Foram encontradas 15.557 questões
Resolva questões gratuitamente!
Junte-se a mais de 4 milhões de concurseiros!
A arte de ser feliz
Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz.
Houve um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? Quem as comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las? Eu não era mais criança, porém a minha alma ficava completamente feliz.
Houve um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não podia ouvir, da altura da janela; e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, e às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz.
Houve um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma regra: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos: quase sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Às vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
(Cecília Meireles. Escolha o seu sonho. Rio de Janeiro.)
Podemos perceber, através das informações textuais, que as paisagens e os cenários vistos pelo narrador se alteram continuamente. Tal fato se dá pelo seguinte motivo:
A arte de ser feliz
Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz.
Houve um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? Quem as comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las? Eu não era mais criança, porém a minha alma ficava completamente feliz.
Houve um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não podia ouvir, da altura da janela; e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, e às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz.
Houve um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma regra: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos: quase sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Às vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
(Cecília Meireles. Escolha o seu sonho. Rio de Janeiro.)
Considerando as informações do 2º§ do texto, podemos perceber que a felicidade sentida pelo narrador:
Os equipamentos de proteção individual (EPI) e coletiva (EPC) são ferramentas usadas para prevenir danos à saúde dos trabalhadores. Alguns deles são de uso permanente no laboratório, a saber:
Com o objetivo de avaliar a variação de volume de hemácias, um experimentador realizou medidas do tamanho celular em uma amostra de dez células, obtendo os resultados apresentados a seguir.
Tamanho celular (µm)
12; 12; 10; 10; 9; 8; 13; 14; 9; 10 |
Diante desses resultados, tem-se que:
Leia as informações a seguir.
O projeto é uma das etapas componentes do processo de elaboração, execução e apresentação de uma pesquisa. Esta precisa ser planejada com extenso rigor, caso contrário o investigador pode encontrar-se perdido sem saber como analisar os dados coletados, ou mesmo até desconhecendo seu significado e importância. Desde a escolha do tema, fixação dos objetivos, determinação da metodologia, coleta dos dados, sua análise e interpretação para elaboração do relatório final, tudo deve ser previsto no projeto, este, portanto, deve responder às clássicas questões: Quem? O quê? Por quê? Para quê e para quem? Onde? Como, com quê, quanto e quando? Com quanto?
LAKATOS, E., M., Metodologia do trabalho científico: procedimentos básicos, pesquisa
bibliográfica, projeto e relatório, publicações e trabalhos científicos / M. A 6. ed. São
Paulo: Atlas, 2001. p. 99.
Em um projeto de pesquisa, qual é o item que responde à questão: “Por quê?” item esse considerado meio de aceitação do projeto pelas pessoas e instituições de fomento?
Leia o texto a seguir.
Os animais que ajudam a desvendar os mistérios da ciência merecem respeito e o melhor cuidado possível. Um animal bem tratado irá proporcionar resultados científicos mais confiáveis, o que deve ser o objetivo de todos os pesquisadores. O êxito dos trabalhos de pesquisa e a qualidade dos resultados experimentais dependem do conhecimento e treinamento do experimentador e de vários outros fatores, como animais saudáveis, manuseio correto dos animais, preocupação constante com o bem-estar da espécie envolvida, bem como evitar o uso desnecessário de animais.
GUIMARÃES, M.A. In: Princípios éticos e práticos do uso de animais de experimentação. São Paulo: Unifesp, 2004. p. 2. (Adaptado).
Desta forma, todos aqueles que utilizam animais na condução de pesquisa e ensino devem utilizar
A Lei n. 11.794/2008, em seu Art. 4, cria o Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea) e, em seu Artigo 7, estabelece que esse conselho será presidido pelo Ministro de Estado
No ciclo de vida da Leishmania sp., as formas encontradas no mosquito e nos macrófagos do organismo hospedeiro são, respectivamente:
São micro-organismos cuja transmissão pode ocorrer por via sexual
Na mitocôndria, o elétron que percorrerá a cadeia transportadora de elétrons é doado pela
O sistema mononuclear fagocitário ou retículoendotelial é constituído por células situadas em diferentes tecidos do organismo. No fígado, as células pertencentes a esse sistema são denominadas de
Ao comparar as estruturas subcelulares de uma célula bacteriana com uma célula vegetal e uma célula animal, as estruturas que são comuns as três células são:
Quantos gramas (g) de bissulfato de sódio (NaHSO4) devem ser dissolvidos para preparar uma solução de 0,5 mol em um volume de 100 mL?
Os indicadores ácido-base são substâncias que mudam sua coloração de acordo com o pH do meio e são utilizadas, dentre outros, em experimentos de titulação. A substância que é incolor em meio ácido e, em meio básico, é rosacarmim (avermelhada) é:
Em relação ao Meio Ambiente, a Constituição Federal do Brasil instituiu que:
As películas além de maior privacidade, oferecem ao condutor e passageiros conforto contra a luminosidade, proteção do calor e da emissão dos raios solares. Porém, a resolução nº 254/2007, do Conselho Nacional de Trânsito – CONTRAN, estabelece que:
A Sinalização de trânsito horizontal é aquela executada sobre o pavimento de uma via para o controle, advertência e orientação ou informação do usuário. A sinalização horizontal na cor branca é utilizada para:
O condutor de veículo ao acessar uma estrada, conforme o Código de Trânsito Brasileiro, está em uma via:
AS QUESTÕES DE 1 A 15 ESTÃO RELACIONADAS AO TEXTO ABAIXO
TEXTO
1 [...] Cientistas, intelectuais e cientistas sociais esperavam que o avanço da ciência moderna incentivaria a
2 secularização – que a ciência seria uma força da secularização. Mas isso simplesmente não vem acontecendo. As
3 características principais que as sociedades em que a religião continua forte têm em comum estão ligadas menos à
4 ciência do que a sentimentos de segurança existencial e proteção contra algumas das incertezas fundamentais da vida,
5 sob a forma de bens públicos.
6 Uma rede de seguridade social pode estar correlacionada a avanços científicos, mas apenas de maneira fraca,
7 e, mais uma vez, o caso dos Estados Unidos é instrutivo. Os EUA podem ser descritos como a sociedade científica e
8 tecnologicamente mais avançada do mundo, mas, ao mesmo tempo, é a mais religiosa das sociedades ocidentais. Como
9 concluiu o sociólogo britânico David Martin em "The Future of Christianity" (o futuro do cristianismo, 2011), "não
10 existe uma relação consistente entre o grau de avanço científico e um perfil reduzido de influência de crenças e práticas
11 religiosas".
12 A história da ciência e da secularização torna-se ainda mais intrigante quando refletimos sobre as sociedades
13 em que ocorreram reações importantes contra agendas secularistas.
14 O primeiro premiê da Índia, Jawaharlal Nehru (1889-1964), defendeu ideais seculares e científicos e incluiu a
15 educação científica no projeto de modernização do país. Nehru acreditava que as visões hindus de um passado védico
16 e ossonhos muçulmanos de uma teocracia islâmica sucumbiriam diante do avanço histórico inexorável da secularização.
17 "O tempo avança apenas em mão única", declarou. Mas, como atesta a subsequente ascensão dos
18 fundamentalismos hindu e islâmico, Nehru se equivocou. Além disso, a vinculação da ciência com uma agenda de
19 secularização teve efeito contrário ao desejado; uma das baixas colaterais da resistência ao secularismo foi a ciência.
20 [...]
21 Os Estados Unidos representam um contexto cultural diferente, onde pode parecer que a questão crucial é um
22 conflito entre as leituras literais do Livro de Gênesis e aspectos chaves da história da evolução. Na realidade, porém,
23 boa parte do discurso criacionista trata de valores morais. Também no caso dos EUA, vemos o antievolucionismo sendo
24 motivado, pelo menos em parte, pela ideia de que a teoria da evolução é um pretexto para a promoção do materialismo
25 secular e seus valores. Como acontece na Índia e na Turquia, o secularismo está, na realidade, prejudicando a ciência.
26 Para resumir, a secularização global não é inevitável, e, quando acontece, não é causada pela ciência. Além
27 disso, quando se procura usar a ciência para promover o secularismo, os resultados podem prejudicar a ciência. A tese
28 de que "a ciência causa secularização" não passa no teste empírico, e recrutar a ciência como instrumento de
29 secularização é uma estratégia que deixa a desejar. A combinação de ciência e secularização é tão inapta que levanta a
30 pergunta de por que alguém chegou a pensar que não fosse. [...]
31 Hoje as pessoas sentem menos certeza de que a história avança rumo a um destino único, passando por uma
32 série determinada de etapas. E, apesar da persistência popular da ideia de um conflito duradouro entre ciência e religião,
33 a maioria dos historiadores da ciência não defende essa visão.
34 Colisões renomadas, como o caso de Galileu, foram determinadas pela política e pelas personalidades
35 envolvidas, não apenas pela ciência e pela religião. Darwin teve defensores religiosos importantes e detratores
36 científicos, além de detratores religiosos e defensores científicos. Muitas outras supostas instâncias de conflito entre
37 ciência e religião foram expostas como sendo pura invenção.
38 Na realidade, contrariando o conflito, a norma histórica muitas vezes tem sido de apoio mútuo entre ciência e
39 religião. Em seus anos formativos, no século 17, a ciência moderna dependeu da legitimação religiosa. Nos séculos 18
40 e 19, a teologia natural ajudou a popularizar a ciência.
41 O modelo de conflito ciência-religião nos deu uma visão equivocada do passado e, quando somado a
42 expectativas de secularização, levou a uma visão falha do futuro. A teoria da secularização fracassou como descrição e
43 como previsão. A pergunta real é por que continuamos a nos deparar com proponentes do conflito entre ciência e
44 religião.
45 Muitos são cientistas renomados. Seria supérfluo repetir as reflexões de Richard Dawkins sobre esse tema, mas
46 ele está longe de ser uma voz solitária. Stephen Hawking acha que "a ciência vai sair ganhando porque ela funciona";
47 Sam Harris declarou que "a ciência precisa destruir a religião"; Stephen Weinberg pensa que a ciência enfraqueceu as
48 certezas religiosas; Colin Blakemore prevê que, com o tempo, a ciência acabará tornando a religião desnecessária. As
49 evidências históricas não fundamentam essas alegações. Na realidade, sugerem que elas são equivocadas.
50 Então por que elas persistem? As respostas são políticas. Deixando de lado qualquer apreço remanescente por
51 visões oitocentistas ultrapassadas da história, precisamos pensar no medo do fundamentalismo islâmico, na rejeição ao
52 criacionismo, na aversão às alianças entre a direita religiosa e a negação da mudança climática e nos temores de erosão
53 da autoridade científica. Podemos nos solidarizar com essas preocupações, mas não há como disfarçar o fato de que elas
54 nascem de uma intrusão indesejável de compromissos normativos na discussão.
55 O pensamento fantasioso, pautado pelo que se deseja – esperar que a ciência seja vitoriosa sobre a religião –
56 não substitui uma avaliação sóbria e refletida das realidades atuais. Levar essa defesa da causa da ciência adiante
57 provavelmente terá efeito oposto ao pretendido.
58 A religião não vai desaparecer no futuro próximo, e a ciência não vai destruí-la. Na realidade, é a ciência que
59 sofre ameaças crescentes à sua autoridade e legitimidade social. Em vista disso, a ciência precisa de todos os aliados
60 possíveis. Seus defensores fariam bem em parar de retratar a religião como sua inimiga ou de insistir que o único
61 caminho para um futuro seguro está no casamento entre ciência e secularismo.
POR PETER HARRISON - Tradução de CLARA ALLAIN. FONTE: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/09/1917894-a-religiao-nao-vai-desaparecer-e-a-ciencianao-vai-acabar-com-ela.shtml
Exerce a mesma função sintática de “relação” (L.10) o termo transcrito em
AS QUESTÕES DE 1 A 15 ESTÃO RELACIONADAS AO TEXTO ABAIXO
TEXTO
1 [...] Cientistas, intelectuais e cientistas sociais esperavam que o avanço da ciência moderna incentivaria a
2 secularização – que a ciência seria uma força da secularização. Mas isso simplesmente não vem acontecendo. As
3 características principais que as sociedades em que a religião continua forte têm em comum estão ligadas menos à
4 ciência do que a sentimentos de segurança existencial e proteção contra algumas das incertezas fundamentais da vida,
5 sob a forma de bens públicos.
6 Uma rede de seguridade social pode estar correlacionada a avanços científicos, mas apenas de maneira fraca,
7 e, mais uma vez, o caso dos Estados Unidos é instrutivo. Os EUA podem ser descritos como a sociedade científica e
8 tecnologicamente mais avançada do mundo, mas, ao mesmo tempo, é a mais religiosa das sociedades ocidentais. Como
9 concluiu o sociólogo britânico David Martin em "The Future of Christianity" (o futuro do cristianismo, 2011), "não
10 existe uma relação consistente entre o grau de avanço científico e um perfil reduzido de influência de crenças e práticas
11 religiosas".
12 A história da ciência e da secularização torna-se ainda mais intrigante quando refletimos sobre as sociedades
13 em que ocorreram reações importantes contra agendas secularistas.
14 O primeiro premiê da Índia, Jawaharlal Nehru (1889-1964), defendeu ideais seculares e científicos e incluiu a
15 educação científica no projeto de modernização do país. Nehru acreditava que as visões hindus de um passado védico
16 e ossonhos muçulmanos de uma teocracia islâmica sucumbiriam diante do avanço histórico inexorável da secularização.
17 "O tempo avança apenas em mão única", declarou. Mas, como atesta a subsequente ascensão dos
18 fundamentalismos hindu e islâmico, Nehru se equivocou. Além disso, a vinculação da ciência com uma agenda de
19 secularização teve efeito contrário ao desejado; uma das baixas colaterais da resistência ao secularismo foi a ciência.
20 [...]
21 Os Estados Unidos representam um contexto cultural diferente, onde pode parecer que a questão crucial é um
22 conflito entre as leituras literais do Livro de Gênesis e aspectos chaves da história da evolução. Na realidade, porém,
23 boa parte do discurso criacionista trata de valores morais. Também no caso dos EUA, vemos o antievolucionismo sendo
24 motivado, pelo menos em parte, pela ideia de que a teoria da evolução é um pretexto para a promoção do materialismo
25 secular e seus valores. Como acontece na Índia e na Turquia, o secularismo está, na realidade, prejudicando a ciência.
26 Para resumir, a secularização global não é inevitável, e, quando acontece, não é causada pela ciência. Além
27 disso, quando se procura usar a ciência para promover o secularismo, os resultados podem prejudicar a ciência. A tese
28 de que "a ciência causa secularização" não passa no teste empírico, e recrutar a ciência como instrumento de
29 secularização é uma estratégia que deixa a desejar. A combinação de ciência e secularização é tão inapta que levanta a
30 pergunta de por que alguém chegou a pensar que não fosse. [...]
31 Hoje as pessoas sentem menos certeza de que a história avança rumo a um destino único, passando por uma
32 série determinada de etapas. E, apesar da persistência popular da ideia de um conflito duradouro entre ciência e religião,
33 a maioria dos historiadores da ciência não defende essa visão.
34 Colisões renomadas, como o caso de Galileu, foram determinadas pela política e pelas personalidades
35 envolvidas, não apenas pela ciência e pela religião. Darwin teve defensores religiosos importantes e detratores
36 científicos, além de detratores religiosos e defensores científicos. Muitas outras supostas instâncias de conflito entre
37 ciência e religião foram expostas como sendo pura invenção.
38 Na realidade, contrariando o conflito, a norma histórica muitas vezes tem sido de apoio mútuo entre ciência e
39 religião. Em seus anos formativos, no século 17, a ciência moderna dependeu da legitimação religiosa. Nos séculos 18
40 e 19, a teologia natural ajudou a popularizar a ciência.
41 O modelo de conflito ciência-religião nos deu uma visão equivocada do passado e, quando somado a
42 expectativas de secularização, levou a uma visão falha do futuro. A teoria da secularização fracassou como descrição e
43 como previsão. A pergunta real é por que continuamos a nos deparar com proponentes do conflito entre ciência e
44 religião.
45 Muitos são cientistas renomados. Seria supérfluo repetir as reflexões de Richard Dawkins sobre esse tema, mas
46 ele está longe de ser uma voz solitária. Stephen Hawking acha que "a ciência vai sair ganhando porque ela funciona";
47 Sam Harris declarou que "a ciência precisa destruir a religião"; Stephen Weinberg pensa que a ciência enfraqueceu as
48 certezas religiosas; Colin Blakemore prevê que, com o tempo, a ciência acabará tornando a religião desnecessária. As
49 evidências históricas não fundamentam essas alegações. Na realidade, sugerem que elas são equivocadas.
50 Então por que elas persistem? As respostas são políticas. Deixando de lado qualquer apreço remanescente por
51 visões oitocentistas ultrapassadas da história, precisamos pensar no medo do fundamentalismo islâmico, na rejeição ao
52 criacionismo, na aversão às alianças entre a direita religiosa e a negação da mudança climática e nos temores de erosão
53 da autoridade científica. Podemos nos solidarizar com essas preocupações, mas não há como disfarçar o fato de que elas
54 nascem de uma intrusão indesejável de compromissos normativos na discussão.
55 O pensamento fantasioso, pautado pelo que se deseja – esperar que a ciência seja vitoriosa sobre a religião –
56 não substitui uma avaliação sóbria e refletida das realidades atuais. Levar essa defesa da causa da ciência adiante
57 provavelmente terá efeito oposto ao pretendido.
58 A religião não vai desaparecer no futuro próximo, e a ciência não vai destruí-la. Na realidade, é a ciência que
59 sofre ameaças crescentes à sua autoridade e legitimidade social. Em vista disso, a ciência precisa de todos os aliados
60 possíveis. Seus defensores fariam bem em parar de retratar a religião como sua inimiga ou de insistir que o único
61 caminho para um futuro seguro está no casamento entre ciência e secularismo.
POR PETER HARRISON - Tradução de CLARA ALLAIN. FONTE: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/09/1917894-a-religiao-nao-vai-desaparecer-e-a-ciencianao-vai-acabar-com-ela.shtml
I. “Mas isso simplesmente não vem acontecendo.” (L.2).
II. “Na realidade, porém, boa parte do discurso criacionista trata de valores morais.” (L.22/23).
Os conectivos em negrito, nos fragmentos em destaque, estabelecem, respectivamente, as relações de