O QUE É APOROFOBIA?
Não é de hoje que observo o trabalho social desenvolvido
pelo Padre Júlio Lancellotti, com a população em situação
de rua na maior cidade do país. Mas foram os tempos
pandêmicos que me fizeram prestar atenção na luta
travada por ele, cotidianamente, para servir os que
necessitam. De maneira muito amorosa, acolhe, alimenta e
cuida daqueles cuja vida não tem sido nada generosa. Padre
Júlio é inspiração num Brasil que acaba de retornar ao mapa
da fome e os direitos humanos seguem sendo, fortemente,
violados. O padre tem chamado a atenção e nos primeiros
dias de fevereiro de 2021 protagonizou um ato simbólico,
com marretadas arrancou as pedras que a prefeitura de São
Paulo havia colocado embaixo de um viaduto para impedir
que moradores de rua ocupassem o espaço. A velha e
conhecida “arquitetura da exclusão”.
Em três atos — as pedras, as marretadas e as flores — Padre
Júlio nos ensinou que mesmo cansado é preciso seguir em
frente, ser resiliente, se manter indignado com a opressão
e ser exemplo concreto de uma prática social que busque o
bem da coletividade. Depois que as imagens das
marretadas viralizaram na rede, me deparei com muitas
outras situações que provam que as pedras daquele viaduto
não são únicas e isoladas. Elas fazem parte de estratégias
políticas que buscam esconder aqueles que são
considerados indesejáveis para sociedade. O que os olhos
não veem, o coração não sente!
A prática de manter os pobres longe dos olhos tem larga
tradição no país e o ódio em relação aos despossuídos
agora tem nome — aporofobia. O termo criado pela filósofa
espanhola Adela Cortina traduz uma patologia social que se
manifesta na aversão a alguém que é percebido como
diferente. Em grego, a palavra á-poros significa “sem
recursos”, portanto, o termo significa “rejeição ou aversão
aos pobres”.
O preconceito e o ódio de classe não são invenções
modernas, fazem parte da nossa história e foram gestados
numa sociedade em que o racismo e a desigualdade são
componentes estruturais e permanentes, por isso é
imprescindível nos engajarmos em práticas combativas que
visem erradicar a pobreza e não eliminar os pobres. Porque
os olhos podem até não os ver, mas eles existem e os bons
corações sentem!
Antiella Carrijo Ramos https://www.neca.org.br/o-que-eaporofobia-confira-a-materia-escrita-por-nossa-associadaantiella-carrijo/noticias/