casal seguia suas palavras com tamanho interesse, que acabou entendendo o português, que você insistia em falar, e dispensando qualquer tradução. Como primeiro prato serviram uma quiche Lorraine, que você apreciou e repetiu, mas na hora da carne assada você pediu licença e saiu da mesa para descansar. Todos te seguimos sem estranheza, como se de repente o almoço tivesse terminado; fomos até o quarto e tomamos café sentados na cama gigantesca (a maior que já vi), coberta por uma colcha azul. Havia uma pombinha de cerâmica sobre a mesa de cabeceira; ao notar seu interesse pela peça, a dona da casa exultou: Te la regalo, e você agradeceu com ar sonhador.


    Saímos apressadas, porque você ainda tinha que gravar uma entrevista e receber vários repórteres. Já na rua, enquanto Olga procurava um táxi, você descobriu outra pomba, esta de verdade, pousada junto à porta do edifício. É tão frequente encontrar essas aves nas ruas da cidade, que nem me detive, mas você parou e olhou-a longamente, como se se tratasse de um milagre único e insubstituível. Senti que você estava vivendo um instante poético e não me aproximei, para não perturbar o silencioso diálogo. Você então me chamou, segurou-me pela mão, fitou-me seriamente e me pediu: “Quer me fazer um favor? Escreva uma história sobre esta pomba”. Concordei, meio sem jeito, com a secreta convicção que não manteria a palavra. Não sei inventar casos, como você; acho que, se pudesse, teria escrito, mas não deu.


    Depois você voltou para o Brasil, nós nos perdemos de vista e tudo continuou mais ou menos como antes. Só que de repente você partiu, e não pude nem me despedir. Já tem quase um mês: como é que passou depressa, hein? Você que nunca se perturbou com a mesquinha dimensão do nosso tempo, deve estar se divertindo com essa mania que a gente tem de fazer as coisas sempre na hora (in)certa. Fiquei com a sensação incômoda de não haver cumprido a promessa. Sei que você sempre pairou acima de tudo isso – e agora nem se fala – mas eu ainda estou, sempre estive presa às pequenas contingências. Deve ser por isso que aqui estou para te pedir desculpas por não haver escrito a história. E te dizer que estamos sentindo muito a sua falta, mas fique tranquila: seus livros nos fazem companhia. E para te mandar este beijo, Clarice, em forma de pomba.


(Coleção Melhores Crônicas: Maria Julieta Drummond de Andrade. Seleção e prefácio de Marcos Pasche, Global, 2012, pp. 45-48. Publicada no livro: Um buquê de alcachofras, 1980.)
Considere o verbo destacado em “Depois você voltou para o Brasil, nós nos perdemos de vista e tudo continuou mais ou menos como antes.” (6º§). É correto afirmar que o sujeito a que se refere pode ser adequadamente classificado como:
Alternativas
Q3484531 Português
O texto contextualiza a questão. Leia-o atentamente.


Em forma de pomba


    Talvez você ache esquisito eu estar te escrevendo hoje; talvez não: no fundo o surpreendente sempre foi habitual para você. Em todo caso, eu é que estou achando, pois nunca te escrevi antes, e só estivemos juntas uma vez. Lembra-se? Foi há quase dois anos, em abril de 76, quando você veio a Buenos Aires para o encerramento da Feira do Livro. Essas coisas: eu sempre admirando tanto você, lendo os seus livros, distribuindo os seus contos entre os meus alunos, e ao mesmo tempo com aquele receio de te conhecer, de você não corresponder à figura um pouco irreal que eu imaginava (às vezes, são os escritores cuja obra mais frequentamos os que mais nos decepcionam em carne e osso), de tomar o seu tempo, de você me achar muito professora de português, com mania de virgular direitinho e obedecer à sintaxe – o contrário do que você tão magnificamente sempre foi. Sei lá. E com tantos amigos em comum... Marly de Oliveira era uma que falava em você o tempo todo, estava sempre contando as conversas que tinham tido e um famoso passeio que fizeram a Friburgo. O fato é que os anos passavam e não nos reuniam.


    Então você chegou aqui. Pensei: “Vou vê-la? O pessoal já deve andar atrás dela, exigindo autógrafos e declarações – melhor deixá-la em paz”. Pois foi você quem me telefonou uma manhã: identifiquei logo sua voz, de “erres” carregados, que eu conhecia de ouvir contar. Ah, você nem imagina com que emoção aceitei o convite para almoçarmos juntas no dia seguinte. Caprichei no vestidinho verde e azul – que depois você elogiou com espontaneidade – e cheguei pontualmente ao hotel, pois você me recomendara com certa aflição que não me atrasasse. Que susto quando soube que você já havia saído, sem deixar recado. Foi um boy da portaria, que por acaso tinha visto você entrar no cabeleireiro da calçada em frente, que me salvou. Atravessei a rua e encontrei você lá, de terninho bege, esperando tranquilamente ser atendida. Você me abraçou com alegria: parecia a coisa mais natural do mundo eu te descobrir num lugar diferente do combinado. Como você insistisse em levar alguma encomenda minha para o Rio, e como o salão estava cheíssimo e você aparentemente iria demorar bastante, aproveitei para ir até a Harrods, buscar umas pastilhas de hortelã e chocolate, que o meu povinho adora. Quando voltei, 15 minutos depois, você já estava à minha espera, penteadíssima, enquanto Olga, seu anjo da guarda, pagava a conta. Não havia dúvida – concluí – que a lógica vulgar de todos nós nada tinha que ver com a sua, mágica por excelência.


    E as surpresas não terminaram aí, porque o almoço não foi num restaurante, como havíamos decidido na véspera, mas na casa de uma senhora argentina, praticamente desconhecida, que na noite anterior fora comprar um livro seu na Feira e ficara fascinada por você. Numa época em que aqui só se falava em sequestros, você, com a perfeita intuição de sempre, achou normalíssima a gentileza com que a moça nos levou de táxi a um apartamento de luxo, repleto de aços e acrílicos, onde um marido grego, que vendia tapetes, e uma gata siamesa, batizada Lou Salomé, nos aguardavam. Você adorou a bichinha, e contou que o seu cachorro, Ulisses, fumava muito. Que coincidência: há mil anos atrás, outro cão, de uma novelinha adolescente que cometi a imprudência de escrever, também se chamava Ulisses; e ainda tínhamos, cada uma, um filho de nome Pedro. Falar em filhos, e você retomou o tema que tanto te emocionava naquela tarde: o casamento do outro garoto, Paulo, acontecido poucos dias antes. Como você se iluminava toda ao descrever a festa em torno da piscina...


    O casal seguia suas palavras com tamanho interesse, que acabou entendendo o português, que você insistia em falar, e dispensando qualquer tradução. Como primeiro prato serviram uma quiche Lorraine, que você apreciou e repetiu, mas na hora da carne assada você pediu licença e saiu da mesa para descansar. Todos te seguimos sem estranheza, como se de repente o almoço tivesse terminado; fomos até o quarto e tomamos café sentados na cama gigantesca (a maior que já vi), coberta por uma colcha azul. Havia uma pombinha de cerâmica sobre a mesa de cabeceira; ao notar seu interesse pela peça, a dona da casa exultou: Te la regalo, e você agradeceu com ar sonhador.


    Saímos apressadas, porque você ainda tinha que gravar uma entrevista e receber vários repórteres. Já na rua, enquanto Olga procurava um táxi, você descobriu outra pomba, esta de verdade, pousada junto à porta do edifício. É tão frequente encontrar essas aves nas ruas da cidade, que nem me detive, mas você parou e olhou-a longamente, como se se tratasse de um milagre único e insubstituível. Senti que você estava vivendo um instante poético e não me aproximei, para não perturbar o silencioso diálogo. Você então me chamou, segurou-me pela mão, fitou-me seriamente e me pediu: “Quer me fazer um favor? Escreva uma história sobre esta pomba”. Concordei, meio sem jeito, com a secreta convicção que não manteria a palavra. Não sei inventar casos, como você; acho que, se pudesse, teria escrito, mas não deu.


    Depois você voltou para o Brasil, nós nos perdemos de vista e tudo continuou mais ou menos como antes. Só que de repente você partiu, e não pude nem me despedir. Já tem quase um mês: como é que passou depressa, hein? Você que nunca se perturbou com a mesquinha dimensão do nosso tempo, deve estar se divertindo com essa mania que a gente tem de fazer as coisas sempre na hora (in)certa. Fiquei com a sensação incômoda de não haver cumprido a promessa. Sei que você sempre pairou acima de tudo isso – e agora nem se fala – mas eu ainda estou, sempre estive presa às pequenas contingências. Deve ser por isso que aqui estou para te pedir desculpas por não haver escrito a história. E te dizer que estamos sentindo muito a sua falta, mas fique tranquila: seus livros nos fazem companhia. E para te mandar este beijo, Clarice, em forma de pomba.


(Coleção Melhores Crônicas: Maria Julieta Drummond de Andrade. Seleção e prefácio de Marcos Pasche, Global, 2012, pp. 45-48. Publicada no livro: Um buquê de alcachofras, 1980.)
Considere o verbo sublinhado na frase que dá início ao texto “Talvez você ache esquisito eu estar te escrevendo hoje; [...]” (1º§). A alternativa que dispõe sublinhado um verbo conjugado no mesmo modo se dá em:
Alternativas
Q3484530 Português
O texto contextualiza a questão. Leia-o atentamente.


Em forma de pomba


    Talvez você ache esquisito eu estar te escrevendo hoje; talvez não: no fundo o surpreendente sempre foi habitual para você. Em todo caso, eu é que estou achando, pois nunca te escrevi antes, e só estivemos juntas uma vez. Lembra-se? Foi há quase dois anos, em abril de 76, quando você veio a Buenos Aires para o encerramento da Feira do Livro. Essas coisas: eu sempre admirando tanto você, lendo os seus livros, distribuindo os seus contos entre os meus alunos, e ao mesmo tempo com aquele receio de te conhecer, de você não corresponder à figura um pouco irreal que eu imaginava (às vezes, são os escritores cuja obra mais frequentamos os que mais nos decepcionam em carne e osso), de tomar o seu tempo, de você me achar muito professora de português, com mania de virgular direitinho e obedecer à sintaxe – o contrário do que você tão magnificamente sempre foi. Sei lá. E com tantos amigos em comum... Marly de Oliveira era uma que falava em você o tempo todo, estava sempre contando as conversas que tinham tido e um famoso passeio que fizeram a Friburgo. O fato é que os anos passavam e não nos reuniam.


    Então você chegou aqui. Pensei: “Vou vê-la? O pessoal já deve andar atrás dela, exigindo autógrafos e declarações – melhor deixá-la em paz”. Pois foi você quem me telefonou uma manhã: identifiquei logo sua voz, de “erres” carregados, que eu conhecia de ouvir contar. Ah, você nem imagina com que emoção aceitei o convite para almoçarmos juntas no dia seguinte. Caprichei no vestidinho verde e azul – que depois você elogiou com espontaneidade – e cheguei pontualmente ao hotel, pois você me recomendara com certa aflição que não me atrasasse. Que susto quando soube que você já havia saído, sem deixar recado. Foi um boy da portaria, que por acaso tinha visto você entrar no cabeleireiro da calçada em frente, que me salvou. Atravessei a rua e encontrei você lá, de terninho bege, esperando tranquilamente ser atendida. Você me abraçou com alegria: parecia a coisa mais natural do mundo eu te descobrir num lugar diferente do combinado. Como você insistisse em levar alguma encomenda minha para o Rio, e como o salão estava cheíssimo e você aparentemente iria demorar bastante, aproveitei para ir até a Harrods, buscar umas pastilhas de hortelã e chocolate, que o meu povinho adora. Quando voltei, 15 minutos depois, você já estava à minha espera, penteadíssima, enquanto Olga, seu anjo da guarda, pagava a conta. Não havia dúvida – concluí – que a lógica vulgar de todos nós nada tinha que ver com a sua, mágica por excelência.


    E as surpresas não terminaram aí, porque o almoço não foi num restaurante, como havíamos decidido na véspera, mas na casa de uma senhora argentina, praticamente desconhecida, que na noite anterior fora comprar um livro seu na Feira e ficara fascinada por você. Numa época em que aqui só se falava em sequestros, você, com a perfeita intuição de sempre, achou normalíssima a gentileza com que a moça nos levou de táxi a um apartamento de luxo, repleto de aços e acrílicos, onde um marido grego, que vendia tapetes, e uma gata siamesa, batizada Lou Salomé, nos aguardavam. Você adorou a bichinha, e contou que o seu cachorro, Ulisses, fumava muito. Que coincidência: há mil anos atrás, outro cão, de uma novelinha adolescente que cometi a imprudência de escrever, também se chamava Ulisses; e ainda tínhamos, cada uma, um filho de nome Pedro. Falar em filhos, e você retomou o tema que tanto te emocionava naquela tarde: o casamento do outro garoto, Paulo, acontecido poucos dias antes. Como você se iluminava toda ao descrever a festa em torno da piscina...


    O casal seguia suas palavras com tamanho interesse, que acabou entendendo o português, que você insistia em falar, e dispensando qualquer tradução. Como primeiro prato serviram uma quiche Lorraine, que você apreciou e repetiu, mas na hora da carne assada você pediu licença e saiu da mesa para descansar. Todos te seguimos sem estranheza, como se de repente o almoço tivesse terminado; fomos até o quarto e tomamos café sentados na cama gigantesca (a maior que já vi), coberta por uma colcha azul. Havia uma pombinha de cerâmica sobre a mesa de cabeceira; ao notar seu interesse pela peça, a dona da casa exultou: Te la regalo, e você agradeceu com ar sonhador.


    Saímos apressadas, porque você ainda tinha que gravar uma entrevista e receber vários repórteres. Já na rua, enquanto Olga procurava um táxi, você descobriu outra pomba, esta de verdade, pousada junto à porta do edifício. É tão frequente encontrar essas aves nas ruas da cidade, que nem me detive, mas você parou e olhou-a longamente, como se se tratasse de um milagre único e insubstituível. Senti que você estava vivendo um instante poético e não me aproximei, para não perturbar o silencioso diálogo. Você então me chamou, segurou-me pela mão, fitou-me seriamente e me pediu: “Quer me fazer um favor? Escreva uma história sobre esta pomba”. Concordei, meio sem jeito, com a secreta convicção que não manteria a palavra. Não sei inventar casos, como você; acho que, se pudesse, teria escrito, mas não deu.


    Depois você voltou para o Brasil, nós nos perdemos de vista e tudo continuou mais ou menos como antes. Só que de repente você partiu, e não pude nem me despedir. Já tem quase um mês: como é que passou depressa, hein? Você que nunca se perturbou com a mesquinha dimensão do nosso tempo, deve estar se divertindo com essa mania que a gente tem de fazer as coisas sempre na hora (in)certa. Fiquei com a sensação incômoda de não haver cumprido a promessa. Sei que você sempre pairou acima de tudo isso – e agora nem se fala – mas eu ainda estou, sempre estive presa às pequenas contingências. Deve ser por isso que aqui estou para te pedir desculpas por não haver escrito a história. E te dizer que estamos sentindo muito a sua falta, mas fique tranquila: seus livros nos fazem companhia. E para te mandar este beijo, Clarice, em forma de pomba.


(Coleção Melhores Crônicas: Maria Julieta Drummond de Andrade. Seleção e prefácio de Marcos Pasche, Global, 2012, pp. 45-48. Publicada no livro: Um buquê de alcachofras, 1980.)
Dispõem-se, nas alternativas a seguir, duplas de termos sublinhados em reproduções de trechos do texto. Assinale a afirmativa cuja dupla de termos sublinhados recebe simultaneamente a mesma classificação quanto ao número de sílabas e à disposição de sílaba tônica: 
Alternativas
Q3484529 Português
O texto contextualiza a questão. Leia-o atentamente.


Em forma de pomba


    Talvez você ache esquisito eu estar te escrevendo hoje; talvez não: no fundo o surpreendente sempre foi habitual para você. Em todo caso, eu é que estou achando, pois nunca te escrevi antes, e só estivemos juntas uma vez. Lembra-se? Foi há quase dois anos, em abril de 76, quando você veio a Buenos Aires para o encerramento da Feira do Livro. Essas coisas: eu sempre admirando tanto você, lendo os seus livros, distribuindo os seus contos entre os meus alunos, e ao mesmo tempo com aquele receio de te conhecer, de você não corresponder à figura um pouco irreal que eu imaginava (às vezes, são os escritores cuja obra mais frequentamos os que mais nos decepcionam em carne e osso), de tomar o seu tempo, de você me achar muito professora de português, com mania de virgular direitinho e obedecer à sintaxe – o contrário do que você tão magnificamente sempre foi. Sei lá. E com tantos amigos em comum... Marly de Oliveira era uma que falava em você o tempo todo, estava sempre contando as conversas que tinham tido e um famoso passeio que fizeram a Friburgo. O fato é que os anos passavam e não nos reuniam.


    Então você chegou aqui. Pensei: “Vou vê-la? O pessoal já deve andar atrás dela, exigindo autógrafos e declarações – melhor deixá-la em paz”. Pois foi você quem me telefonou uma manhã: identifiquei logo sua voz, de “erres” carregados, que eu conhecia de ouvir contar. Ah, você nem imagina com que emoção aceitei o convite para almoçarmos juntas no dia seguinte. Caprichei no vestidinho verde e azul – que depois você elogiou com espontaneidade – e cheguei pontualmente ao hotel, pois você me recomendara com certa aflição que não me atrasasse. Que susto quando soube que você já havia saído, sem deixar recado. Foi um boy da portaria, que por acaso tinha visto você entrar no cabeleireiro da calçada em frente, que me salvou. Atravessei a rua e encontrei você lá, de terninho bege, esperando tranquilamente ser atendida. Você me abraçou com alegria: parecia a coisa mais natural do mundo eu te descobrir num lugar diferente do combinado. Como você insistisse em levar alguma encomenda minha para o Rio, e como o salão estava cheíssimo e você aparentemente iria demorar bastante, aproveitei para ir até a Harrods, buscar umas pastilhas de hortelã e chocolate, que o meu povinho adora. Quando voltei, 15 minutos depois, você já estava à minha espera, penteadíssima, enquanto Olga, seu anjo da guarda, pagava a conta. Não havia dúvida – concluí – que a lógica vulgar de todos nós nada tinha que ver com a sua, mágica por excelência.


    E as surpresas não terminaram aí, porque o almoço não foi num restaurante, como havíamos decidido na véspera, mas na casa de uma senhora argentina, praticamente desconhecida, que na noite anterior fora comprar um livro seu na Feira e ficara fascinada por você. Numa época em que aqui só se falava em sequestros, você, com a perfeita intuição de sempre, achou normalíssima a gentileza com que a moça nos levou de táxi a um apartamento de luxo, repleto de aços e acrílicos, onde um marido grego, que vendia tapetes, e uma gata siamesa, batizada Lou Salomé, nos aguardavam. Você adorou a bichinha, e contou que o seu cachorro, Ulisses, fumava muito. Que coincidência: há mil anos atrás, outro cão, de uma novelinha adolescente que cometi a imprudência de escrever, também se chamava Ulisses; e ainda tínhamos, cada uma, um filho de nome Pedro. Falar em filhos, e você retomou o tema que tanto te emocionava naquela tarde: o casamento do outro garoto, Paulo, acontecido poucos dias antes. Como você se iluminava toda ao descrever a festa em torno da piscina...


    O casal seguia suas palavras com tamanho interesse, que acabou entendendo o português, que você insistia em falar, e dispensando qualquer tradução. Como primeiro prato serviram uma quiche Lorraine, que você apreciou e repetiu, mas na hora da carne assada você pediu licença e saiu da mesa para descansar. Todos te seguimos sem estranheza, como se de repente o almoço tivesse terminado; fomos até o quarto e tomamos café sentados na cama gigantesca (a maior que já vi), coberta por uma colcha azul. Havia uma pombinha de cerâmica sobre a mesa de cabeceira; ao notar seu interesse pela peça, a dona da casa exultou: Te la regalo, e você agradeceu com ar sonhador.


    Saímos apressadas, porque você ainda tinha que gravar uma entrevista e receber vários repórteres. Já na rua, enquanto Olga procurava um táxi, você descobriu outra pomba, esta de verdade, pousada junto à porta do edifício. É tão frequente encontrar essas aves nas ruas da cidade, que nem me detive, mas você parou e olhou-a longamente, como se se tratasse de um milagre único e insubstituível. Senti que você estava vivendo um instante poético e não me aproximei, para não perturbar o silencioso diálogo. Você então me chamou, segurou-me pela mão, fitou-me seriamente e me pediu: “Quer me fazer um favor? Escreva uma história sobre esta pomba”. Concordei, meio sem jeito, com a secreta convicção que não manteria a palavra. Não sei inventar casos, como você; acho que, se pudesse, teria escrito, mas não deu.


    Depois você voltou para o Brasil, nós nos perdemos de vista e tudo continuou mais ou menos como antes. Só que de repente você partiu, e não pude nem me despedir. Já tem quase um mês: como é que passou depressa, hein? Você que nunca se perturbou com a mesquinha dimensão do nosso tempo, deve estar se divertindo com essa mania que a gente tem de fazer as coisas sempre na hora (in)certa. Fiquei com a sensação incômoda de não haver cumprido a promessa. Sei que você sempre pairou acima de tudo isso – e agora nem se fala – mas eu ainda estou, sempre estive presa às pequenas contingências. Deve ser por isso que aqui estou para te pedir desculpas por não haver escrito a história. E te dizer que estamos sentindo muito a sua falta, mas fique tranquila: seus livros nos fazem companhia. E para te mandar este beijo, Clarice, em forma de pomba.


(Coleção Melhores Crônicas: Maria Julieta Drummond de Andrade. Seleção e prefácio de Marcos Pasche, Global, 2012, pp. 45-48. Publicada no livro: Um buquê de alcachofras, 1980.)
Considere as duplas de termos sublinhados nas reproduções a seguir de trechos do texto e assinale a afirmativa em que ambos os termos se acentuam pela mesma razão.
Alternativas
Q3484528 Português
O texto contextualiza a questão. Leia-o atentamente.


Em forma de pomba


    Talvez você ache esquisito eu estar te escrevendo hoje; talvez não: no fundo o surpreendente sempre foi habitual para você. Em todo caso, eu é que estou achando, pois nunca te escrevi antes, e só estivemos juntas uma vez. Lembra-se? Foi há quase dois anos, em abril de 76, quando você veio a Buenos Aires para o encerramento da Feira do Livro. Essas coisas: eu sempre admirando tanto você, lendo os seus livros, distribuindo os seus contos entre os meus alunos, e ao mesmo tempo com aquele receio de te conhecer, de você não corresponder à figura um pouco irreal que eu imaginava (às vezes, são os escritores cuja obra mais frequentamos os que mais nos decepcionam em carne e osso), de tomar o seu tempo, de você me achar muito professora de português, com mania de virgular direitinho e obedecer à sintaxe – o contrário do que você tão magnificamente sempre foi. Sei lá. E com tantos amigos em comum... Marly de Oliveira era uma que falava em você o tempo todo, estava sempre contando as conversas que tinham tido e um famoso passeio que fizeram a Friburgo. O fato é que os anos passavam e não nos reuniam.


    Então você chegou aqui. Pensei: “Vou vê-la? O pessoal já deve andar atrás dela, exigindo autógrafos e declarações – melhor deixá-la em paz”. Pois foi você quem me telefonou uma manhã: identifiquei logo sua voz, de “erres” carregados, que eu conhecia de ouvir contar. Ah, você nem imagina com que emoção aceitei o convite para almoçarmos juntas no dia seguinte. Caprichei no vestidinho verde e azul – que depois você elogiou com espontaneidade – e cheguei pontualmente ao hotel, pois você me recomendara com certa aflição que não me atrasasse. Que susto quando soube que você já havia saído, sem deixar recado. Foi um boy da portaria, que por acaso tinha visto você entrar no cabeleireiro da calçada em frente, que me salvou. Atravessei a rua e encontrei você lá, de terninho bege, esperando tranquilamente ser atendida. Você me abraçou com alegria: parecia a coisa mais natural do mundo eu te descobrir num lugar diferente do combinado. Como você insistisse em levar alguma encomenda minha para o Rio, e como o salão estava cheíssimo e você aparentemente iria demorar bastante, aproveitei para ir até a Harrods, buscar umas pastilhas de hortelã e chocolate, que o meu povinho adora. Quando voltei, 15 minutos depois, você já estava à minha espera, penteadíssima, enquanto Olga, seu anjo da guarda, pagava a conta. Não havia dúvida – concluí – que a lógica vulgar de todos nós nada tinha que ver com a sua, mágica por excelência.


    E as surpresas não terminaram aí, porque o almoço não foi num restaurante, como havíamos decidido na véspera, mas na casa de uma senhora argentina, praticamente desconhecida, que na noite anterior fora comprar um livro seu na Feira e ficara fascinada por você. Numa época em que aqui só se falava em sequestros, você, com a perfeita intuição de sempre, achou normalíssima a gentileza com que a moça nos levou de táxi a um apartamento de luxo, repleto de aços e acrílicos, onde um marido grego, que vendia tapetes, e uma gata siamesa, batizada Lou Salomé, nos aguardavam. Você adorou a bichinha, e contou que o seu cachorro, Ulisses, fumava muito. Que coincidência: há mil anos atrás, outro cão, de uma novelinha adolescente que cometi a imprudência de escrever, também se chamava Ulisses; e ainda tínhamos, cada uma, um filho de nome Pedro. Falar em filhos, e você retomou o tema que tanto te emocionava naquela tarde: o casamento do outro garoto, Paulo, acontecido poucos dias antes. Como você se iluminava toda ao descrever a festa em torno da piscina...


    O casal seguia suas palavras com tamanho interesse, que acabou entendendo o português, que você insistia em falar, e dispensando qualquer tradução. Como primeiro prato serviram uma quiche Lorraine, que você apreciou e repetiu, mas na hora da carne assada você pediu licença e saiu da mesa para descansar. Todos te seguimos sem estranheza, como se de repente o almoço tivesse terminado; fomos até o quarto e tomamos café sentados na cama gigantesca (a maior que já vi), coberta por uma colcha azul. Havia uma pombinha de cerâmica sobre a mesa de cabeceira; ao notar seu interesse pela peça, a dona da casa exultou: Te la regalo, e você agradeceu com ar sonhador.


    Saímos apressadas, porque você ainda tinha que gravar uma entrevista e receber vários repórteres. Já na rua, enquanto Olga procurava um táxi, você descobriu outra pomba, esta de verdade, pousada junto à porta do edifício. É tão frequente encontrar essas aves nas ruas da cidade, que nem me detive, mas você parou e olhou-a longamente, como se se tratasse de um milagre único e insubstituível. Senti que você estava vivendo um instante poético e não me aproximei, para não perturbar o silencioso diálogo. Você então me chamou, segurou-me pela mão, fitou-me seriamente e me pediu: “Quer me fazer um favor? Escreva uma história sobre esta pomba”. Concordei, meio sem jeito, com a secreta convicção que não manteria a palavra. Não sei inventar casos, como você; acho que, se pudesse, teria escrito, mas não deu.


    Depois você voltou para o Brasil, nós nos perdemos de vista e tudo continuou mais ou menos como antes. Só que de repente você partiu, e não pude nem me despedir. Já tem quase um mês: como é que passou depressa, hein? Você que nunca se perturbou com a mesquinha dimensão do nosso tempo, deve estar se divertindo com essa mania que a gente tem de fazer as coisas sempre na hora (in)certa. Fiquei com a sensação incômoda de não haver cumprido a promessa. Sei que você sempre pairou acima de tudo isso – e agora nem se fala – mas eu ainda estou, sempre estive presa às pequenas contingências. Deve ser por isso que aqui estou para te pedir desculpas por não haver escrito a história. E te dizer que estamos sentindo muito a sua falta, mas fique tranquila: seus livros nos fazem companhia. E para te mandar este beijo, Clarice, em forma de pomba.


(Coleção Melhores Crônicas: Maria Julieta Drummond de Andrade. Seleção e prefácio de Marcos Pasche, Global, 2012, pp. 45-48. Publicada no livro: Um buquê de alcachofras, 1980.)
Considere o termo sublinhado em “Que coincidência: há mil anos atrás, outro cão, de uma novelinha adolescente que cometi a imprudência de escrever, também se chamava Ulisses; [...]” (3º§). É correto afirmar que sua acentuação se deu pela mesma razão que o termo sublinhado em:
Alternativas
Q3484527 Português
O texto contextualiza a questão. Leia-o atentamente.


Em forma de pomba


    Talvez você ache esquisito eu estar te escrevendo hoje; talvez não: no fundo o surpreendente sempre foi habitual para você. Em todo caso, eu é que estou achando, pois nunca te escrevi antes, e só estivemos juntas uma vez. Lembra-se? Foi há quase dois anos, em abril de 76, quando você veio a Buenos Aires para o encerramento da Feira do Livro. Essas coisas: eu sempre admirando tanto você, lendo os seus livros, distribuindo os seus contos entre os meus alunos, e ao mesmo tempo com aquele receio de te conhecer, de você não corresponder à figura um pouco irreal que eu imaginava (às vezes, são os escritores cuja obra mais frequentamos os que mais nos decepcionam em carne e osso), de tomar o seu tempo, de você me achar muito professora de português, com mania de virgular direitinho e obedecer à sintaxe – o contrário do que você tão magnificamente sempre foi. Sei lá. E com tantos amigos em comum... Marly de Oliveira era uma que falava em você o tempo todo, estava sempre contando as conversas que tinham tido e um famoso passeio que fizeram a Friburgo. O fato é que os anos passavam e não nos reuniam.


    Então você chegou aqui. Pensei: “Vou vê-la? O pessoal já deve andar atrás dela, exigindo autógrafos e declarações – melhor deixá-la em paz”. Pois foi você quem me telefonou uma manhã: identifiquei logo sua voz, de “erres” carregados, que eu conhecia de ouvir contar. Ah, você nem imagina com que emoção aceitei o convite para almoçarmos juntas no dia seguinte. Caprichei no vestidinho verde e azul – que depois você elogiou com espontaneidade – e cheguei pontualmente ao hotel, pois você me recomendara com certa aflição que não me atrasasse. Que susto quando soube que você já havia saído, sem deixar recado. Foi um boy da portaria, que por acaso tinha visto você entrar no cabeleireiro da calçada em frente, que me salvou. Atravessei a rua e encontrei você lá, de terninho bege, esperando tranquilamente ser atendida. Você me abraçou com alegria: parecia a coisa mais natural do mundo eu te descobrir num lugar diferente do combinado. Como você insistisse em levar alguma encomenda minha para o Rio, e como o salão estava cheíssimo e você aparentemente iria demorar bastante, aproveitei para ir até a Harrods, buscar umas pastilhas de hortelã e chocolate, que o meu povinho adora. Quando voltei, 15 minutos depois, você já estava à minha espera, penteadíssima, enquanto Olga, seu anjo da guarda, pagava a conta. Não havia dúvida – concluí – que a lógica vulgar de todos nós nada tinha que ver com a sua, mágica por excelência.


    E as surpresas não terminaram aí, porque o almoço não foi num restaurante, como havíamos decidido na véspera, mas na casa de uma senhora argentina, praticamente desconhecida, que na noite anterior fora comprar um livro seu na Feira e ficara fascinada por você. Numa época em que aqui só se falava em sequestros, você, com a perfeita intuição de sempre, achou normalíssima a gentileza com que a moça nos levou de táxi a um apartamento de luxo, repleto de aços e acrílicos, onde um marido grego, que vendia tapetes, e uma gata siamesa, batizada Lou Salomé, nos aguardavam. Você adorou a bichinha, e contou que o seu cachorro, Ulisses, fumava muito. Que coincidência: há mil anos atrás, outro cão, de uma novelinha adolescente que cometi a imprudência de escrever, também se chamava Ulisses; e ainda tínhamos, cada uma, um filho de nome Pedro. Falar em filhos, e você retomou o tema que tanto te emocionava naquela tarde: o casamento do outro garoto, Paulo, acontecido poucos dias antes. Como você se iluminava toda ao descrever a festa em torno da piscina...


    O casal seguia suas palavras com tamanho interesse, que acabou entendendo o português, que você insistia em falar, e dispensando qualquer tradução. Como primeiro prato serviram uma quiche Lorraine, que você apreciou e repetiu, mas na hora da carne assada você pediu licença e saiu da mesa para descansar. Todos te seguimos sem estranheza, como se de repente o almoço tivesse terminado; fomos até o quarto e tomamos café sentados na cama gigantesca (a maior que já vi), coberta por uma colcha azul. Havia uma pombinha de cerâmica sobre a mesa de cabeceira; ao notar seu interesse pela peça, a dona da casa exultou: Te la regalo, e você agradeceu com ar sonhador.


    Saímos apressadas, porque você ainda tinha que gravar uma entrevista e receber vários repórteres. Já na rua, enquanto Olga procurava um táxi, você descobriu outra pomba, esta de verdade, pousada junto à porta do edifício. É tão frequente encontrar essas aves nas ruas da cidade, que nem me detive, mas você parou e olhou-a longamente, como se se tratasse de um milagre único e insubstituível. Senti que você estava vivendo um instante poético e não me aproximei, para não perturbar o silencioso diálogo. Você então me chamou, segurou-me pela mão, fitou-me seriamente e me pediu: “Quer me fazer um favor? Escreva uma história sobre esta pomba”. Concordei, meio sem jeito, com a secreta convicção que não manteria a palavra. Não sei inventar casos, como você; acho que, se pudesse, teria escrito, mas não deu.


    Depois você voltou para o Brasil, nós nos perdemos de vista e tudo continuou mais ou menos como antes. Só que de repente você partiu, e não pude nem me despedir. Já tem quase um mês: como é que passou depressa, hein? Você que nunca se perturbou com a mesquinha dimensão do nosso tempo, deve estar se divertindo com essa mania que a gente tem de fazer as coisas sempre na hora (in)certa. Fiquei com a sensação incômoda de não haver cumprido a promessa. Sei que você sempre pairou acima de tudo isso – e agora nem se fala – mas eu ainda estou, sempre estive presa às pequenas contingências. Deve ser por isso que aqui estou para te pedir desculpas por não haver escrito a história. E te dizer que estamos sentindo muito a sua falta, mas fique tranquila: seus livros nos fazem companhia. E para te mandar este beijo, Clarice, em forma de pomba.


(Coleção Melhores Crônicas: Maria Julieta Drummond de Andrade. Seleção e prefácio de Marcos Pasche, Global, 2012, pp. 45-48. Publicada no livro: Um buquê de alcachofras, 1980.)
Considere o trecho “Quando voltei, 15 minutos depois, você já estava à minha espera, penteadíssima, enquanto Olga, seu anjo da guarda, pagava a conta.” (2º§). É correto afirmar que as duas últimas vírgulas se deram para demarcar um(a):
Alternativas
Q3484526 Português
O texto contextualiza a questão. Leia-o atentamente.


Em forma de pomba


    Talvez você ache esquisito eu estar te escrevendo hoje; talvez não: no fundo o surpreendente sempre foi habitual para você. Em todo caso, eu é que estou achando, pois nunca te escrevi antes, e só estivemos juntas uma vez. Lembra-se? Foi há quase dois anos, em abril de 76, quando você veio a Buenos Aires para o encerramento da Feira do Livro. Essas coisas: eu sempre admirando tanto você, lendo os seus livros, distribuindo os seus contos entre os meus alunos, e ao mesmo tempo com aquele receio de te conhecer, de você não corresponder à figura um pouco irreal que eu imaginava (às vezes, são os escritores cuja obra mais frequentamos os que mais nos decepcionam em carne e osso), de tomar o seu tempo, de você me achar muito professora de português, com mania de virgular direitinho e obedecer à sintaxe – o contrário do que você tão magnificamente sempre foi. Sei lá. E com tantos amigos em comum... Marly de Oliveira era uma que falava em você o tempo todo, estava sempre contando as conversas que tinham tido e um famoso passeio que fizeram a Friburgo. O fato é que os anos passavam e não nos reuniam.


    Então você chegou aqui. Pensei: “Vou vê-la? O pessoal já deve andar atrás dela, exigindo autógrafos e declarações – melhor deixá-la em paz”. Pois foi você quem me telefonou uma manhã: identifiquei logo sua voz, de “erres” carregados, que eu conhecia de ouvir contar. Ah, você nem imagina com que emoção aceitei o convite para almoçarmos juntas no dia seguinte. Caprichei no vestidinho verde e azul – que depois você elogiou com espontaneidade – e cheguei pontualmente ao hotel, pois você me recomendara com certa aflição que não me atrasasse. Que susto quando soube que você já havia saído, sem deixar recado. Foi um boy da portaria, que por acaso tinha visto você entrar no cabeleireiro da calçada em frente, que me salvou. Atravessei a rua e encontrei você lá, de terninho bege, esperando tranquilamente ser atendida. Você me abraçou com alegria: parecia a coisa mais natural do mundo eu te descobrir num lugar diferente do combinado. Como você insistisse em levar alguma encomenda minha para o Rio, e como o salão estava cheíssimo e você aparentemente iria demorar bastante, aproveitei para ir até a Harrods, buscar umas pastilhas de hortelã e chocolate, que o meu povinho adora. Quando voltei, 15 minutos depois, você já estava à minha espera, penteadíssima, enquanto Olga, seu anjo da guarda, pagava a conta. Não havia dúvida – concluí – que a lógica vulgar de todos nós nada tinha que ver com a sua, mágica por excelência.


    E as surpresas não terminaram aí, porque o almoço não foi num restaurante, como havíamos decidido na véspera, mas na casa de uma senhora argentina, praticamente desconhecida, que na noite anterior fora comprar um livro seu na Feira e ficara fascinada por você. Numa época em que aqui só se falava em sequestros, você, com a perfeita intuição de sempre, achou normalíssima a gentileza com que a moça nos levou de táxi a um apartamento de luxo, repleto de aços e acrílicos, onde um marido grego, que vendia tapetes, e uma gata siamesa, batizada Lou Salomé, nos aguardavam. Você adorou a bichinha, e contou que o seu cachorro, Ulisses, fumava muito. Que coincidência: há mil anos atrás, outro cão, de uma novelinha adolescente que cometi a imprudência de escrever, também se chamava Ulisses; e ainda tínhamos, cada uma, um filho de nome Pedro. Falar em filhos, e você retomou o tema que tanto te emocionava naquela tarde: o casamento do outro garoto, Paulo, acontecido poucos dias antes. Como você se iluminava toda ao descrever a festa em torno da piscina...


    O casal seguia suas palavras com tamanho interesse, que acabou entendendo o português, que você insistia em falar, e dispensando qualquer tradução. Como primeiro prato serviram uma quiche Lorraine, que você apreciou e repetiu, mas na hora da carne assada você pediu licença e saiu da mesa para descansar. Todos te seguimos sem estranheza, como se de repente o almoço tivesse terminado; fomos até o quarto e tomamos café sentados na cama gigantesca (a maior que já vi), coberta por uma colcha azul. Havia uma pombinha de cerâmica sobre a mesa de cabeceira; ao notar seu interesse pela peça, a dona da casa exultou: Te la regalo, e você agradeceu com ar sonhador.


    Saímos apressadas, porque você ainda tinha que gravar uma entrevista e receber vários repórteres. Já na rua, enquanto Olga procurava um táxi, você descobriu outra pomba, esta de verdade, pousada junto à porta do edifício. É tão frequente encontrar essas aves nas ruas da cidade, que nem me detive, mas você parou e olhou-a longamente, como se se tratasse de um milagre único e insubstituível. Senti que você estava vivendo um instante poético e não me aproximei, para não perturbar o silencioso diálogo. Você então me chamou, segurou-me pela mão, fitou-me seriamente e me pediu: “Quer me fazer um favor? Escreva uma história sobre esta pomba”. Concordei, meio sem jeito, com a secreta convicção que não manteria a palavra. Não sei inventar casos, como você; acho que, se pudesse, teria escrito, mas não deu.


    Depois você voltou para o Brasil, nós nos perdemos de vista e tudo continuou mais ou menos como antes. Só que de repente você partiu, e não pude nem me despedir. Já tem quase um mês: como é que passou depressa, hein? Você que nunca se perturbou com a mesquinha dimensão do nosso tempo, deve estar se divertindo com essa mania que a gente tem de fazer as coisas sempre na hora (in)certa. Fiquei com a sensação incômoda de não haver cumprido a promessa. Sei que você sempre pairou acima de tudo isso – e agora nem se fala – mas eu ainda estou, sempre estive presa às pequenas contingências. Deve ser por isso que aqui estou para te pedir desculpas por não haver escrito a história. E te dizer que estamos sentindo muito a sua falta, mas fique tranquila: seus livros nos fazem companhia. E para te mandar este beijo, Clarice, em forma de pomba.


(Coleção Melhores Crônicas: Maria Julieta Drummond de Andrade. Seleção e prefácio de Marcos Pasche, Global, 2012, pp. 45-48. Publicada no livro: Um buquê de alcachofras, 1980.)
Considere o verbo sublinhado no trecho “Pois foi você quem me telefonou uma manhã: identifiquei logo sua voz, de ‘erres’ carregados, que eu conhecia de ouvir contar” (2º§). Pode-se afirmar que se tem sublinhado um verbo se referindo a um sujeito de mesma classificação em:
Alternativas
Q3484525 Português
O texto contextualiza a questão. Leia-o atentamente.


Em forma de pomba


    Talvez você ache esquisito eu estar te escrevendo hoje; talvez não: no fundo o surpreendente sempre foi habitual para você. Em todo caso, eu é que estou achando, pois nunca te escrevi antes, e só estivemos juntas uma vez. Lembra-se? Foi há quase dois anos, em abril de 76, quando você veio a Buenos Aires para o encerramento da Feira do Livro. Essas coisas: eu sempre admirando tanto você, lendo os seus livros, distribuindo os seus contos entre os meus alunos, e ao mesmo tempo com aquele receio de te conhecer, de você não corresponder à figura um pouco irreal que eu imaginava (às vezes, são os escritores cuja obra mais frequentamos os que mais nos decepcionam em carne e osso), de tomar o seu tempo, de você me achar muito professora de português, com mania de virgular direitinho e obedecer à sintaxe – o contrário do que você tão magnificamente sempre foi. Sei lá. E com tantos amigos em comum... Marly de Oliveira era uma que falava em você o tempo todo, estava sempre contando as conversas que tinham tido e um famoso passeio que fizeram a Friburgo. O fato é que os anos passavam e não nos reuniam.


    Então você chegou aqui. Pensei: “Vou vê-la? O pessoal já deve andar atrás dela, exigindo autógrafos e declarações – melhor deixá-la em paz”. Pois foi você quem me telefonou uma manhã: identifiquei logo sua voz, de “erres” carregados, que eu conhecia de ouvir contar. Ah, você nem imagina com que emoção aceitei o convite para almoçarmos juntas no dia seguinte. Caprichei no vestidinho verde e azul – que depois você elogiou com espontaneidade – e cheguei pontualmente ao hotel, pois você me recomendara com certa aflição que não me atrasasse. Que susto quando soube que você já havia saído, sem deixar recado. Foi um boy da portaria, que por acaso tinha visto você entrar no cabeleireiro da calçada em frente, que me salvou. Atravessei a rua e encontrei você lá, de terninho bege, esperando tranquilamente ser atendida. Você me abraçou com alegria: parecia a coisa mais natural do mundo eu te descobrir num lugar diferente do combinado. Como você insistisse em levar alguma encomenda minha para o Rio, e como o salão estava cheíssimo e você aparentemente iria demorar bastante, aproveitei para ir até a Harrods, buscar umas pastilhas de hortelã e chocolate, que o meu povinho adora. Quando voltei, 15 minutos depois, você já estava à minha espera, penteadíssima, enquanto Olga, seu anjo da guarda, pagava a conta. Não havia dúvida – concluí – que a lógica vulgar de todos nós nada tinha que ver com a sua, mágica por excelência.


    E as surpresas não terminaram aí, porque o almoço não foi num restaurante, como havíamos decidido na véspera, mas na casa de uma senhora argentina, praticamente desconhecida, que na noite anterior fora comprar um livro seu na Feira e ficara fascinada por você. Numa época em que aqui só se falava em sequestros, você, com a perfeita intuição de sempre, achou normalíssima a gentileza com que a moça nos levou de táxi a um apartamento de luxo, repleto de aços e acrílicos, onde um marido grego, que vendia tapetes, e uma gata siamesa, batizada Lou Salomé, nos aguardavam. Você adorou a bichinha, e contou que o seu cachorro, Ulisses, fumava muito. Que coincidência: há mil anos atrás, outro cão, de uma novelinha adolescente que cometi a imprudência de escrever, também se chamava Ulisses; e ainda tínhamos, cada uma, um filho de nome Pedro. Falar em filhos, e você retomou o tema que tanto te emocionava naquela tarde: o casamento do outro garoto, Paulo, acontecido poucos dias antes. Como você se iluminava toda ao descrever a festa em torno da piscina...


    O casal seguia suas palavras com tamanho interesse, que acabou entendendo o português, que você insistia em falar, e dispensando qualquer tradução. Como primeiro prato serviram uma quiche Lorraine, que você apreciou e repetiu, mas na hora da carne assada você pediu licença e saiu da mesa para descansar. Todos te seguimos sem estranheza, como se de repente o almoço tivesse terminado; fomos até o quarto e tomamos café sentados na cama gigantesca (a maior que já vi), coberta por uma colcha azul. Havia uma pombinha de cerâmica sobre a mesa de cabeceira; ao notar seu interesse pela peça, a dona da casa exultou: Te la regalo, e você agradeceu com ar sonhador.


    Saímos apressadas, porque você ainda tinha que gravar uma entrevista e receber vários repórteres. Já na rua, enquanto Olga procurava um táxi, você descobriu outra pomba, esta de verdade, pousada junto à porta do edifício. É tão frequente encontrar essas aves nas ruas da cidade, que nem me detive, mas você parou e olhou-a longamente, como se se tratasse de um milagre único e insubstituível. Senti que você estava vivendo um instante poético e não me aproximei, para não perturbar o silencioso diálogo. Você então me chamou, segurou-me pela mão, fitou-me seriamente e me pediu: “Quer me fazer um favor? Escreva uma história sobre esta pomba”. Concordei, meio sem jeito, com a secreta convicção que não manteria a palavra. Não sei inventar casos, como você; acho que, se pudesse, teria escrito, mas não deu.


    Depois você voltou para o Brasil, nós nos perdemos de vista e tudo continuou mais ou menos como antes. Só que de repente você partiu, e não pude nem me despedir. Já tem quase um mês: como é que passou depressa, hein? Você que nunca se perturbou com a mesquinha dimensão do nosso tempo, deve estar se divertindo com essa mania que a gente tem de fazer as coisas sempre na hora (in)certa. Fiquei com a sensação incômoda de não haver cumprido a promessa. Sei que você sempre pairou acima de tudo isso – e agora nem se fala – mas eu ainda estou, sempre estive presa às pequenas contingências. Deve ser por isso que aqui estou para te pedir desculpas por não haver escrito a história. E te dizer que estamos sentindo muito a sua falta, mas fique tranquila: seus livros nos fazem companhia. E para te mandar este beijo, Clarice, em forma de pomba.


(Coleção Melhores Crônicas: Maria Julieta Drummond de Andrade. Seleção e prefácio de Marcos Pasche, Global, 2012, pp. 45-48. Publicada no livro: Um buquê de alcachofras, 1980.)
Maria Julieta revela em sua crônica o receio que tinha de que o(a) destinatário(a) a achasse “muito professora de português, com mania de virgular direitinho e obedecer à sintaxe [...]” (1º§), e então começa o parágrafo seguinte dizendo queEntão você chegou aqui.” De modo a interpretar adequadamente a sintaxe dessa última frase como faz a autora, é correto afirmar que a função sintática de “você” pode ser corretamente identificada como: 
Alternativas
Q3484524 Português
O texto contextualiza a questão. Leia-o atentamente.


Em forma de pomba


    Talvez você ache esquisito eu estar te escrevendo hoje; talvez não: no fundo o surpreendente sempre foi habitual para você. Em todo caso, eu é que estou achando, pois nunca te escrevi antes, e só estivemos juntas uma vez. Lembra-se? Foi há quase dois anos, em abril de 76, quando você veio a Buenos Aires para o encerramento da Feira do Livro. Essas coisas: eu sempre admirando tanto você, lendo os seus livros, distribuindo os seus contos entre os meus alunos, e ao mesmo tempo com aquele receio de te conhecer, de você não corresponder à figura um pouco irreal que eu imaginava (às vezes, são os escritores cuja obra mais frequentamos os que mais nos decepcionam em carne e osso), de tomar o seu tempo, de você me achar muito professora de português, com mania de virgular direitinho e obedecer à sintaxe – o contrário do que você tão magnificamente sempre foi. Sei lá. E com tantos amigos em comum... Marly de Oliveira era uma que falava em você o tempo todo, estava sempre contando as conversas que tinham tido e um famoso passeio que fizeram a Friburgo. O fato é que os anos passavam e não nos reuniam.


    Então você chegou aqui. Pensei: “Vou vê-la? O pessoal já deve andar atrás dela, exigindo autógrafos e declarações – melhor deixá-la em paz”. Pois foi você quem me telefonou uma manhã: identifiquei logo sua voz, de “erres” carregados, que eu conhecia de ouvir contar. Ah, você nem imagina com que emoção aceitei o convite para almoçarmos juntas no dia seguinte. Caprichei no vestidinho verde e azul – que depois você elogiou com espontaneidade – e cheguei pontualmente ao hotel, pois você me recomendara com certa aflição que não me atrasasse. Que susto quando soube que você já havia saído, sem deixar recado. Foi um boy da portaria, que por acaso tinha visto você entrar no cabeleireiro da calçada em frente, que me salvou. Atravessei a rua e encontrei você lá, de terninho bege, esperando tranquilamente ser atendida. Você me abraçou com alegria: parecia a coisa mais natural do mundo eu te descobrir num lugar diferente do combinado. Como você insistisse em levar alguma encomenda minha para o Rio, e como o salão estava cheíssimo e você aparentemente iria demorar bastante, aproveitei para ir até a Harrods, buscar umas pastilhas de hortelã e chocolate, que o meu povinho adora. Quando voltei, 15 minutos depois, você já estava à minha espera, penteadíssima, enquanto Olga, seu anjo da guarda, pagava a conta. Não havia dúvida – concluí – que a lógica vulgar de todos nós nada tinha que ver com a sua, mágica por excelência.


    E as surpresas não terminaram aí, porque o almoço não foi num restaurante, como havíamos decidido na véspera, mas na casa de uma senhora argentina, praticamente desconhecida, que na noite anterior fora comprar um livro seu na Feira e ficara fascinada por você. Numa época em que aqui só se falava em sequestros, você, com a perfeita intuição de sempre, achou normalíssima a gentileza com que a moça nos levou de táxi a um apartamento de luxo, repleto de aços e acrílicos, onde um marido grego, que vendia tapetes, e uma gata siamesa, batizada Lou Salomé, nos aguardavam. Você adorou a bichinha, e contou que o seu cachorro, Ulisses, fumava muito. Que coincidência: há mil anos atrás, outro cão, de uma novelinha adolescente que cometi a imprudência de escrever, também se chamava Ulisses; e ainda tínhamos, cada uma, um filho de nome Pedro. Falar em filhos, e você retomou o tema que tanto te emocionava naquela tarde: o casamento do outro garoto, Paulo, acontecido poucos dias antes. Como você se iluminava toda ao descrever a festa em torno da piscina...


    O casal seguia suas palavras com tamanho interesse, que acabou entendendo o português, que você insistia em falar, e dispensando qualquer tradução. Como primeiro prato serviram uma quiche Lorraine, que você apreciou e repetiu, mas na hora da carne assada você pediu licença e saiu da mesa para descansar. Todos te seguimos sem estranheza, como se de repente o almoço tivesse terminado; fomos até o quarto e tomamos café sentados na cama gigantesca (a maior que já vi), coberta por uma colcha azul. Havia uma pombinha de cerâmica sobre a mesa de cabeceira; ao notar seu interesse pela peça, a dona da casa exultou: Te la regalo, e você agradeceu com ar sonhador.


    Saímos apressadas, porque você ainda tinha que gravar uma entrevista e receber vários repórteres. Já na rua, enquanto Olga procurava um táxi, você descobriu outra pomba, esta de verdade, pousada junto à porta do edifício. É tão frequente encontrar essas aves nas ruas da cidade, que nem me detive, mas você parou e olhou-a longamente, como se se tratasse de um milagre único e insubstituível. Senti que você estava vivendo um instante poético e não me aproximei, para não perturbar o silencioso diálogo. Você então me chamou, segurou-me pela mão, fitou-me seriamente e me pediu: “Quer me fazer um favor? Escreva uma história sobre esta pomba”. Concordei, meio sem jeito, com a secreta convicção que não manteria a palavra. Não sei inventar casos, como você; acho que, se pudesse, teria escrito, mas não deu.


    Depois você voltou para o Brasil, nós nos perdemos de vista e tudo continuou mais ou menos como antes. Só que de repente você partiu, e não pude nem me despedir. Já tem quase um mês: como é que passou depressa, hein? Você que nunca se perturbou com a mesquinha dimensão do nosso tempo, deve estar se divertindo com essa mania que a gente tem de fazer as coisas sempre na hora (in)certa. Fiquei com a sensação incômoda de não haver cumprido a promessa. Sei que você sempre pairou acima de tudo isso – e agora nem se fala – mas eu ainda estou, sempre estive presa às pequenas contingências. Deve ser por isso que aqui estou para te pedir desculpas por não haver escrito a história. E te dizer que estamos sentindo muito a sua falta, mas fique tranquila: seus livros nos fazem companhia. E para te mandar este beijo, Clarice, em forma de pomba.


(Coleção Melhores Crônicas: Maria Julieta Drummond de Andrade. Seleção e prefácio de Marcos Pasche, Global, 2012, pp. 45-48. Publicada no livro: Um buquê de alcachofras, 1980.)
Ao redigir sua crônica em forma de carta, Maria Julieta Drummond de Andrade demonstra sua admiração pelo(a) destinatário(a) e relata as experiências que passaram juntos(as). Após a leitura do texto, é correto afirmar que o(a) destinatário(a) pode ser corretamente identificado(a) como:
Alternativas
Respostas
21: D
22: D
23: A
24: A
25: C
26: B
27: A
28: A
29: B
30: B
31: C
32: A
33: D
34: C
35: D
36: C
37: A
38: D
39: B
40: B