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Texto 1: Conceitos de Gramática
A palavra gramática sempre nos leva a pensar nos manuais utilizados na escola, cheios de regras e exceções. Este é realmente um tipo de gramática entre outros. Antes, porém, de pensarmos em gramática como um compêndio que traz algum tipo de informação sobre determinada língua, é preciso lembrar um conceito de gramática que se sobrepõe a todos os outros. É aquilo que se costuma chamar de gramática internalizada, cuja aquisição se dá de forma natural, durante a infância, à medida que a criança é exposta aos dados de sua língua materna no meio em que é criada.
Ao final do processo de aquisição, por volta dos cinco anos, a criança tem todos os valores de sua gramática fixados. Embora seu desempenho revele aspectos da fala que lhe serviu de fonte (de seus pais, parentes, cuidadores, etc., tais como supressões ou inserções de segmentos, como em “made[y]ra”, “do[w]ze”, “na[y]scimento”, “os menino[s]”, “eles me contou[contaram]”), todos adquirem as mesmas propriedades abstratas, no que se refere, por exemplo, à ordem dos constituintes dentro do sintagma nominal, dentro da oração, dentro do período; à constituição silábica; ao conjunto de melodias de sua língua; entre outros aspectos. Ninguém diz “menino o”; “você no viu cinema o João”; “o filme foi bom eu vi ontem que”. Todo falante do português rejeita essas estruturas, sabe que elas não são estruturas gramaticais, e esse conhecimento se constrói naturalmente.
O contato com a escola e a leitura, caso o indivíduo tenha essa oportunidade, pode viabilizar o contato com outras estruturas e levá-lo, através da “aprendizagem”, a utilizar formas que não fazem parte da sua língua interna, mas que podem aparecer quando ele escreve ou quando monitora/controla sua fala em situações mais formais.
Já os compêndios gramaticais apresentam um modelo de gramática que continua uma tradição gramatical europeia, pautada no modelo iniciado por gregos e continuado pelos romanos, que buscavam descrever a língua de sincronias mais antigas, que surgia em textos indecifráveis. Essas descrições eram feitas com base nos autores considerados “clássicos” e procuravam tomar como modelo de “bom uso” a gramática de sincronias anteriores. Essa tradição continuou durante a Idade Média, ainda que se renovando no Renascimento, quando as línguas vernáculas da România se impuseram naturalmente sobre o latim, mas a origem do modelo, a inspiração nos “clássicos”, nas sincronias mais antigas, perdurou.
Em geral, nos referimos a essas gramáticas chamadas “tradicionais” (justamente porque remontam a uma tradição milenar) como normativas, esquecendo que elas são igualmente descritivas. É fácil perceber quando o gramático deixa de “descrever” e passa a elencar as “normas”. Costuma-se cobrar das gramáticas mais antigas uma consistência teórica de que não se dispunha quando da sua preparação. Muitas delas, entretanto, têm sido reeditadas sem incorporar os avanços dos estudos linguísticos e sem atualizar os dados relativos ao uso normal da escrita.
Deixando de lado a descrição presente em nossas gramáticas tradicionais (sem esquecer que elas continuam a ser o ponto de partida das descrições linguísticas atuais) e voltando às normas que elas recomendam como reveladoras do bom uso da língua, é evidente que há uma imensa defasagem entre o que ali aparece e o que se pratica efetivamente na escrita contemporânea – seja porque algumas delas nunca fizeram parte da gramática do português do Brasil escrito, seja porque outras caíram em desuso, sendo substituídas por novos usos, novas normas. É preciso esclarecer um ponto: por escrita-padrão, entendem-se aqui as variedades de escrita veiculada em jornais e revistas de ampla circulação, em trabalhos acadêmicos, enfim a escrita produzida por indivíduos escolarizados e com contato frequente com a escrita. É preciso ainda lembrar que essa língua escrita não é uniforme. Embora em menor escala do que a fala, ela também apresenta significativa variação. E, a depender do gênero textual, muitos aspectos gramaticais da fala já ganham espaço na escrita.
Ao longo de todo o século XX, as diferenças entre fala e escrita eram atribuídas a uma oposição formal versus informal. Lembre-se de que os gramáticos que chegaram a ver o florescimento da linguística não estavam ainda convencidos da precedência da fala sobre a escrita. Isso criou uma grande distância entre fala e escrita, e só os indivíduos que passam pela escola podem aprender formas ausentes da “primeira gramática” e “mudar de gramática” em situações mais formais.
Isso tem sido confundido com adequação de linguagem, geralmente ilustrada com exemplos que mais se referem à polidez no tratamento, ao maior ou menor nível de educação do falante, do que propriamente à adequação. Um dos exemplos mais frequentes para os que desejam argumentar em favor da adequação linguística são as conversas depois de um jogo de futebol em oposição a uma comunicação num congresso. Colocam um indivíduo numa mesa de bar usando xingamentos para se referir ao juiz, naturalmente injusto com seu time por ter expulsado um jogador de campo. Ora, é óbvio que em qualquer lugar do mundo o torcedor faria o mesmo. Acontece que o exemplo dado no Brasil acompanha o xingamento ao juiz com um “mandou ele pra fora do campo” e atribui o uso de “ele” ao contexto informal. Na mesma situação, um indivíduo português, independentemente do seu nível de escolaridade, xingaria igualmente o juiz e acrescentaria, sem maiores problemas, “mandou-o para fora do campo”. Há aqui duas gramáticas diferentes: a do português do Brasil e a do português de Portugal.
Outra forma equivocada de explicar “adequação linguística” é afirmar que, “assim como ninguém vai a um casamento de biquíni”, não se pode aprovar certos usos gramaticais em determinadas circunstâncias. Uma pessoa minimamente educada não vai a um casamento de biquíni, mas fala “eu vi ele ontem”, “teve baile ontem”, entre outras formas da gramática brasileira. Só um falante escolarizado ou com um longo contato com a leitura, portanto muito treinado, é capaz de monitorar sua fala a tal ponto de conseguir fazer essa “mudança de gramática”, que não se confunde com o uso de gírias, palavrões ou expressões inadequadas a determinados contextos.
Portanto, é preciso ter muito cuidado com os exemplos que confundem adequação de linguagem (no sentido de cortesia, boa educação, se o momento pede, ou desembaraço, desabafo, irreverência, se o momento é descontraído) com mudança de gramática. Melhor seria, pois, abandonar o termo adequação, substituindo-o por mudança de gramática. E qualquer falante, com ou sem escolaridade, sabe se comportar de acordo com o contexto embora não possa mudar de gramática, o que não o torna “inadequado”.
Adaptado de DUARTE, M. E. L.; SERRA, C. R. S. Gramática(s), ensino de português e “adequação linguística”. Matraga, Rio de Janeiro, v. 22, nº 36, jan./jun. 2015.
Considere o poema “Pronominais”, de Oswald de Andrade: “Dê-me um cigarro / Diz a gramática / Do professor e do aluno / E do mulato sabido / Mas o bom negro e o bom branco / Da Nação Brasileira / Dizem todos os dias / Deixa disso camarada / Me dá um cigarro” (Pau Brasil, 1925).
Em relação ao exposto no 6º parágrafo, o poema modernista pode ser compreendido como um modo de:
Texto 1: Conceitos de Gramática
A palavra gramática sempre nos leva a pensar nos manuais utilizados na escola, cheios de regras e exceções. Este é realmente um tipo de gramática entre outros. Antes, porém, de pensarmos em gramática como um compêndio que traz algum tipo de informação sobre determinada língua, é preciso lembrar um conceito de gramática que se sobrepõe a todos os outros. É aquilo que se costuma chamar de gramática internalizada, cuja aquisição se dá de forma natural, durante a infância, à medida que a criança é exposta aos dados de sua língua materna no meio em que é criada.
Ao final do processo de aquisição, por volta dos cinco anos, a criança tem todos os valores de sua gramática fixados. Embora seu desempenho revele aspectos da fala que lhe serviu de fonte (de seus pais, parentes, cuidadores, etc., tais como supressões ou inserções de segmentos, como em “made[y]ra”, “do[w]ze”, “na[y]scimento”, “os menino[s]”, “eles me contou[contaram]”), todos adquirem as mesmas propriedades abstratas, no que se refere, por exemplo, à ordem dos constituintes dentro do sintagma nominal, dentro da oração, dentro do período; à constituição silábica; ao conjunto de melodias de sua língua; entre outros aspectos. Ninguém diz “menino o”; “você no viu cinema o João”; “o filme foi bom eu vi ontem que”. Todo falante do português rejeita essas estruturas, sabe que elas não são estruturas gramaticais, e esse conhecimento se constrói naturalmente.
O contato com a escola e a leitura, caso o indivíduo tenha essa oportunidade, pode viabilizar o contato com outras estruturas e levá-lo, através da “aprendizagem”, a utilizar formas que não fazem parte da sua língua interna, mas que podem aparecer quando ele escreve ou quando monitora/controla sua fala em situações mais formais.
Já os compêndios gramaticais apresentam um modelo de gramática que continua uma tradição gramatical europeia, pautada no modelo iniciado por gregos e continuado pelos romanos, que buscavam descrever a língua de sincronias mais antigas, que surgia em textos indecifráveis. Essas descrições eram feitas com base nos autores considerados “clássicos” e procuravam tomar como modelo de “bom uso” a gramática de sincronias anteriores. Essa tradição continuou durante a Idade Média, ainda que se renovando no Renascimento, quando as línguas vernáculas da România se impuseram naturalmente sobre o latim, mas a origem do modelo, a inspiração nos “clássicos”, nas sincronias mais antigas, perdurou.
Em geral, nos referimos a essas gramáticas chamadas “tradicionais” (justamente porque remontam a uma tradição milenar) como normativas, esquecendo que elas são igualmente descritivas. É fácil perceber quando o gramático deixa de “descrever” e passa a elencar as “normas”. Costuma-se cobrar das gramáticas mais antigas uma consistência teórica de que não se dispunha quando da sua preparação. Muitas delas, entretanto, têm sido reeditadas sem incorporar os avanços dos estudos linguísticos e sem atualizar os dados relativos ao uso normal da escrita.
Deixando de lado a descrição presente em nossas gramáticas tradicionais (sem esquecer que elas continuam a ser o ponto de partida das descrições linguísticas atuais) e voltando às normas que elas recomendam como reveladoras do bom uso da língua, é evidente que há uma imensa defasagem entre o que ali aparece e o que se pratica efetivamente na escrita contemporânea – seja porque algumas delas nunca fizeram parte da gramática do português do Brasil escrito, seja porque outras caíram em desuso, sendo substituídas por novos usos, novas normas. É preciso esclarecer um ponto: por escrita-padrão, entendem-se aqui as variedades de escrita veiculada em jornais e revistas de ampla circulação, em trabalhos acadêmicos, enfim a escrita produzida por indivíduos escolarizados e com contato frequente com a escrita. É preciso ainda lembrar que essa língua escrita não é uniforme. Embora em menor escala do que a fala, ela também apresenta significativa variação. E, a depender do gênero textual, muitos aspectos gramaticais da fala já ganham espaço na escrita.
Ao longo de todo o século XX, as diferenças entre fala e escrita eram atribuídas a uma oposição formal versus informal. Lembre-se de que os gramáticos que chegaram a ver o florescimento da linguística não estavam ainda convencidos da precedência da fala sobre a escrita. Isso criou uma grande distância entre fala e escrita, e só os indivíduos que passam pela escola podem aprender formas ausentes da “primeira gramática” e “mudar de gramática” em situações mais formais.
Isso tem sido confundido com adequação de linguagem, geralmente ilustrada com exemplos que mais se referem à polidez no tratamento, ao maior ou menor nível de educação do falante, do que propriamente à adequação. Um dos exemplos mais frequentes para os que desejam argumentar em favor da adequação linguística são as conversas depois de um jogo de futebol em oposição a uma comunicação num congresso. Colocam um indivíduo numa mesa de bar usando xingamentos para se referir ao juiz, naturalmente injusto com seu time por ter expulsado um jogador de campo. Ora, é óbvio que em qualquer lugar do mundo o torcedor faria o mesmo. Acontece que o exemplo dado no Brasil acompanha o xingamento ao juiz com um “mandou ele pra fora do campo” e atribui o uso de “ele” ao contexto informal. Na mesma situação, um indivíduo português, independentemente do seu nível de escolaridade, xingaria igualmente o juiz e acrescentaria, sem maiores problemas, “mandou-o para fora do campo”. Há aqui duas gramáticas diferentes: a do português do Brasil e a do português de Portugal.
Outra forma equivocada de explicar “adequação linguística” é afirmar que, “assim como ninguém vai a um casamento de biquíni”, não se pode aprovar certos usos gramaticais em determinadas circunstâncias. Uma pessoa minimamente educada não vai a um casamento de biquíni, mas fala “eu vi ele ontem”, “teve baile ontem”, entre outras formas da gramática brasileira. Só um falante escolarizado ou com um longo contato com a leitura, portanto muito treinado, é capaz de monitorar sua fala a tal ponto de conseguir fazer essa “mudança de gramática”, que não se confunde com o uso de gírias, palavrões ou expressões inadequadas a determinados contextos.
Portanto, é preciso ter muito cuidado com os exemplos que confundem adequação de linguagem (no sentido de cortesia, boa educação, se o momento pede, ou desembaraço, desabafo, irreverência, se o momento é descontraído) com mudança de gramática. Melhor seria, pois, abandonar o termo adequação, substituindo-o por mudança de gramática. E qualquer falante, com ou sem escolaridade, sabe se comportar de acordo com o contexto embora não possa mudar de gramática, o que não o torna “inadequado”.
Adaptado de DUARTE, M. E. L.; SERRA, C. R. S. Gramática(s), ensino de português e “adequação linguística”. Matraga, Rio de Janeiro, v. 22, nº 36, jan./jun. 2015.
No 4º e 5º parágrafos, as autoras recuperam brevemente a história das chamadas gramáticas tradicionais, destacando uma superposição frequente entre descrição e normatização.
Um exemplo de formulação apenas descritiva encontra-se no seguinte trecho, com ortografia adaptada, da edição de 1894 da Gramática portuguesa de João Ribeiro:
Texto 1: Conceitos de Gramática
A palavra gramática sempre nos leva a pensar nos manuais utilizados na escola, cheios de regras e exceções. Este é realmente um tipo de gramática entre outros. Antes, porém, de pensarmos em gramática como um compêndio que traz algum tipo de informação sobre determinada língua, é preciso lembrar um conceito de gramática que se sobrepõe a todos os outros. É aquilo que se costuma chamar de gramática internalizada, cuja aquisição se dá de forma natural, durante a infância, à medida que a criança é exposta aos dados de sua língua materna no meio em que é criada.
Ao final do processo de aquisição, por volta dos cinco anos, a criança tem todos os valores de sua gramática fixados. Embora seu desempenho revele aspectos da fala que lhe serviu de fonte (de seus pais, parentes, cuidadores, etc., tais como supressões ou inserções de segmentos, como em “made[y]ra”, “do[w]ze”, “na[y]scimento”, “os menino[s]”, “eles me contou[contaram]”), todos adquirem as mesmas propriedades abstratas, no que se refere, por exemplo, à ordem dos constituintes dentro do sintagma nominal, dentro da oração, dentro do período; à constituição silábica; ao conjunto de melodias de sua língua; entre outros aspectos. Ninguém diz “menino o”; “você no viu cinema o João”; “o filme foi bom eu vi ontem que”. Todo falante do português rejeita essas estruturas, sabe que elas não são estruturas gramaticais, e esse conhecimento se constrói naturalmente.
O contato com a escola e a leitura, caso o indivíduo tenha essa oportunidade, pode viabilizar o contato com outras estruturas e levá-lo, através da “aprendizagem”, a utilizar formas que não fazem parte da sua língua interna, mas que podem aparecer quando ele escreve ou quando monitora/controla sua fala em situações mais formais.
Já os compêndios gramaticais apresentam um modelo de gramática que continua uma tradição gramatical europeia, pautada no modelo iniciado por gregos e continuado pelos romanos, que buscavam descrever a língua de sincronias mais antigas, que surgia em textos indecifráveis. Essas descrições eram feitas com base nos autores considerados “clássicos” e procuravam tomar como modelo de “bom uso” a gramática de sincronias anteriores. Essa tradição continuou durante a Idade Média, ainda que se renovando no Renascimento, quando as línguas vernáculas da România se impuseram naturalmente sobre o latim, mas a origem do modelo, a inspiração nos “clássicos”, nas sincronias mais antigas, perdurou.
Em geral, nos referimos a essas gramáticas chamadas “tradicionais” (justamente porque remontam a uma tradição milenar) como normativas, esquecendo que elas são igualmente descritivas. É fácil perceber quando o gramático deixa de “descrever” e passa a elencar as “normas”. Costuma-se cobrar das gramáticas mais antigas uma consistência teórica de que não se dispunha quando da sua preparação. Muitas delas, entretanto, têm sido reeditadas sem incorporar os avanços dos estudos linguísticos e sem atualizar os dados relativos ao uso normal da escrita.
Deixando de lado a descrição presente em nossas gramáticas tradicionais (sem esquecer que elas continuam a ser o ponto de partida das descrições linguísticas atuais) e voltando às normas que elas recomendam como reveladoras do bom uso da língua, é evidente que há uma imensa defasagem entre o que ali aparece e o que se pratica efetivamente na escrita contemporânea – seja porque algumas delas nunca fizeram parte da gramática do português do Brasil escrito, seja porque outras caíram em desuso, sendo substituídas por novos usos, novas normas. É preciso esclarecer um ponto: por escrita-padrão, entendem-se aqui as variedades de escrita veiculada em jornais e revistas de ampla circulação, em trabalhos acadêmicos, enfim a escrita produzida por indivíduos escolarizados e com contato frequente com a escrita. É preciso ainda lembrar que essa língua escrita não é uniforme. Embora em menor escala do que a fala, ela também apresenta significativa variação. E, a depender do gênero textual, muitos aspectos gramaticais da fala já ganham espaço na escrita.
Ao longo de todo o século XX, as diferenças entre fala e escrita eram atribuídas a uma oposição formal versus informal. Lembre-se de que os gramáticos que chegaram a ver o florescimento da linguística não estavam ainda convencidos da precedência da fala sobre a escrita. Isso criou uma grande distância entre fala e escrita, e só os indivíduos que passam pela escola podem aprender formas ausentes da “primeira gramática” e “mudar de gramática” em situações mais formais.
Isso tem sido confundido com adequação de linguagem, geralmente ilustrada com exemplos que mais se referem à polidez no tratamento, ao maior ou menor nível de educação do falante, do que propriamente à adequação. Um dos exemplos mais frequentes para os que desejam argumentar em favor da adequação linguística são as conversas depois de um jogo de futebol em oposição a uma comunicação num congresso. Colocam um indivíduo numa mesa de bar usando xingamentos para se referir ao juiz, naturalmente injusto com seu time por ter expulsado um jogador de campo. Ora, é óbvio que em qualquer lugar do mundo o torcedor faria o mesmo. Acontece que o exemplo dado no Brasil acompanha o xingamento ao juiz com um “mandou ele pra fora do campo” e atribui o uso de “ele” ao contexto informal. Na mesma situação, um indivíduo português, independentemente do seu nível de escolaridade, xingaria igualmente o juiz e acrescentaria, sem maiores problemas, “mandou-o para fora do campo”. Há aqui duas gramáticas diferentes: a do português do Brasil e a do português de Portugal.
Outra forma equivocada de explicar “adequação linguística” é afirmar que, “assim como ninguém vai a um casamento de biquíni”, não se pode aprovar certos usos gramaticais em determinadas circunstâncias. Uma pessoa minimamente educada não vai a um casamento de biquíni, mas fala “eu vi ele ontem”, “teve baile ontem”, entre outras formas da gramática brasileira. Só um falante escolarizado ou com um longo contato com a leitura, portanto muito treinado, é capaz de monitorar sua fala a tal ponto de conseguir fazer essa “mudança de gramática”, que não se confunde com o uso de gírias, palavrões ou expressões inadequadas a determinados contextos.
Portanto, é preciso ter muito cuidado com os exemplos que confundem adequação de linguagem (no sentido de cortesia, boa educação, se o momento pede, ou desembaraço, desabafo, irreverência, se o momento é descontraído) com mudança de gramática. Melhor seria, pois, abandonar o termo adequação, substituindo-o por mudança de gramática. E qualquer falante, com ou sem escolaridade, sabe se comportar de acordo com o contexto embora não possa mudar de gramática, o que não o torna “inadequado”.
Adaptado de DUARTE, M. E. L.; SERRA, C. R. S. Gramática(s), ensino de português e “adequação linguística”. Matraga, Rio de Janeiro, v. 22, nº 36, jan./jun. 2015.
Com base no 3º parágrafo, transcrito abaixo, responda à questão.
O contato com a escola e a leitura, caso o indivíduo tenha essa oportunidade, pode viabilizar o contato com outras estruturas e levá-lo, através da “aprendizagem”, a utilizar formas que não fazem parte da sua língua interna, mas que podem aparecer quando ele escreve ou quando monitora/controla sua fala em situações mais formais.
No parágrafo, há uma oração condicional, a partir da qual é possível fazer a seguinte inferência acerca da escolarização básica:
Texto 1: Conceitos de Gramática
A palavra gramática sempre nos leva a pensar nos manuais utilizados na escola, cheios de regras e exceções. Este é realmente um tipo de gramática entre outros. Antes, porém, de pensarmos em gramática como um compêndio que traz algum tipo de informação sobre determinada língua, é preciso lembrar um conceito de gramática que se sobrepõe a todos os outros. É aquilo que se costuma chamar de gramática internalizada, cuja aquisição se dá de forma natural, durante a infância, à medida que a criança é exposta aos dados de sua língua materna no meio em que é criada.
Ao final do processo de aquisição, por volta dos cinco anos, a criança tem todos os valores de sua gramática fixados. Embora seu desempenho revele aspectos da fala que lhe serviu de fonte (de seus pais, parentes, cuidadores, etc., tais como supressões ou inserções de segmentos, como em “made[y]ra”, “do[w]ze”, “na[y]scimento”, “os menino[s]”, “eles me contou[contaram]”), todos adquirem as mesmas propriedades abstratas, no que se refere, por exemplo, à ordem dos constituintes dentro do sintagma nominal, dentro da oração, dentro do período; à constituição silábica; ao conjunto de melodias de sua língua; entre outros aspectos. Ninguém diz “menino o”; “você no viu cinema o João”; “o filme foi bom eu vi ontem que”. Todo falante do português rejeita essas estruturas, sabe que elas não são estruturas gramaticais, e esse conhecimento se constrói naturalmente.
O contato com a escola e a leitura, caso o indivíduo tenha essa oportunidade, pode viabilizar o contato com outras estruturas e levá-lo, através da “aprendizagem”, a utilizar formas que não fazem parte da sua língua interna, mas que podem aparecer quando ele escreve ou quando monitora/controla sua fala em situações mais formais.
Já os compêndios gramaticais apresentam um modelo de gramática que continua uma tradição gramatical europeia, pautada no modelo iniciado por gregos e continuado pelos romanos, que buscavam descrever a língua de sincronias mais antigas, que surgia em textos indecifráveis. Essas descrições eram feitas com base nos autores considerados “clássicos” e procuravam tomar como modelo de “bom uso” a gramática de sincronias anteriores. Essa tradição continuou durante a Idade Média, ainda que se renovando no Renascimento, quando as línguas vernáculas da România se impuseram naturalmente sobre o latim, mas a origem do modelo, a inspiração nos “clássicos”, nas sincronias mais antigas, perdurou.
Em geral, nos referimos a essas gramáticas chamadas “tradicionais” (justamente porque remontam a uma tradição milenar) como normativas, esquecendo que elas são igualmente descritivas. É fácil perceber quando o gramático deixa de “descrever” e passa a elencar as “normas”. Costuma-se cobrar das gramáticas mais antigas uma consistência teórica de que não se dispunha quando da sua preparação. Muitas delas, entretanto, têm sido reeditadas sem incorporar os avanços dos estudos linguísticos e sem atualizar os dados relativos ao uso normal da escrita.
Deixando de lado a descrição presente em nossas gramáticas tradicionais (sem esquecer que elas continuam a ser o ponto de partida das descrições linguísticas atuais) e voltando às normas que elas recomendam como reveladoras do bom uso da língua, é evidente que há uma imensa defasagem entre o que ali aparece e o que se pratica efetivamente na escrita contemporânea – seja porque algumas delas nunca fizeram parte da gramática do português do Brasil escrito, seja porque outras caíram em desuso, sendo substituídas por novos usos, novas normas. É preciso esclarecer um ponto: por escrita-padrão, entendem-se aqui as variedades de escrita veiculada em jornais e revistas de ampla circulação, em trabalhos acadêmicos, enfim a escrita produzida por indivíduos escolarizados e com contato frequente com a escrita. É preciso ainda lembrar que essa língua escrita não é uniforme. Embora em menor escala do que a fala, ela também apresenta significativa variação. E, a depender do gênero textual, muitos aspectos gramaticais da fala já ganham espaço na escrita.
Ao longo de todo o século XX, as diferenças entre fala e escrita eram atribuídas a uma oposição formal versus informal. Lembre-se de que os gramáticos que chegaram a ver o florescimento da linguística não estavam ainda convencidos da precedência da fala sobre a escrita. Isso criou uma grande distância entre fala e escrita, e só os indivíduos que passam pela escola podem aprender formas ausentes da “primeira gramática” e “mudar de gramática” em situações mais formais.
Isso tem sido confundido com adequação de linguagem, geralmente ilustrada com exemplos que mais se referem à polidez no tratamento, ao maior ou menor nível de educação do falante, do que propriamente à adequação. Um dos exemplos mais frequentes para os que desejam argumentar em favor da adequação linguística são as conversas depois de um jogo de futebol em oposição a uma comunicação num congresso. Colocam um indivíduo numa mesa de bar usando xingamentos para se referir ao juiz, naturalmente injusto com seu time por ter expulsado um jogador de campo. Ora, é óbvio que em qualquer lugar do mundo o torcedor faria o mesmo. Acontece que o exemplo dado no Brasil acompanha o xingamento ao juiz com um “mandou ele pra fora do campo” e atribui o uso de “ele” ao contexto informal. Na mesma situação, um indivíduo português, independentemente do seu nível de escolaridade, xingaria igualmente o juiz e acrescentaria, sem maiores problemas, “mandou-o para fora do campo”. Há aqui duas gramáticas diferentes: a do português do Brasil e a do português de Portugal.
Outra forma equivocada de explicar “adequação linguística” é afirmar que, “assim como ninguém vai a um casamento de biquíni”, não se pode aprovar certos usos gramaticais em determinadas circunstâncias. Uma pessoa minimamente educada não vai a um casamento de biquíni, mas fala “eu vi ele ontem”, “teve baile ontem”, entre outras formas da gramática brasileira. Só um falante escolarizado ou com um longo contato com a leitura, portanto muito treinado, é capaz de monitorar sua fala a tal ponto de conseguir fazer essa “mudança de gramática”, que não se confunde com o uso de gírias, palavrões ou expressões inadequadas a determinados contextos.
Portanto, é preciso ter muito cuidado com os exemplos que confundem adequação de linguagem (no sentido de cortesia, boa educação, se o momento pede, ou desembaraço, desabafo, irreverência, se o momento é descontraído) com mudança de gramática. Melhor seria, pois, abandonar o termo adequação, substituindo-o por mudança de gramática. E qualquer falante, com ou sem escolaridade, sabe se comportar de acordo com o contexto embora não possa mudar de gramática, o que não o torna “inadequado”.
Adaptado de DUARTE, M. E. L.; SERRA, C. R. S. Gramática(s), ensino de português e “adequação linguística”. Matraga, Rio de Janeiro, v. 22, nº 36, jan./jun. 2015.
Com base no 3º parágrafo, transcrito abaixo, responda à questão.
O contato com a escola e a leitura, caso o indivíduo tenha essa oportunidade, pode viabilizar o contato com outras estruturas e levá-lo, através da “aprendizagem”, a utilizar formas que não fazem parte da sua língua interna, mas que podem aparecer quando ele escreve ou quando monitora/controla sua fala em situações mais formais.
Nesse parágrafo, depreende-se uma função social da escolarização básica, em relação ao domínio linguístico, que pode ser sintetizada como:
Texto 1: Conceitos de Gramática
A palavra gramática sempre nos leva a pensar nos manuais utilizados na escola, cheios de regras e exceções. Este é realmente um tipo de gramática entre outros. Antes, porém, de pensarmos em gramática como um compêndio que traz algum tipo de informação sobre determinada língua, é preciso lembrar um conceito de gramática que se sobrepõe a todos os outros. É aquilo que se costuma chamar de gramática internalizada, cuja aquisição se dá de forma natural, durante a infância, à medida que a criança é exposta aos dados de sua língua materna no meio em que é criada.
Ao final do processo de aquisição, por volta dos cinco anos, a criança tem todos os valores de sua gramática fixados. Embora seu desempenho revele aspectos da fala que lhe serviu de fonte (de seus pais, parentes, cuidadores, etc., tais como supressões ou inserções de segmentos, como em “made[y]ra”, “do[w]ze”, “na[y]scimento”, “os menino[s]”, “eles me contou[contaram]”), todos adquirem as mesmas propriedades abstratas, no que se refere, por exemplo, à ordem dos constituintes dentro do sintagma nominal, dentro da oração, dentro do período; à constituição silábica; ao conjunto de melodias de sua língua; entre outros aspectos. Ninguém diz “menino o”; “você no viu cinema o João”; “o filme foi bom eu vi ontem que”. Todo falante do português rejeita essas estruturas, sabe que elas não são estruturas gramaticais, e esse conhecimento se constrói naturalmente.
O contato com a escola e a leitura, caso o indivíduo tenha essa oportunidade, pode viabilizar o contato com outras estruturas e levá-lo, através da “aprendizagem”, a utilizar formas que não fazem parte da sua língua interna, mas que podem aparecer quando ele escreve ou quando monitora/controla sua fala em situações mais formais.
Já os compêndios gramaticais apresentam um modelo de gramática que continua uma tradição gramatical europeia, pautada no modelo iniciado por gregos e continuado pelos romanos, que buscavam descrever a língua de sincronias mais antigas, que surgia em textos indecifráveis. Essas descrições eram feitas com base nos autores considerados “clássicos” e procuravam tomar como modelo de “bom uso” a gramática de sincronias anteriores. Essa tradição continuou durante a Idade Média, ainda que se renovando no Renascimento, quando as línguas vernáculas da România se impuseram naturalmente sobre o latim, mas a origem do modelo, a inspiração nos “clássicos”, nas sincronias mais antigas, perdurou.
Em geral, nos referimos a essas gramáticas chamadas “tradicionais” (justamente porque remontam a uma tradição milenar) como normativas, esquecendo que elas são igualmente descritivas. É fácil perceber quando o gramático deixa de “descrever” e passa a elencar as “normas”. Costuma-se cobrar das gramáticas mais antigas uma consistência teórica de que não se dispunha quando da sua preparação. Muitas delas, entretanto, têm sido reeditadas sem incorporar os avanços dos estudos linguísticos e sem atualizar os dados relativos ao uso normal da escrita.
Deixando de lado a descrição presente em nossas gramáticas tradicionais (sem esquecer que elas continuam a ser o ponto de partida das descrições linguísticas atuais) e voltando às normas que elas recomendam como reveladoras do bom uso da língua, é evidente que há uma imensa defasagem entre o que ali aparece e o que se pratica efetivamente na escrita contemporânea – seja porque algumas delas nunca fizeram parte da gramática do português do Brasil escrito, seja porque outras caíram em desuso, sendo substituídas por novos usos, novas normas. É preciso esclarecer um ponto: por escrita-padrão, entendem-se aqui as variedades de escrita veiculada em jornais e revistas de ampla circulação, em trabalhos acadêmicos, enfim a escrita produzida por indivíduos escolarizados e com contato frequente com a escrita. É preciso ainda lembrar que essa língua escrita não é uniforme. Embora em menor escala do que a fala, ela também apresenta significativa variação. E, a depender do gênero textual, muitos aspectos gramaticais da fala já ganham espaço na escrita.
Ao longo de todo o século XX, as diferenças entre fala e escrita eram atribuídas a uma oposição formal versus informal. Lembre-se de que os gramáticos que chegaram a ver o florescimento da linguística não estavam ainda convencidos da precedência da fala sobre a escrita. Isso criou uma grande distância entre fala e escrita, e só os indivíduos que passam pela escola podem aprender formas ausentes da “primeira gramática” e “mudar de gramática” em situações mais formais.
Isso tem sido confundido com adequação de linguagem, geralmente ilustrada com exemplos que mais se referem à polidez no tratamento, ao maior ou menor nível de educação do falante, do que propriamente à adequação. Um dos exemplos mais frequentes para os que desejam argumentar em favor da adequação linguística são as conversas depois de um jogo de futebol em oposição a uma comunicação num congresso. Colocam um indivíduo numa mesa de bar usando xingamentos para se referir ao juiz, naturalmente injusto com seu time por ter expulsado um jogador de campo. Ora, é óbvio que em qualquer lugar do mundo o torcedor faria o mesmo. Acontece que o exemplo dado no Brasil acompanha o xingamento ao juiz com um “mandou ele pra fora do campo” e atribui o uso de “ele” ao contexto informal. Na mesma situação, um indivíduo português, independentemente do seu nível de escolaridade, xingaria igualmente o juiz e acrescentaria, sem maiores problemas, “mandou-o para fora do campo”. Há aqui duas gramáticas diferentes: a do português do Brasil e a do português de Portugal.
Outra forma equivocada de explicar “adequação linguística” é afirmar que, “assim como ninguém vai a um casamento de biquíni”, não se pode aprovar certos usos gramaticais em determinadas circunstâncias. Uma pessoa minimamente educada não vai a um casamento de biquíni, mas fala “eu vi ele ontem”, “teve baile ontem”, entre outras formas da gramática brasileira. Só um falante escolarizado ou com um longo contato com a leitura, portanto muito treinado, é capaz de monitorar sua fala a tal ponto de conseguir fazer essa “mudança de gramática”, que não se confunde com o uso de gírias, palavrões ou expressões inadequadas a determinados contextos.
Portanto, é preciso ter muito cuidado com os exemplos que confundem adequação de linguagem (no sentido de cortesia, boa educação, se o momento pede, ou desembaraço, desabafo, irreverência, se o momento é descontraído) com mudança de gramática. Melhor seria, pois, abandonar o termo adequação, substituindo-o por mudança de gramática. E qualquer falante, com ou sem escolaridade, sabe se comportar de acordo com o contexto embora não possa mudar de gramática, o que não o torna “inadequado”.
Adaptado de DUARTE, M. E. L.; SERRA, C. R. S. Gramática(s), ensino de português e “adequação linguística”. Matraga, Rio de Janeiro, v. 22, nº 36, jan./jun. 2015.
Texto 1: Conceitos de Gramática
A palavra gramática sempre nos leva a pensar nos manuais utilizados na escola, cheios de regras e exceções. Este é realmente um tipo de gramática entre outros. Antes, porém, de pensarmos em gramática como um compêndio que traz algum tipo de informação sobre determinada língua, é preciso lembrar um conceito de gramática que se sobrepõe a todos os outros. É aquilo que se costuma chamar de gramática internalizada, cuja aquisição se dá de forma natural, durante a infância, à medida que a criança é exposta aos dados de sua língua materna no meio em que é criada.
Ao final do processo de aquisição, por volta dos cinco anos, a criança tem todos os valores de sua gramática fixados. Embora seu desempenho revele aspectos da fala que lhe serviu de fonte (de seus pais, parentes, cuidadores, etc., tais como supressões ou inserções de segmentos, como em “made[y]ra”, “do[w]ze”, “na[y]scimento”, “os menino[s]”, “eles me contou[contaram]”), todos adquirem as mesmas propriedades abstratas, no que se refere, por exemplo, à ordem dos constituintes dentro do sintagma nominal, dentro da oração, dentro do período; à constituição silábica; ao conjunto de melodias de sua língua; entre outros aspectos. Ninguém diz “menino o”; “você no viu cinema o João”; “o filme foi bom eu vi ontem que”. Todo falante do português rejeita essas estruturas, sabe que elas não são estruturas gramaticais, e esse conhecimento se constrói naturalmente.
O contato com a escola e a leitura, caso o indivíduo tenha essa oportunidade, pode viabilizar o contato com outras estruturas e levá-lo, através da “aprendizagem”, a utilizar formas que não fazem parte da sua língua interna, mas que podem aparecer quando ele escreve ou quando monitora/controla sua fala em situações mais formais.
Já os compêndios gramaticais apresentam um modelo de gramática que continua uma tradição gramatical europeia, pautada no modelo iniciado por gregos e continuado pelos romanos, que buscavam descrever a língua de sincronias mais antigas, que surgia em textos indecifráveis. Essas descrições eram feitas com base nos autores considerados “clássicos” e procuravam tomar como modelo de “bom uso” a gramática de sincronias anteriores. Essa tradição continuou durante a Idade Média, ainda que se renovando no Renascimento, quando as línguas vernáculas da România se impuseram naturalmente sobre o latim, mas a origem do modelo, a inspiração nos “clássicos”, nas sincronias mais antigas, perdurou.
Em geral, nos referimos a essas gramáticas chamadas “tradicionais” (justamente porque remontam a uma tradição milenar) como normativas, esquecendo que elas são igualmente descritivas. É fácil perceber quando o gramático deixa de “descrever” e passa a elencar as “normas”. Costuma-se cobrar das gramáticas mais antigas uma consistência teórica de que não se dispunha quando da sua preparação. Muitas delas, entretanto, têm sido reeditadas sem incorporar os avanços dos estudos linguísticos e sem atualizar os dados relativos ao uso normal da escrita.
Deixando de lado a descrição presente em nossas gramáticas tradicionais (sem esquecer que elas continuam a ser o ponto de partida das descrições linguísticas atuais) e voltando às normas que elas recomendam como reveladoras do bom uso da língua, é evidente que há uma imensa defasagem entre o que ali aparece e o que se pratica efetivamente na escrita contemporânea – seja porque algumas delas nunca fizeram parte da gramática do português do Brasil escrito, seja porque outras caíram em desuso, sendo substituídas por novos usos, novas normas. É preciso esclarecer um ponto: por escrita-padrão, entendem-se aqui as variedades de escrita veiculada em jornais e revistas de ampla circulação, em trabalhos acadêmicos, enfim a escrita produzida por indivíduos escolarizados e com contato frequente com a escrita. É preciso ainda lembrar que essa língua escrita não é uniforme. Embora em menor escala do que a fala, ela também apresenta significativa variação. E, a depender do gênero textual, muitos aspectos gramaticais da fala já ganham espaço na escrita.
Ao longo de todo o século XX, as diferenças entre fala e escrita eram atribuídas a uma oposição formal versus informal. Lembre-se de que os gramáticos que chegaram a ver o florescimento da linguística não estavam ainda convencidos da precedência da fala sobre a escrita. Isso criou uma grande distância entre fala e escrita, e só os indivíduos que passam pela escola podem aprender formas ausentes da “primeira gramática” e “mudar de gramática” em situações mais formais.
Isso tem sido confundido com adequação de linguagem, geralmente ilustrada com exemplos que mais se referem à polidez no tratamento, ao maior ou menor nível de educação do falante, do que propriamente à adequação. Um dos exemplos mais frequentes para os que desejam argumentar em favor da adequação linguística são as conversas depois de um jogo de futebol em oposição a uma comunicação num congresso. Colocam um indivíduo numa mesa de bar usando xingamentos para se referir ao juiz, naturalmente injusto com seu time por ter expulsado um jogador de campo. Ora, é óbvio que em qualquer lugar do mundo o torcedor faria o mesmo. Acontece que o exemplo dado no Brasil acompanha o xingamento ao juiz com um “mandou ele pra fora do campo” e atribui o uso de “ele” ao contexto informal. Na mesma situação, um indivíduo português, independentemente do seu nível de escolaridade, xingaria igualmente o juiz e acrescentaria, sem maiores problemas, “mandou-o para fora do campo”. Há aqui duas gramáticas diferentes: a do português do Brasil e a do português de Portugal.
Outra forma equivocada de explicar “adequação linguística” é afirmar que, “assim como ninguém vai a um casamento de biquíni”, não se pode aprovar certos usos gramaticais em determinadas circunstâncias. Uma pessoa minimamente educada não vai a um casamento de biquíni, mas fala “eu vi ele ontem”, “teve baile ontem”, entre outras formas da gramática brasileira. Só um falante escolarizado ou com um longo contato com a leitura, portanto muito treinado, é capaz de monitorar sua fala a tal ponto de conseguir fazer essa “mudança de gramática”, que não se confunde com o uso de gírias, palavrões ou expressões inadequadas a determinados contextos.
Portanto, é preciso ter muito cuidado com os exemplos que confundem adequação de linguagem (no sentido de cortesia, boa educação, se o momento pede, ou desembaraço, desabafo, irreverência, se o momento é descontraído) com mudança de gramática. Melhor seria, pois, abandonar o termo adequação, substituindo-o por mudança de gramática. E qualquer falante, com ou sem escolaridade, sabe se comportar de acordo com o contexto embora não possa mudar de gramática, o que não o torna “inadequado”.
Adaptado de DUARTE, M. E. L.; SERRA, C. R. S. Gramática(s), ensino de português e “adequação linguística”. Matraga, Rio de Janeiro, v. 22, nº 36, jan./jun. 2015.
“made[y]ra”, “do[w]ze”, “na[y]scimento”, “os menino[s]”, “eles me contou[contaram]” (2º parágrafo)
Os exemplos apresentados acima se relacionam com um aspecto constitutivo do uso linguagem humana denominado:
Texto 1: Conceitos de Gramática
A palavra gramática sempre nos leva a pensar nos manuais utilizados na escola, cheios de regras e exceções. Este é realmente um tipo de gramática entre outros. Antes, porém, de pensarmos em gramática como um compêndio que traz algum tipo de informação sobre determinada língua, é preciso lembrar um conceito de gramática que se sobrepõe a todos os outros. É aquilo que se costuma chamar de gramática internalizada, cuja aquisição se dá de forma natural, durante a infância, à medida que a criança é exposta aos dados de sua língua materna no meio em que é criada.
Ao final do processo de aquisição, por volta dos cinco anos, a criança tem todos os valores de sua gramática fixados. Embora seu desempenho revele aspectos da fala que lhe serviu de fonte (de seus pais, parentes, cuidadores, etc., tais como supressões ou inserções de segmentos, como em “made[y]ra”, “do[w]ze”, “na[y]scimento”, “os menino[s]”, “eles me contou[contaram]”), todos adquirem as mesmas propriedades abstratas, no que se refere, por exemplo, à ordem dos constituintes dentro do sintagma nominal, dentro da oração, dentro do período; à constituição silábica; ao conjunto de melodias de sua língua; entre outros aspectos. Ninguém diz “menino o”; “você no viu cinema o João”; “o filme foi bom eu vi ontem que”. Todo falante do português rejeita essas estruturas, sabe que elas não são estruturas gramaticais, e esse conhecimento se constrói naturalmente.
O contato com a escola e a leitura, caso o indivíduo tenha essa oportunidade, pode viabilizar o contato com outras estruturas e levá-lo, através da “aprendizagem”, a utilizar formas que não fazem parte da sua língua interna, mas que podem aparecer quando ele escreve ou quando monitora/controla sua fala em situações mais formais.
Já os compêndios gramaticais apresentam um modelo de gramática que continua uma tradição gramatical europeia, pautada no modelo iniciado por gregos e continuado pelos romanos, que buscavam descrever a língua de sincronias mais antigas, que surgia em textos indecifráveis. Essas descrições eram feitas com base nos autores considerados “clássicos” e procuravam tomar como modelo de “bom uso” a gramática de sincronias anteriores. Essa tradição continuou durante a Idade Média, ainda que se renovando no Renascimento, quando as línguas vernáculas da România se impuseram naturalmente sobre o latim, mas a origem do modelo, a inspiração nos “clássicos”, nas sincronias mais antigas, perdurou.
Em geral, nos referimos a essas gramáticas chamadas “tradicionais” (justamente porque remontam a uma tradição milenar) como normativas, esquecendo que elas são igualmente descritivas. É fácil perceber quando o gramático deixa de “descrever” e passa a elencar as “normas”. Costuma-se cobrar das gramáticas mais antigas uma consistência teórica de que não se dispunha quando da sua preparação. Muitas delas, entretanto, têm sido reeditadas sem incorporar os avanços dos estudos linguísticos e sem atualizar os dados relativos ao uso normal da escrita.
Deixando de lado a descrição presente em nossas gramáticas tradicionais (sem esquecer que elas continuam a ser o ponto de partida das descrições linguísticas atuais) e voltando às normas que elas recomendam como reveladoras do bom uso da língua, é evidente que há uma imensa defasagem entre o que ali aparece e o que se pratica efetivamente na escrita contemporânea – seja porque algumas delas nunca fizeram parte da gramática do português do Brasil escrito, seja porque outras caíram em desuso, sendo substituídas por novos usos, novas normas. É preciso esclarecer um ponto: por escrita-padrão, entendem-se aqui as variedades de escrita veiculada em jornais e revistas de ampla circulação, em trabalhos acadêmicos, enfim a escrita produzida por indivíduos escolarizados e com contato frequente com a escrita. É preciso ainda lembrar que essa língua escrita não é uniforme. Embora em menor escala do que a fala, ela também apresenta significativa variação. E, a depender do gênero textual, muitos aspectos gramaticais da fala já ganham espaço na escrita.
Ao longo de todo o século XX, as diferenças entre fala e escrita eram atribuídas a uma oposição formal versus informal. Lembre-se de que os gramáticos que chegaram a ver o florescimento da linguística não estavam ainda convencidos da precedência da fala sobre a escrita. Isso criou uma grande distância entre fala e escrita, e só os indivíduos que passam pela escola podem aprender formas ausentes da “primeira gramática” e “mudar de gramática” em situações mais formais.
Isso tem sido confundido com adequação de linguagem, geralmente ilustrada com exemplos que mais se referem à polidez no tratamento, ao maior ou menor nível de educação do falante, do que propriamente à adequação. Um dos exemplos mais frequentes para os que desejam argumentar em favor da adequação linguística são as conversas depois de um jogo de futebol em oposição a uma comunicação num congresso. Colocam um indivíduo numa mesa de bar usando xingamentos para se referir ao juiz, naturalmente injusto com seu time por ter expulsado um jogador de campo. Ora, é óbvio que em qualquer lugar do mundo o torcedor faria o mesmo. Acontece que o exemplo dado no Brasil acompanha o xingamento ao juiz com um “mandou ele pra fora do campo” e atribui o uso de “ele” ao contexto informal. Na mesma situação, um indivíduo português, independentemente do seu nível de escolaridade, xingaria igualmente o juiz e acrescentaria, sem maiores problemas, “mandou-o para fora do campo”. Há aqui duas gramáticas diferentes: a do português do Brasil e a do português de Portugal.
Outra forma equivocada de explicar “adequação linguística” é afirmar que, “assim como ninguém vai a um casamento de biquíni”, não se pode aprovar certos usos gramaticais em determinadas circunstâncias. Uma pessoa minimamente educada não vai a um casamento de biquíni, mas fala “eu vi ele ontem”, “teve baile ontem”, entre outras formas da gramática brasileira. Só um falante escolarizado ou com um longo contato com a leitura, portanto muito treinado, é capaz de monitorar sua fala a tal ponto de conseguir fazer essa “mudança de gramática”, que não se confunde com o uso de gírias, palavrões ou expressões inadequadas a determinados contextos.
Portanto, é preciso ter muito cuidado com os exemplos que confundem adequação de linguagem (no sentido de cortesia, boa educação, se o momento pede, ou desembaraço, desabafo, irreverência, se o momento é descontraído) com mudança de gramática. Melhor seria, pois, abandonar o termo adequação, substituindo-o por mudança de gramática. E qualquer falante, com ou sem escolaridade, sabe se comportar de acordo com o contexto embora não possa mudar de gramática, o que não o torna “inadequado”.
Adaptado de DUARTE, M. E. L.; SERRA, C. R. S. Gramática(s), ensino de português e “adequação linguística”. Matraga, Rio de Janeiro, v. 22, nº 36, jan./jun. 2015.
Texto 1: Conceitos de Gramática
A palavra gramática sempre nos leva a pensar nos manuais utilizados na escola, cheios de regras e exceções. Este é realmente um tipo de gramática entre outros. Antes, porém, de pensarmos em gramática como um compêndio que traz algum tipo de informação sobre determinada língua, é preciso lembrar um conceito de gramática que se sobrepõe a todos os outros. É aquilo que se costuma chamar de gramática internalizada, cuja aquisição se dá de forma natural, durante a infância, à medida que a criança é exposta aos dados de sua língua materna no meio em que é criada.
Ao final do processo de aquisição, por volta dos cinco anos, a criança tem todos os valores de sua gramática fixados. Embora seu desempenho revele aspectos da fala que lhe serviu de fonte (de seus pais, parentes, cuidadores, etc., tais como supressões ou inserções de segmentos, como em “made[y]ra”, “do[w]ze”, “na[y]scimento”, “os menino[s]”, “eles me contou[contaram]”), todos adquirem as mesmas propriedades abstratas, no que se refere, por exemplo, à ordem dos constituintes dentro do sintagma nominal, dentro da oração, dentro do período; à constituição silábica; ao conjunto de melodias de sua língua; entre outros aspectos. Ninguém diz “menino o”; “você no viu cinema o João”; “o filme foi bom eu vi ontem que”. Todo falante do português rejeita essas estruturas, sabe que elas não são estruturas gramaticais, e esse conhecimento se constrói naturalmente.
O contato com a escola e a leitura, caso o indivíduo tenha essa oportunidade, pode viabilizar o contato com outras estruturas e levá-lo, através da “aprendizagem”, a utilizar formas que não fazem parte da sua língua interna, mas que podem aparecer quando ele escreve ou quando monitora/controla sua fala em situações mais formais.
Já os compêndios gramaticais apresentam um modelo de gramática que continua uma tradição gramatical europeia, pautada no modelo iniciado por gregos e continuado pelos romanos, que buscavam descrever a língua de sincronias mais antigas, que surgia em textos indecifráveis. Essas descrições eram feitas com base nos autores considerados “clássicos” e procuravam tomar como modelo de “bom uso” a gramática de sincronias anteriores. Essa tradição continuou durante a Idade Média, ainda que se renovando no Renascimento, quando as línguas vernáculas da România se impuseram naturalmente sobre o latim, mas a origem do modelo, a inspiração nos “clássicos”, nas sincronias mais antigas, perdurou.
Em geral, nos referimos a essas gramáticas chamadas “tradicionais” (justamente porque remontam a uma tradição milenar) como normativas, esquecendo que elas são igualmente descritivas. É fácil perceber quando o gramático deixa de “descrever” e passa a elencar as “normas”. Costuma-se cobrar das gramáticas mais antigas uma consistência teórica de que não se dispunha quando da sua preparação. Muitas delas, entretanto, têm sido reeditadas sem incorporar os avanços dos estudos linguísticos e sem atualizar os dados relativos ao uso normal da escrita.
Deixando de lado a descrição presente em nossas gramáticas tradicionais (sem esquecer que elas continuam a ser o ponto de partida das descrições linguísticas atuais) e voltando às normas que elas recomendam como reveladoras do bom uso da língua, é evidente que há uma imensa defasagem entre o que ali aparece e o que se pratica efetivamente na escrita contemporânea – seja porque algumas delas nunca fizeram parte da gramática do português do Brasil escrito, seja porque outras caíram em desuso, sendo substituídas por novos usos, novas normas. É preciso esclarecer um ponto: por escrita-padrão, entendem-se aqui as variedades de escrita veiculada em jornais e revistas de ampla circulação, em trabalhos acadêmicos, enfim a escrita produzida por indivíduos escolarizados e com contato frequente com a escrita. É preciso ainda lembrar que essa língua escrita não é uniforme. Embora em menor escala do que a fala, ela também apresenta significativa variação. E, a depender do gênero textual, muitos aspectos gramaticais da fala já ganham espaço na escrita.
Ao longo de todo o século XX, as diferenças entre fala e escrita eram atribuídas a uma oposição formal versus informal. Lembre-se de que os gramáticos que chegaram a ver o florescimento da linguística não estavam ainda convencidos da precedência da fala sobre a escrita. Isso criou uma grande distância entre fala e escrita, e só os indivíduos que passam pela escola podem aprender formas ausentes da “primeira gramática” e “mudar de gramática” em situações mais formais.
Isso tem sido confundido com adequação de linguagem, geralmente ilustrada com exemplos que mais se referem à polidez no tratamento, ao maior ou menor nível de educação do falante, do que propriamente à adequação. Um dos exemplos mais frequentes para os que desejam argumentar em favor da adequação linguística são as conversas depois de um jogo de futebol em oposição a uma comunicação num congresso. Colocam um indivíduo numa mesa de bar usando xingamentos para se referir ao juiz, naturalmente injusto com seu time por ter expulsado um jogador de campo. Ora, é óbvio que em qualquer lugar do mundo o torcedor faria o mesmo. Acontece que o exemplo dado no Brasil acompanha o xingamento ao juiz com um “mandou ele pra fora do campo” e atribui o uso de “ele” ao contexto informal. Na mesma situação, um indivíduo português, independentemente do seu nível de escolaridade, xingaria igualmente o juiz e acrescentaria, sem maiores problemas, “mandou-o para fora do campo”. Há aqui duas gramáticas diferentes: a do português do Brasil e a do português de Portugal.
Outra forma equivocada de explicar “adequação linguística” é afirmar que, “assim como ninguém vai a um casamento de biquíni”, não se pode aprovar certos usos gramaticais em determinadas circunstâncias. Uma pessoa minimamente educada não vai a um casamento de biquíni, mas fala “eu vi ele ontem”, “teve baile ontem”, entre outras formas da gramática brasileira. Só um falante escolarizado ou com um longo contato com a leitura, portanto muito treinado, é capaz de monitorar sua fala a tal ponto de conseguir fazer essa “mudança de gramática”, que não se confunde com o uso de gírias, palavrões ou expressões inadequadas a determinados contextos.
Portanto, é preciso ter muito cuidado com os exemplos que confundem adequação de linguagem (no sentido de cortesia, boa educação, se o momento pede, ou desembaraço, desabafo, irreverência, se o momento é descontraído) com mudança de gramática. Melhor seria, pois, abandonar o termo adequação, substituindo-o por mudança de gramática. E qualquer falante, com ou sem escolaridade, sabe se comportar de acordo com o contexto embora não possa mudar de gramática, o que não o torna “inadequado”.
Adaptado de DUARTE, M. E. L.; SERRA, C. R. S. Gramática(s), ensino de português e “adequação linguística”. Matraga, Rio de Janeiro, v. 22, nº 36, jan./jun. 2015.
A palavra gramática sempre nos leva a pensar nos manuais utilizados na escola, cheios de regras e exceções. (1º parágrafo)
Na introdução do texto, a formulação da frase acima serve de base para o uso do seguinte procedimento de apresentação de um ponto de vista, pelas autoras, acerca dos conceitos de gramática:
I.Envolve os procedimentos e estratégias (meta)cognitivas de análise e avaliação consciente, durante os processos de leitura e de produção de textos, das materialidades dos textos, responsáveis por seus efeitos de sentido, seja no que se refere às formas de composição dos textos, determinadas pelos gêneros e pela situação de produção, seja no que se refere aos estilos adotados nos textos, com forte impacto nos efeitos de sentido.
II.No que diz respeito à linguagem verbal oral e escrita, as formas de composição dos textos dizem respeito à coesão, coerência e organização da progressão temática dos textos, influenciadas pela organização típica (forma de composição) do gênero em questão.
III.No que tange ao estilo, serão levadas em conta as escolhas de léxico e de variedade linguística ou estilização e alguns mecanismos sintáticos e morfológicos, de acordo com a situação de produção, a forma e o estilo de gênero.
Sobre a análise linguística/semiótica no ensino de Língua Portuguesa no Ensino Fundamental, está correto o que se apresenta em:
I.Refletir sobre diferentes contextos e situações sociais em que se produzem textos orais e sobre as diferenças em termos formais, estilísticos e linguísticos que esses contextos determinam, incluindo-se aí a multimodalidade e a multissemiose.
II.Conhecer e refletir sobre as tradições orais e seus gêneros, considerando-se as práticas sociais em que tais textos surgem e se perpetuam, bem como os sentidos que geram.
III.Proceder a uma escuta crítica, voltada para questões relativas ao contexto de produção dos textos, para o conteúdo em questão, para a observação de estratégias discursivas e dos recursos linguísticos utilizados pelos colegas, a fim de construir senso crítico a respeito de suas próprias manifestações textuais orais.
IV.Produzir textos pertencentes a gêneros orais, preferencialmente aqueles do âmbito persuasivo-argumentativo, a fim de que desenvolvam habilidades de persuasão e de argumentação.
É correto o que se apresenta em:
(__)Selecionar procedimentos de leitura adequados a diferentes objetivos e interesses, levando em conta características do gênero e suporte do texto, de forma a realizar uma leitura autônoma sobre temas familiares.
(__)Estabelecer relações entre o texto e conhecimentos prévios, vivências, valores e crenças.
(__)Identificar ou selecionar, em função do contexto de ocorrência, a acepção mais adequada de um vocábulo ou expressão.
(__)Buscar, localizar, selecionar e analisar estruturas gramaticais estudadas anteriormente.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta:
I.Liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber.
II.Pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas.
III.Valorização da experiência extraescolar, sempre que ela se relacionar com o conteúdo. IV.Vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as práticas sociais.
É princípio do ensino previsto na LDB o que se apresenta em:
Assinale a alternativa que completa correta e respectivamente as lacunas do excerto:
As atividades humanas realizam-se nas práticas sociais, mediadas por diferentes linguagens. São práticas de linguagem por meio das quais as pessoas interagem consigo mesmas e com os outros, constituindo-se como sujeitos sociais, e, portanto, devem ser consideradas no processo ensino-aprendizagem dos estudantes:
Quando se fala em acesso, presume-se que está sendo considerado o fato de o indivíduo conseguir acessar o sistema de ensino, o que é garantido efetivamente pelo seu registro de matrícula em uma escola a partir dos marcos legais. A trajetória escolar diz respeito ao que ocorre com o estudante durante os anos de frequência à escola − se este é retido no mesmo ano escolar, se progride, se abandona a escola em algum momento, se retorna posteriormente ou não etc. A conclusão escolar, por sua vez, corresponde ao término de uma etapa da educação básica e deve ser acompanhada das aprendizagens esperadas, conforme a orientação curricular em vigor".
(Disponível em: https://www.gov.br/mec/pt-br/pne/documentos/diagnostico-educacao-na cional.pdf. Acesso em: 20 out. 2025.)
A respeito do acesso, da trajetória e da conclusão escolar no Ensino Fundamental, é possível concluir que:
I.Não se trata apenas de garantir vagas em escolas e acesso ao ensino, mas possibilitar que este ensino seja ofertado com qualidade e resulte em aprendizagem, de forma que o estudante tenha condições necessárias para permanecer na escola e finalizar com sucesso a educação básica.
II.O grande problema atual não é o acesso, mas a permanência desse estudante no sistema de ensino, a progressão com sucesso (o que significa aprovação ao final de cada ano letivo e promoção para o ano escolar subsequente) ao longo de sua trajetória na educação básica, e a conclusão das etapas de ensino nas idades adequadas, conforme prevê a legislação educacional.
III.A irregularidade nas trajetórias escolares dos estudantes ainda se constitui um grande desafio para que seja assegurada uma educação inclusiva, equitativa e de qualidade. Assim, a garantia da permanência dos estudantes na escola com trajetória regular e aprendizagem no nível adequado deve ser um dos objetivos centrais da educação nacional.
É correto o que se apresenta em:
I.A adequação aos contextos em que o texto foi produzido e ao modo (escrito ou oral, imagem estática ou em movimento etc.).
II.A adequação à variedade linguística e/ou semioses apropriadas a esse contexto.
III.Os enunciadores envolvidos, o gênero, o suporte, a esfera/campo de circulação, adequação à norma-padrão etc.
É correto o que se apresenta em:
I.O ato de ensinar implica promover a mediação intencional entre o conteúdo científico e as experiências socioculturais dos estudantes, visando à formação crítica e autônoma.
II.A garantia do domínio técnico do conteúdo disciplinar constitui objetivo suficiente da ação docente, assegurando rendimento mensurável e padronização dos processos de ensino.
III.A relação professor-aluno mantém sua centralidade no processo educativo, mesmo com a incorporação de tecnologias digitais como recursos didáticos complementares.
É correto o que se afirma em:
(__)O currículo é compreendido como construção histórica, cultural e política, expressando disputas de poder e valores que orientam as práticas escolares.
(__)A neutralidade científica do currículo garante sua universalidade, permitindo aplicação uniforme em diferentes contextos socioculturais.
(__)A didática articula-se organicamente ao currículo, constituindo dimensão metodológica que materializa as escolhas curriculares na prática pedagógica cotidiana.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta:
I.A regência nominal está correta em "restrito à agricultura" porque o adjetivo "restrito" é regido pela preposição "a" que se funde ao artigo definido que acompanha o substantivo "agricultura". Essa fusão é marcada pelo acento grave.
II.No trecho "têm acesso físico, social e econômico a alimentos suficientes", a preposição "a" estabelece corretamente a regência nominal do substantivo "acesso" nesse contexto.
III.O verbo "atender" é um verbo com regência mais flexível, podendo ser transitivo direto ou indireto, ou intransitivo. Assim, o uso ou não da preposição regendo o verbo dependerá do contexto, do sentido pretendido e, às vezes, da decisão do autor. É o que acontece em "atendam às necessidades e preferências", em que o verbo "atender" tem o sentido de "levar em conta", "ter em vista". Nesse contexto, está correta a regência da preposição "a", considerando-o transitivo indireto, mas também poderia ser transitivo direto (atendam as necessidades e preferências).
É correto o que se afirma em: