Questões de Concurso Comentadas para médico clínico

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Q3623427 Medicina
Um paciente de 40 anos, vítima de politrauma, chega ao pronto-socorro com hipovolemia grave e acidose metabólica documentada em gasometria arterial (pH 7,25; HCO₃⁻ 15 mmol/L; PaCO₂ 28 mmHg). Durante a reposição volêmica, surgem dúvidas da equipe sobre interpretação de distúrbios ácido-básicos.

Com base no texto, classifique como VERDADEIRAS (V) ou FALSAS (F):

( ) A queda do bicarbonato sérico associada à diminuição compensatória da PaCO₂ caracteriza acidose metabólica com resposta respiratória adequada.
( ) Na acidose metabólica por hipoperfusão tecidual, o lactato é frequentemente elevado.
( ) A alcalose metabólica é comumente associada a vômitos prolongados ou uso excessivo de diuréticos de alça.
( ) A acidose respiratória crônica pode cursar com retenção de bicarbonato renal como mecanismo compensatório.

Assinale a sequência CORRETA:
Alternativas
Q3623426 Medicina
Uma paciente mulher, 68 anos, ex-fumante (50 maços-ano), com diagnóstico de DPOC moderada-grave, faz uso de broncodilatador de longa duração (LABA + LAMA) e oxigenoterapia domiciliar intermitente. Ela desenvolve exacerbação aguda com dispneia grave, sibilância, uso de musculatura acessória, queda da saturação de O₂ para 85% em ar ambiente, sem sinais de pneumotórax.

É internada. Em relação ao manejo, analise: 

I. O protocolo de exacerbação da DPOC (PCDT Resumido DPOC, 2022) recomenda associar corticosteroides sistêmicos por via oral por 5-7 dias, salvo contraindicações, para reduzir a duração da hospitalização e melhorar função pulmonar.
II. Uso de broncodilatadores de curta duração (SABA e/ou SAMA) por via inalatória repetida, preferencialmente por espaçador ou nebulização, conforme gravidade, para alívio rápido do broncoespasmo.
III. Administração de antibióticos de espectro para germes gram negativos em todas as exacerbações graves, independentemente de critérios clínicos de infecção purulenta. 
IV. Oxigenoterapia com objetivo de manter saturação ≥ 90-92%, evitando hipercapnia em pacientes com retenção de CO₂ crônica, monitorando gasometria arterial se possível.

Assinale a alternativa CORRETA:
Alternativas
Q3623425 Medicina
Um paciente de 54 anos, com histórico de diabetes mellitus tipo 2 há 10 anos, apresenta glicemia de jejum de 180 mg/dL, HbA1c de 9,2%, neuropatia periférica, nefropatia incipiente e IMC de 32 kg/m². Ele é atendido em uma Unidade de Atenção Primária à Saúde.

Considerando as diretrizes brasileiras para o manejo do Diabetes Mellitus tipo 2, classifique como VERDADEIRAS (V) ou FALSAS (F) as afirmativas abaixo:

( ) O alvo terapêutico de HbA1c para esse paciente pode ser menos rígido devido à presença de comorbidades renais e risco aumentado de hipoglicemia, sendo aceitável meta entre 7,0-8,5 %.
( ) O tratamento inicial deve incluir metformina, salvo contraindicações, associada precocemente a inibidor de SGLT2 ou agonista de GLP-1, visando proteção cardiovascular e renal.
( ) A avaliação de risco cardiovascular deve incluir tratamento de dislipidemia com estatina, sendo que o uso de estatina de alta intensidade pode estar indicado mesmo sem histórico de eventos prévios, caso o risco seja elevado.
( ) O uso de insulina basal é formalmente contraindicado neste estágio inicial do tratamento e deve ser evitado até esgotar todas as opções de antidiabéticos orais.

Assinale a sequência CORRETA:
Alternativas
Q3623423 Medicina
Uma mulher de 67 anos, raça parda, obesidade grau I, história de apneia obstrutiva do sono, chega à atenção primária com pressão arterial persistente de 150-95 mmHg em três consultas diferentes, com uso de medição ambulatorial de pressão arterial (MAPA) confirmando esses valores, sem lesão evidente de órgão-alvo ou comorbidades graves. Segundo o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) de Hipertensão Arterial Sistêmica, aprovado pela CONITEC em 2025, analise as assertivas:

I. Deve-se iniciar tratamento não-medicamentoso enfatizando perda de peso, redução de ingestão de sódio, prática de atividade física, e também tratamento dos distúrbios do sono (inclusive apneia) como parte das intervenções iniciais.
II. Para esta paciente, indicada tratamento medicamentoso inicial com monoterapia de inibidor da ECA ou BRA, salvo contraindicações, antes de associação de fármacos.
III. O PCDT reconhece que pessoas da raça/cor preta ou parda podem ter resposta diferente às classes de anti-hipertensivos, exigindo protocolos específicos para esse grupo.
IV. O novo PCDT estipula meta pressórica rigorosa de < 120/80 mmHg para todos os pacientes, independentemente da idade ou comorbidades.

Assinale a alternativa CORRETA: 
Alternativas
Q3623422 Medicina
Num hospital de grande porte, um paciente de 45 anos chega à sala de emergência com quadro de trauma contuso de tórax, hipotensão persistente (PA: 70/40 mmHg), extremidades frias, pulso filiforme, além de dispneia grave. Após avaliação inicial (incluindo ultrassom de tórax), descarta-se hemotórax volumoso ou pneumotórax hipertensivo, mas observa-se tamponamento cardíaco.

Considerando os diferentes tipos de choque, avalie as assertivas:

I. Esse quadro é compatível com choque obstrutivo, caracterizado por obstrução mecânica ao enchimento cardíaco, com diminuição do débito cardíaco apesar de volemia adequada.
II. No choque cardiogênico, espera-se encontrar edema pulmonar, aumento da pressão venosa central e possíveis sinais de choque periférico, diferentemente do choque séptico, em que a perfusão periférica pode estar quente.
III. O choque hipovolêmico se apresenta com retorno venoso aumentado e palpitação nos pulsos periféricos fortes.
IV. No choque distributivo (como séptico), além da vasodilatação, há aumento da permeabilidade vascular e queda da resistência vascular sistêmica, podendo haver quadro de “choque quente”.

Assinale a alternativa CORRETA:
Alternativas
Q3623421 Saúde Pública
Um município do interior detecta aumento de casos suspeitos de arboviroses. O médico da unidade deve realizar corretamente a notificação compulsória, conforme a legislação vigente.

Relacione as doenças da COLUNA I com o tipo de notificação da COLUNA II:

COLUNA I
1. Dengue com sinais de alarme ou grave
2. Tuberculose pulmonar
3. Raiva humana
4. Síndrome respiratória aguda grave (SRAG) por vírus respiratório

COLUNA II
A. Notificação compulsória semanal
B. Notificação compulsória imediata (até 24 horas)

Assinale CORRETAMENTE a associação entre as colunas:
Alternativas
Q3623420 Saúde Pública
Em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), pacientes e trabalhadores relataram problemas relacionados à qualidade do cuidado: filas extensas, falta de acolhimento adequado, conflitos de comunicação entre a equipe multiprofissional e a gestão, além de um ambiente físico considerado insalubre e pouco acolhedor. Para enfrentar essa situação, a Secretaria Municipal de Saúde determinou a implementação integral da Política Nacional de Humanização (PNH), instituída pelo Ministério da Saúde em 2003 e formalizada por diversas portarias, como a Portaria GM/MS nº 2.048/2009, que organiza o funcionamento das urgências e emergências.

Sobre os princípios e dispositivos da PNH, classifique as assertivas a seguir como V (VERDADEIRAS) ou F (FALSAS): 

( ) O acolhimento, na perspectiva da PNH, não se restringe a triagem burocrática de risco, mas constitui estratégia de escuta qualificada, responsabilização e construção compartilhada de respostas às demandas de saúde, sendo obrigatório em todos os pontos de atenção do SUS.

( ) A transversalidade da PNH implica que a humanização deve atravessar todas as práticas de gestão e de atenção, exigindo corresponsabilização entre gestores, trabalhadores e usuários, mas sua aplicação é restrita à Atenção Básica.
( ) A valorização do trabalho e do trabalhador da saúde constitui diretriz da PNH, incluindo incentivo a espaços de escuta, educação permanente e gestão participativa, reconhecendo o protagonismo da equipe na produção do cuidado.
( ) A ambiência refere-se apenas ao conforto arquitetônico, sem relação com a promoção de vínculos ou com a garantia de privacidade e dignidade dos usuários nos serviços de saúde.

Assinale a sequência CORRETA:
Alternativas
Q3623419 Saúde Pública
Um município do semiárido brasileiro implementa ações de combate à desnutrição infantil por meio da Atenção Básica, articulando vigilância alimentar, suplementação nutricional e fortalecimento do Programa Saúde da Família.

Considerando as políticas nacionais de saúde, analise os itens a seguir:

I. As ações devem respeitar a diretriz da regionalização e hierarquização, garantindo integração entre os diferentes níveis de atenção.
II. A participação da comunidade deve ocorrer em instâncias como conselhos e conferências de saúde, conforme a Lei nº 8.142/1990.
III. A intersetorialidade é prevista na Constituição e reforçada pela PNAB, buscando articulação entre saúde, educação, assistência social e saneamento.
IV. A eficiência administrativa é princípio expresso na Constituição, mas não integra os princípios organizativos do SUS.

Assinale a alternativa CORRETA: 
Alternativas
Q3623418 Direito Sanitário
Um gestor municipal de saúde, durante uma reunião do Conselho Municipal de Saúde, é questionado sobre a correta interpretação dos princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS), instituídos pela Constituição Federal de 1988 (art. 196 a 200) e regulamentados pela Lei Orgânica da Saúde nº 8.080/1990 e pela Lei nº 8.142/1990. Alguns conselheiros alegaram que todos os cidadãos devem ter acesso aos mesmos recursos, em qualquer circunstância, enquanto outros defenderam que a equidade prevê a alocação diferenciada de recursos para populações em situação de maior vulnerabilidade epidemiológica e social.

Diante desse contexto, avalie as alternativas abaixo e assinale a INCORRETA:
Alternativas
Q3623417 Medicina
Durante uma consulta em unidade básica de saúde, um paciente solicita ao médico a prescrição de medicamento de alto custo, fora da lista padronizada do SUS, apenas para fins estéticos. O médico recusa o pedido, explicando os motivos clínicos e legais.

Considerando o Código de Ética Médica (Resolução CFM nº 1.931/2009), analise: 

I. O médico não pode prescrever ou indicar tratamento desnecessário ou proibido pela legislação vigente.
II. A recusa deve ser registrada em prontuário e fundamentada em evidências científicas.
III. O médico pode interromper a relação com o paciente se este insistir em condutas antiéticas, desde que assegurada a continuidade do cuidado.
IV. É permitido ao médico divulgar publicamente detalhes do caso clínico em redes sociais, desde que sem a identificação do paciente.

Assinale a alternativa CORRETA: 
Alternativas
Q3622571 Saúde Pública
A vigilância das Doenças Crônicas não Transmissíveis (DCNT) inclui o monitoramento das doenças cardiovasculares, neoplasias, diabetes e doenças respiratórias crônicas. Estas doenças são responsáveis por mais de 70% das mortes em todo mundo. São doenças multifatoriais que se desenvolvem no curso da vida e que possuem longa duração. Estão relacionadas a diversos fatores, condicionantes e determinantes sociais, entretanto a maioria é ocasionada por fatores de risco modificáveis dentre os quais destacam-se:
https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/svsa/vigilancia-dedoencas-cronicas-nao-transmissiveis/vigilancia-das-dant

I. O tabagismo.
II. Consumo excessivo de álcool.
III. Alimentação não saudável.
IV. Pressão emocional.
V. Inatividade física.

Estão CORRETOS:
Alternativas
Q3622569 Saúde Pública
A respeito da Vigilância em Saúde Ambiental, analise os itens a seguir:

I. A Vigilância em Saúde Ambiental é um conjunto de ações que proporciona o conhecimento e detecção de qualquer mudança nos fatores determinantes e condicionantes do meio ambiente que interferem na saúde humana, com a finalidade de identificar as medidas de prevenção e controle dos fatores de risco ambientais relacionados às doenças ou outros agravos à saúde.
II. A Vigilância em Saúde Ambiental acompanha a interação do indivíduo com o meio ambiente, enfocando o espaço urbano e coletivo e as diversas formas de intervenção sobre este meio entendendo que essa relação possa se dar de maneira harmônica e resultados positivos ou de maneira nociva, resultando em doenças e agravos à saúde.
III. A Vigilância em Saúde Ambiental trata de temas, como: a qualidade da água para consumo humano, contaminantes ambientais, qualidade do ar, qualidade do solo, notadamente em relação ao manejo dos resíduos tóxicos e perigosos, os desastres naturais e acidentes com produtos perigosos.

Está(ão) CORRETO(S):
Alternativas
Q3622568 Direito Constitucional
Em conformidade com o Art. 198 da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, as ações e serviços públicos de saúde integram uma rede regionalizada e hierarquizada e constituem um sistema único, organizado de acordo com as seguintes diretrizes, EXCETO:
Alternativas
Q3622567 Saúde Pública
No município de Santa Cecília, em 2023, a taxa de mortalidade infantil média na cidade é de:
https://cidades.ibge.gov.br/brasil/pb/santa-cecilia/panorama
Alternativas
Q3622562 Geografia
De acordo com o CENSO 2022 – IBGE, a população do Município de Santa Cecília era de: 
https://cidades.ibge.gov.br/brasil/pb/santa-cecilia/panorama
Alternativas
Q3622556 Segurança da Informação
Considerando os tipos de criptografia, analise as alternativas e assinale a CORRETA:
Alternativas
Q3622555 Noções de Informática
Em um computador, diferentes tipos de softwares são instalados para garantir funcionamento e atender às necessidades do usuário. 

Considerando as funções de um computador, analise as alternativas e assinale a CORRETA: 
Alternativas
Q3622554 Segurança da Informação
Um usuário acessa um computador público para realizar operações bancárias. Ele decide utilizar o modo de navegação anônima, verifica se o site utiliza HTTPS e bloqueia cookies de terceiros durante a sessão. 

Considerando as funcionalidades e configurações de segurança de navegadores, analise as alternativas e assinale a CORRETA: 
Alternativas
Q3622551 Português
Leia o texto abaixo e responda à questão.


TEXTO III


A última crônica


A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: “assim eu quereria o meu último poema”. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.


Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.


Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho – um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.


A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.


São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: “Parabéns pra você, parabéns pra você…”. Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura – ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido – vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.


Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.


Fernando Sabino

Disponível em: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/13529/aultima-cronica
Releia:

“A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali.”

No trecho acima, a palavra destacada exerce a função de:
Alternativas
Q3622547 Português
Leia o texto abaixo e responda à questão.


TEXTO III


A última crônica


A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: “assim eu quereria o meu último poema”. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.


Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.


Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho – um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.


A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.


São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: “Parabéns pra você, parabéns pra você…”. Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura – ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido – vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.


Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.


Fernando Sabino

Disponível em: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/13529/aultima-cronica
No trecho: “Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa” (5º parágrafo), as palavras destacadas pertencem, RESPECTIVAMENTE, às classes de:
Alternativas
Respostas
1521: B
1522: C
1523: C
1524: B
1525: A
1526: D
1527: A
1528: D
1529: C
1530: A
1531: D
1532: A
1533: C
1534: B
1535: A
1536: A
1537: C
1538: B
1539: A
1540: B