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TOADA DE TERNURA
Para Leonardo, um menino meu amigo
Meu companheiro menino,
perante o azul do teu dia,
trago sagradas primícias
de um reino que vai se erguer
de claridão e alegria.
É um reino que estava perto,
de repente ficou longe;
não faz mal, vamos andando,
porque lá é o nosso lugar.
Vamos remando, Leonardo,
porque é preciso chegar.
Teu remo ferindo a noite
vai construindo a manhã.
Na proa do teu navio,
chegaremos pelo mar.
Vamos andando, Leonardo.
Tu vais de estrela na mão,
tu vais levando o pendão,
Tu vais plantando ternuras
na madrugada do chão.
Meu companheiro menino,
neste reino serás homem,
um homem como teu pai.
Mas leva contigo a infância,
como uma rosa de flama
ardendo no coração:
porque é de infância, Leonardo,
que o mundo tem precisão.
(Thiago de Mello. Faz escuro mas eu canto. p. 27,28. Rio de Janeiro: Record, 1965)
Ao ler esta estrofe (2ª estrofe) e interpretá-la no contexto do poema, pode-se afirmar que:
“Devo considerar essa a sua resposta?”
Acerca da frase acima, pode-se afirmar que:
CAPÍTULO LIV
Saí dali a saborear o beijo. Não pude dormir; estireime na cama, é certo, mas foi o mesmo que nada. Ouvi as horas todas da noite. Usualmente, quando eu perdia o sono, o bater da pêndula fazia-me muito mal; esse tique-taque soturno, vagaroso e seco, parecia dizer a cada golpe que eu ia ter um instante menos de vida. Imaginava então um velho diabo, sentado entre dois sacos, o da vida e o da morte, a tirar as moedas da vida para dá-las à morte, e a contá-las assim:
— Outra de menos...
— Outra de menos...
— Outra de menos...
— Outra de menos...
O mais singular é que, se o relógio parava, eu
dava-lhe corda, para que ele não deixasse de bater
nunca, e eu pudesse contar todos os meus instantes
perdidos. Invenções há, que se transformam ou
acabam; as mesmas instituições morrem; o relógio
é definitivo e perpétuo; o derradeiro homem, ao
despedir-se do sol frio e gasto, há de ter um relógio
na algibeira, para saber a hora exata em que morre.
Naquela noite não padeci essa triste sensação
de enfado, mas outra, e deleitosa. As fantasias
tumultuavam-me cá dentro, vinham umas sobre
outras, à semelhança de devotas que se abalroam
para ver o anjo-cantor das procissões. Não ouvia
os instantes perdidos, mas os minutos ganhados;
de certo tempo em diante não ouvi coisa nenhuma,
porque o meu pensamento, ardiloso e traquinas,
saltou pela janela fora e bateu as asas na direção da
casa de Virgília. Aí achou ao peitoril de uma janela
o pensamento de Virgília, saudaram-se e ficaram
de palestra. Nós a rolarmos na cama, talvez com frio, necessitados de repouso, e os dois vadios ali
postos, a repetirem o velho diálogo de Adão e Eva.
(Machado de Assis. Memórias Póstumas de Brás
Cubas. 28 Ed. São Paulo: Ática, 2004, p. 84)
CAPÍTULO LIV
Saí dali a saborear o beijo. Não pude dormir; estireime na cama, é certo, mas foi o mesmo que nada. Ouvi as horas todas da noite. Usualmente, quando eu perdia o sono, o bater da pêndula fazia-me muito mal; esse tique-taque soturno, vagaroso e seco, parecia dizer a cada golpe que eu ia ter um instante menos de vida. Imaginava então um velho diabo, sentado entre dois sacos, o da vida e o da morte, a tirar as moedas da vida para dá-las à morte, e a contá-las assim:
— Outra de menos...
— Outra de menos...
— Outra de menos...
— Outra de menos...
O mais singular é que, se o relógio parava, eu
dava-lhe corda, para que ele não deixasse de bater
nunca, e eu pudesse contar todos os meus instantes
perdidos. Invenções há, que se transformam ou
acabam; as mesmas instituições morrem; o relógio
é definitivo e perpétuo; o derradeiro homem, ao
despedir-se do sol frio e gasto, há de ter um relógio
na algibeira, para saber a hora exata em que morre.
Naquela noite não padeci essa triste sensação
de enfado, mas outra, e deleitosa. As fantasias
tumultuavam-me cá dentro, vinham umas sobre
outras, à semelhança de devotas que se abalroam
para ver o anjo-cantor das procissões. Não ouvia
os instantes perdidos, mas os minutos ganhados;
de certo tempo em diante não ouvi coisa nenhuma,
porque o meu pensamento, ardiloso e traquinas,
saltou pela janela fora e bateu as asas na direção da
casa de Virgília. Aí achou ao peitoril de uma janela
o pensamento de Virgília, saudaram-se e ficaram
de palestra. Nós a rolarmos na cama, talvez com frio, necessitados de repouso, e os dois vadios ali
postos, a repetirem o velho diálogo de Adão e Eva.
(Machado de Assis. Memórias Póstumas de Brás
Cubas. 28 Ed. São Paulo: Ática, 2004, p. 84)
CAPÍTULO LIV
Saí dali a saborear o beijo. Não pude dormir; estireime na cama, é certo, mas foi o mesmo que nada. Ouvi as horas todas da noite. Usualmente, quando eu perdia o sono, o bater da pêndula fazia-me muito mal; esse tique-taque soturno, vagaroso e seco, parecia dizer a cada golpe que eu ia ter um instante menos de vida. Imaginava então um velho diabo, sentado entre dois sacos, o da vida e o da morte, a tirar as moedas da vida para dá-las à morte, e a contá-las assim:
— Outra de menos...
— Outra de menos...
— Outra de menos...
— Outra de menos...
O mais singular é que, se o relógio parava, eu
dava-lhe corda, para que ele não deixasse de bater
nunca, e eu pudesse contar todos os meus instantes
perdidos. Invenções há, que se transformam ou
acabam; as mesmas instituições morrem; o relógio
é definitivo e perpétuo; o derradeiro homem, ao
despedir-se do sol frio e gasto, há de ter um relógio
na algibeira, para saber a hora exata em que morre.
Naquela noite não padeci essa triste sensação
de enfado, mas outra, e deleitosa. As fantasias
tumultuavam-me cá dentro, vinham umas sobre
outras, à semelhança de devotas que se abalroam
para ver o anjo-cantor das procissões. Não ouvia
os instantes perdidos, mas os minutos ganhados;
de certo tempo em diante não ouvi coisa nenhuma,
porque o meu pensamento, ardiloso e traquinas,
saltou pela janela fora e bateu as asas na direção da
casa de Virgília. Aí achou ao peitoril de uma janela
o pensamento de Virgília, saudaram-se e ficaram
de palestra. Nós a rolarmos na cama, talvez com frio, necessitados de repouso, e os dois vadios ali
postos, a repetirem o velho diálogo de Adão e Eva.
(Machado de Assis. Memórias Póstumas de Brás
Cubas. 28 Ed. São Paulo: Ática, 2004, p. 84)