Questões de Concurso
Sobre português para cesgranrio
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MANDE SEU FUNCIONÁRIO PARA O MAR
Tudo que o aventureiro americano Yvon Chouinard
faz contraria dez entre dez livros de negócios. Dono de
fábrica de roupas e artigos esportivos, ele pergunta a
seus clientes, numa etiqueta estampada em cada roupa:
5 você realmente precisa disto? Alpinista de renome,
surfista e ativista ecológico, ele se levanta de sua mesa
e incita os 350 funcionários da sede da empresa, na
cidade de Ventura, na Califórnia, a deixar seus postos
e pegar suas pranchas de surfe tão logo as ondas
10 sobem. Aos 67 anos de idade, ele vai junto. Resultado:
a empresa, que faturou US$ 270 milhões em 2006, foi
considerada pela revista Fortune a mais cool do mundo,
em uma reportagem de capa.
Isso não quer dizer que seus funcionários sejam
15 preguiçosos, apesar do ambiente maneiro. A equipe é
motivada e gabaritada, como o perfeccionismo do dono
exige. Para cada vaga que abre, a companhia recebe
cerca de 900 currículos - como o do jovem Scott
Robinson, de 26 anos, que, com dois MBAs no bolso e
20 passagens por outras empresas, implorou para ser
aceito como estoquista de uma das lojas (ganhou o
posto). Robinson justificou: "Queria trabalhar numa
companhia conduzida por valores". Que valores são
esses? "Negócios podem ser lucrativos sem perder a
25 alma", diz Chouinard.
Essa alma está no parque de Yosemite, onde, nos
anos 60, Chouinard se reunia com a elite do alpinismo
para escalar paredões de granito. Foi quando começou
a fabricar pinos de escalada de alumínio, reutilizáveis,
30 uma novidade. Vendia-os a US$ 1,50. Em 1972, nascia
a empresa, com o objetivo de criar roupas para esportes
mais duráveis e de pouco impacto ao meio ambiente.
A filosofia do alpinismo - não importa só aonde você
chega, mas como você chega - foi adotada nos
35 negócios. O lucro não seria uma meta, mas a
conseqüência do trabalho bem-feito. A empresa foi
pioneira no uso de algodão orgânico (depois adotado
por outras marcas), fabricou jaquetas com garrafas
plásticas usadas e passou a utilizar poliéster reciclado.
40 Hoje, o filho de Chouinard, Fletcher, de 31 anos,
desenvolve pranchas de surfe sem materiais tóxicos
que diz serem mais leves e resistentes que as atuais.
Chouinard, que se define como um antiempresário, virou
tema de estudo em escolas de negócios. Quando dá
45 palestras em Stanford ou Harvard, não sobra lugar.
Nem de pé.
Revista Época Negócios. jun. 2007. (Adaptado)
MANDE SEU FUNCIONÁRIO PARA O MAR
Tudo que o aventureiro americano Yvon Chouinard
faz contraria dez entre dez livros de negócios. Dono de
fábrica de roupas e artigos esportivos, ele pergunta a
seus clientes, numa etiqueta estampada em cada roupa:
5 você realmente precisa disto? Alpinista de renome,
surfista e ativista ecológico, ele se levanta de sua mesa
e incita os 350 funcionários da sede da empresa, na
cidade de Ventura, na Califórnia, a deixar seus postos
e pegar suas pranchas de surfe tão logo as ondas
10 sobem. Aos 67 anos de idade, ele vai junto. Resultado:
a empresa, que faturou US$ 270 milhões em 2006, foi
considerada pela revista Fortune a mais cool do mundo,
em uma reportagem de capa.
Isso não quer dizer que seus funcionários sejam
15 preguiçosos, apesar do ambiente maneiro. A equipe é
motivada e gabaritada, como o perfeccionismo do dono
exige. Para cada vaga que abre, a companhia recebe
cerca de 900 currículos - como o do jovem Scott
Robinson, de 26 anos, que, com dois MBAs no bolso e
20 passagens por outras empresas, implorou para ser
aceito como estoquista de uma das lojas (ganhou o
posto). Robinson justificou: "Queria trabalhar numa
companhia conduzida por valores". Que valores são
esses? "Negócios podem ser lucrativos sem perder a
25 alma", diz Chouinard.
Essa alma está no parque de Yosemite, onde, nos
anos 60, Chouinard se reunia com a elite do alpinismo
para escalar paredões de granito. Foi quando começou
a fabricar pinos de escalada de alumínio, reutilizáveis,
30 uma novidade. Vendia-os a US$ 1,50. Em 1972, nascia
a empresa, com o objetivo de criar roupas para esportes
mais duráveis e de pouco impacto ao meio ambiente.
A filosofia do alpinismo - não importa só aonde você
chega, mas como você chega - foi adotada nos
35 negócios. O lucro não seria uma meta, mas a
conseqüência do trabalho bem-feito. A empresa foi
pioneira no uso de algodão orgânico (depois adotado
por outras marcas), fabricou jaquetas com garrafas
plásticas usadas e passou a utilizar poliéster reciclado.
40 Hoje, o filho de Chouinard, Fletcher, de 31 anos,
desenvolve pranchas de surfe sem materiais tóxicos
que diz serem mais leves e resistentes que as atuais.
Chouinard, que se define como um antiempresário, virou
tema de estudo em escolas de negócios. Quando dá
45 palestras em Stanford ou Harvard, não sobra lugar.
Nem de pé.
Revista Época Negócios. jun. 2007. (Adaptado)
MANDE SEU FUNCIONÁRIO PARA O MAR
Tudo que o aventureiro americano Yvon Chouinard
faz contraria dez entre dez livros de negócios. Dono de
fábrica de roupas e artigos esportivos, ele pergunta a
seus clientes, numa etiqueta estampada em cada roupa:
5 você realmente precisa disto? Alpinista de renome,
surfista e ativista ecológico, ele se levanta de sua mesa
e incita os 350 funcionários da sede da empresa, na
cidade de Ventura, na Califórnia, a deixar seus postos
e pegar suas pranchas de surfe tão logo as ondas
10 sobem. Aos 67 anos de idade, ele vai junto. Resultado:
a empresa, que faturou US$ 270 milhões em 2006, foi
considerada pela revista Fortune a mais cool do mundo,
em uma reportagem de capa.
Isso não quer dizer que seus funcionários sejam
15 preguiçosos, apesar do ambiente maneiro. A equipe é
motivada e gabaritada, como o perfeccionismo do dono
exige. Para cada vaga que abre, a companhia recebe
cerca de 900 currículos - como o do jovem Scott
Robinson, de 26 anos, que, com dois MBAs no bolso e
20 passagens por outras empresas, implorou para ser
aceito como estoquista de uma das lojas (ganhou o
posto). Robinson justificou: "Queria trabalhar numa
companhia conduzida por valores". Que valores são
esses? "Negócios podem ser lucrativos sem perder a
25 alma", diz Chouinard.
Essa alma está no parque de Yosemite, onde, nos
anos 60, Chouinard se reunia com a elite do alpinismo
para escalar paredões de granito. Foi quando começou
a fabricar pinos de escalada de alumínio, reutilizáveis,
30 uma novidade. Vendia-os a US$ 1,50. Em 1972, nascia
a empresa, com o objetivo de criar roupas para esportes
mais duráveis e de pouco impacto ao meio ambiente.
A filosofia do alpinismo - não importa só aonde você
chega, mas como você chega - foi adotada nos
35 negócios. O lucro não seria uma meta, mas a
conseqüência do trabalho bem-feito. A empresa foi
pioneira no uso de algodão orgânico (depois adotado
por outras marcas), fabricou jaquetas com garrafas
plásticas usadas e passou a utilizar poliéster reciclado.
40 Hoje, o filho de Chouinard, Fletcher, de 31 anos,
desenvolve pranchas de surfe sem materiais tóxicos
que diz serem mais leves e resistentes que as atuais.
Chouinard, que se define como um antiempresário, virou
tema de estudo em escolas de negócios. Quando dá
45 palestras em Stanford ou Harvard, não sobra lugar.
Nem de pé.
Revista Época Negócios. jun. 2007. (Adaptado)
Acostumar-se a tudo?
A gente se acostuma praticamente a tudo.
Isso é bom? Isso é ruim?
A resposta – inevitável – é: isso é bom e é ruim.
Senão, vejamos. Nossa elasticidade, nossa capa-
5 cidade de adaptação, tem permitido que sobrevivamos em
condições muitas vezes bastante adversas.
Lembro-me de que o escritor francês Saint-Exupéry
contou, uma vez, sobre como o avião caiu em cima de
montanhas geladas e como o piloto conseguiu sobreviver
10 durante vários dias, enfrentando o frio, a fome, a dor e
inúmeros perigos, adaptando-se às circunstâncias para,
na medida do possível, poder dominá-las.
Nunca esquecerei o justificado orgulho com que ele
falou: “O que eu fiz, nenhum bicho jamais faria”.
15 Por outro lado, a capacidade de adaptação pode
funcionar como mola propulsora de um mecanismo
oportunista, de uma facilitação resignada à aceitação de
coisas inaceitáveis.
É um fenômeno que, infelizmente, não é raro.
20 Acontece nas melhores famílias. Pode estar acontecendo
agora mesmo, com você, que está lendo este jornal.
Quando nos acostumamos a ver o que se passa
em volta e começamos a achar que tudo é “normal”,
deixamos de enxergar as “anormalidades”, deixamos de
25 nos assustar e de nos preocupar com elas.
O poeta espanhol Federico Garcia Lorca esteve nos
Estados Unidos em 1929/1930 e ficou assustado com
Nova York. Enquanto os turistas, como nós, ficam maravilhados
com a imponência dos prédios, Lorca se referia a
30 eles como “montanhas de cimento”.
Enquanto os turistas admiram a qualidade da
comida nos magníficos restaurantes, Lorca se espantava
com o fato de ninguém se escandalizar com a matança
dos animais. (...)
35 A insensibilidade se generaliza, a indiferença em
relação aos animais se estende, inexoravelmente, aos
seres humanos. A mesma máquina que tritura os animais
esmaga as vacas e sufoca os seres humanos.
Lorca interpela os que se beneficiam com esse
40 sistema, investe contra a contabilidade deles: “Embaixo
das multiplicações / há uma gota de sangue de pato. /
Embaixo das divisões, há uma gota de sangue de
marinheiro”.
Acusa os detentores do poder e da riqueza de
45 camuflarem a dura realidade social para fazê-la aparecer
apenas como espaço de rudes entretenimentos e
vertiginoso progresso tecnológico. Furioso, brada:
“Cuspo-lhes na cara”.
É possível que alguns aspectos da reação do poeta
50 nos pareçam exagerados, unilaterais. Afinal, Nova York
também é lugar de cultura, tem museus maravilhosos,
encena peças magníficas, faz um excelente cinema,
apresenta espetáculos musicais fantásticos.
O exagero, porém, ajuda Garcia Lorca a chamar
55 a nossa atenção para o “lado noturno” dessa “face
luminosa” de Nova York. E Nova York, no caso, vale
como símbolo das contradições que estão enraizadas
em praticamente todas as grandes cidades modernas.
Os habitantes dessas cidades tendem a fixar sua
60 atenção em falhas que podem ser sanadas, em defeitos
que podem ser superados, em feridas que podem ser
curadas por um tratamento tópico.
Falta-lhes a percepção de que determinadas
questões só poderiam ser efetivamente resolvidas por
65 uma mudança radical, através de um novo modelo.
Só um modelo novo de cidade permitirá que sejam
pensadas e postas em prática soluções para os impasses
a que chegaram as nossas megalópoles.
O que é pior do que ter graves problemas? É ter
70 graves problemas e se recusar a reconhecê-los.
A condenação do poeta levanta questões para as
quais não temos, atualmente, soluções viáveis. Lorca nos
presta, contudo, o relevante serviço de nos cobrar que as
encaremos.
KONDER, Leandro. Jornal do Brasil. 26 maio 2005.
Assinale a opção em que o par de orações NÃO apresenta transformação da voz verbal.
Acostumar-se a tudo?
A gente se acostuma praticamente a tudo.
Isso é bom? Isso é ruim?
A resposta – inevitável – é: isso é bom e é ruim.
Senão, vejamos. Nossa elasticidade, nossa capa-
5 cidade de adaptação, tem permitido que sobrevivamos em
condições muitas vezes bastante adversas.
Lembro-me de que o escritor francês Saint-Exupéry
contou, uma vez, sobre como o avião caiu em cima de
montanhas geladas e como o piloto conseguiu sobreviver
10 durante vários dias, enfrentando o frio, a fome, a dor e
inúmeros perigos, adaptando-se às circunstâncias para,
na medida do possível, poder dominá-las.
Nunca esquecerei o justificado orgulho com que ele
falou: “O que eu fiz, nenhum bicho jamais faria”.
15 Por outro lado, a capacidade de adaptação pode
funcionar como mola propulsora de um mecanismo
oportunista, de uma facilitação resignada à aceitação de
coisas inaceitáveis.
É um fenômeno que, infelizmente, não é raro.
20 Acontece nas melhores famílias. Pode estar acontecendo
agora mesmo, com você, que está lendo este jornal.
Quando nos acostumamos a ver o que se passa
em volta e começamos a achar que tudo é “normal”,
deixamos de enxergar as “anormalidades”, deixamos de
25 nos assustar e de nos preocupar com elas.
O poeta espanhol Federico Garcia Lorca esteve nos
Estados Unidos em 1929/1930 e ficou assustado com
Nova York. Enquanto os turistas, como nós, ficam maravilhados
com a imponência dos prédios, Lorca se referia a
30 eles como “montanhas de cimento”.
Enquanto os turistas admiram a qualidade da
comida nos magníficos restaurantes, Lorca se espantava
com o fato de ninguém se escandalizar com a matança
dos animais. (...)
35 A insensibilidade se generaliza, a indiferença em
relação aos animais se estende, inexoravelmente, aos
seres humanos. A mesma máquina que tritura os animais
esmaga as vacas e sufoca os seres humanos.
Lorca interpela os que se beneficiam com esse
40 sistema, investe contra a contabilidade deles: “Embaixo
das multiplicações / há uma gota de sangue de pato. /
Embaixo das divisões, há uma gota de sangue de
marinheiro”.
Acusa os detentores do poder e da riqueza de
45 camuflarem a dura realidade social para fazê-la aparecer
apenas como espaço de rudes entretenimentos e
vertiginoso progresso tecnológico. Furioso, brada:
“Cuspo-lhes na cara”.
É possível que alguns aspectos da reação do poeta
50 nos pareçam exagerados, unilaterais. Afinal, Nova York
também é lugar de cultura, tem museus maravilhosos,
encena peças magníficas, faz um excelente cinema,
apresenta espetáculos musicais fantásticos.
O exagero, porém, ajuda Garcia Lorca a chamar
55 a nossa atenção para o “lado noturno” dessa “face
luminosa” de Nova York. E Nova York, no caso, vale
como símbolo das contradições que estão enraizadas
em praticamente todas as grandes cidades modernas.
Os habitantes dessas cidades tendem a fixar sua
60 atenção em falhas que podem ser sanadas, em defeitos
que podem ser superados, em feridas que podem ser
curadas por um tratamento tópico.
Falta-lhes a percepção de que determinadas
questões só poderiam ser efetivamente resolvidas por
65 uma mudança radical, através de um novo modelo.
Só um modelo novo de cidade permitirá que sejam
pensadas e postas em prática soluções para os impasses
a que chegaram as nossas megalópoles.
O que é pior do que ter graves problemas? É ter
70 graves problemas e se recusar a reconhecê-los.
A condenação do poeta levanta questões para as
quais não temos, atualmente, soluções viáveis. Lorca nos
presta, contudo, o relevante serviço de nos cobrar que as
encaremos.
KONDER, Leandro. Jornal do Brasil. 26 maio 2005.
Em "Afinal, Nova York também é lugar de cultura," (l. 50-51), o termo destacado introduz um novo período, atribuindo a este, em relação ao anterior, a noção de:
Acostumar-se a tudo?
A gente se acostuma praticamente a tudo.
Isso é bom? Isso é ruim?
A resposta – inevitável – é: isso é bom e é ruim.
Senão, vejamos. Nossa elasticidade, nossa capa-
5 cidade de adaptação, tem permitido que sobrevivamos em
condições muitas vezes bastante adversas.
Lembro-me de que o escritor francês Saint-Exupéry
contou, uma vez, sobre como o avião caiu em cima de
montanhas geladas e como o piloto conseguiu sobreviver
10 durante vários dias, enfrentando o frio, a fome, a dor e
inúmeros perigos, adaptando-se às circunstâncias para,
na medida do possível, poder dominá-las.
Nunca esquecerei o justificado orgulho com que ele
falou: “O que eu fiz, nenhum bicho jamais faria”.
15 Por outro lado, a capacidade de adaptação pode
funcionar como mola propulsora de um mecanismo
oportunista, de uma facilitação resignada à aceitação de
coisas inaceitáveis.
É um fenômeno que, infelizmente, não é raro.
20 Acontece nas melhores famílias. Pode estar acontecendo
agora mesmo, com você, que está lendo este jornal.
Quando nos acostumamos a ver o que se passa
em volta e começamos a achar que tudo é “normal”,
deixamos de enxergar as “anormalidades”, deixamos de
25 nos assustar e de nos preocupar com elas.
O poeta espanhol Federico Garcia Lorca esteve nos
Estados Unidos em 1929/1930 e ficou assustado com
Nova York. Enquanto os turistas, como nós, ficam maravilhados
com a imponência dos prédios, Lorca se referia a
30 eles como “montanhas de cimento”.
Enquanto os turistas admiram a qualidade da
comida nos magníficos restaurantes, Lorca se espantava
com o fato de ninguém se escandalizar com a matança
dos animais. (...)
35 A insensibilidade se generaliza, a indiferença em
relação aos animais se estende, inexoravelmente, aos
seres humanos. A mesma máquina que tritura os animais
esmaga as vacas e sufoca os seres humanos.
Lorca interpela os que se beneficiam com esse
40 sistema, investe contra a contabilidade deles: “Embaixo
das multiplicações / há uma gota de sangue de pato. /
Embaixo das divisões, há uma gota de sangue de
marinheiro”.
Acusa os detentores do poder e da riqueza de
45 camuflarem a dura realidade social para fazê-la aparecer
apenas como espaço de rudes entretenimentos e
vertiginoso progresso tecnológico. Furioso, brada:
“Cuspo-lhes na cara”.
É possível que alguns aspectos da reação do poeta
50 nos pareçam exagerados, unilaterais. Afinal, Nova York
também é lugar de cultura, tem museus maravilhosos,
encena peças magníficas, faz um excelente cinema,
apresenta espetáculos musicais fantásticos.
O exagero, porém, ajuda Garcia Lorca a chamar
55 a nossa atenção para o “lado noturno” dessa “face
luminosa” de Nova York. E Nova York, no caso, vale
como símbolo das contradições que estão enraizadas
em praticamente todas as grandes cidades modernas.
Os habitantes dessas cidades tendem a fixar sua
60 atenção em falhas que podem ser sanadas, em defeitos
que podem ser superados, em feridas que podem ser
curadas por um tratamento tópico.
Falta-lhes a percepção de que determinadas
questões só poderiam ser efetivamente resolvidas por
65 uma mudança radical, através de um novo modelo.
Só um modelo novo de cidade permitirá que sejam
pensadas e postas em prática soluções para os impasses
a que chegaram as nossas megalópoles.
O que é pior do que ter graves problemas? É ter
70 graves problemas e se recusar a reconhecê-los.
A condenação do poeta levanta questões para as
quais não temos, atualmente, soluções viáveis. Lorca nos
presta, contudo, o relevante serviço de nos cobrar que as
encaremos.
KONDER, Leandro. Jornal do Brasil. 26 maio 2005.
O significado da expressão "tratamento tópico" (l. 62) está, no texto, em oposição a:
Acostumar-se a tudo?
A gente se acostuma praticamente a tudo.
Isso é bom? Isso é ruim?
A resposta – inevitável – é: isso é bom e é ruim.
Senão, vejamos. Nossa elasticidade, nossa capa-
5 cidade de adaptação, tem permitido que sobrevivamos em
condições muitas vezes bastante adversas.
Lembro-me de que o escritor francês Saint-Exupéry
contou, uma vez, sobre como o avião caiu em cima de
montanhas geladas e como o piloto conseguiu sobreviver
10 durante vários dias, enfrentando o frio, a fome, a dor e
inúmeros perigos, adaptando-se às circunstâncias para,
na medida do possível, poder dominá-las.
Nunca esquecerei o justificado orgulho com que ele
falou: “O que eu fiz, nenhum bicho jamais faria”.
15 Por outro lado, a capacidade de adaptação pode
funcionar como mola propulsora de um mecanismo
oportunista, de uma facilitação resignada à aceitação de
coisas inaceitáveis.
É um fenômeno que, infelizmente, não é raro.
20 Acontece nas melhores famílias. Pode estar acontecendo
agora mesmo, com você, que está lendo este jornal.
Quando nos acostumamos a ver o que se passa
em volta e começamos a achar que tudo é “normal”,
deixamos de enxergar as “anormalidades”, deixamos de
25 nos assustar e de nos preocupar com elas.
O poeta espanhol Federico Garcia Lorca esteve nos
Estados Unidos em 1929/1930 e ficou assustado com
Nova York. Enquanto os turistas, como nós, ficam maravilhados
com a imponência dos prédios, Lorca se referia a
30 eles como “montanhas de cimento”.
Enquanto os turistas admiram a qualidade da
comida nos magníficos restaurantes, Lorca se espantava
com o fato de ninguém se escandalizar com a matança
dos animais. (...)
35 A insensibilidade se generaliza, a indiferença em
relação aos animais se estende, inexoravelmente, aos
seres humanos. A mesma máquina que tritura os animais
esmaga as vacas e sufoca os seres humanos.
Lorca interpela os que se beneficiam com esse
40 sistema, investe contra a contabilidade deles: “Embaixo
das multiplicações / há uma gota de sangue de pato. /
Embaixo das divisões, há uma gota de sangue de
marinheiro”.
Acusa os detentores do poder e da riqueza de
45 camuflarem a dura realidade social para fazê-la aparecer
apenas como espaço de rudes entretenimentos e
vertiginoso progresso tecnológico. Furioso, brada:
“Cuspo-lhes na cara”.
É possível que alguns aspectos da reação do poeta
50 nos pareçam exagerados, unilaterais. Afinal, Nova York
também é lugar de cultura, tem museus maravilhosos,
encena peças magníficas, faz um excelente cinema,
apresenta espetáculos musicais fantásticos.
O exagero, porém, ajuda Garcia Lorca a chamar
55 a nossa atenção para o “lado noturno” dessa “face
luminosa” de Nova York. E Nova York, no caso, vale
como símbolo das contradições que estão enraizadas
em praticamente todas as grandes cidades modernas.
Os habitantes dessas cidades tendem a fixar sua
60 atenção em falhas que podem ser sanadas, em defeitos
que podem ser superados, em feridas que podem ser
curadas por um tratamento tópico.
Falta-lhes a percepção de que determinadas
questões só poderiam ser efetivamente resolvidas por
65 uma mudança radical, através de um novo modelo.
Só um modelo novo de cidade permitirá que sejam
pensadas e postas em prática soluções para os impasses
a que chegaram as nossas megalópoles.
O que é pior do que ter graves problemas? É ter
70 graves problemas e se recusar a reconhecê-los.
A condenação do poeta levanta questões para as
quais não temos, atualmente, soluções viáveis. Lorca nos
presta, contudo, o relevante serviço de nos cobrar que as
encaremos.
KONDER, Leandro. Jornal do Brasil. 26 maio 2005.
Assinale a afirmativa que se comprova no texto.
Acostumar-se a tudo?
A gente se acostuma praticamente a tudo.
Isso é bom? Isso é ruim?
A resposta – inevitável – é: isso é bom e é ruim.
Senão, vejamos. Nossa elasticidade, nossa capa-
5 cidade de adaptação, tem permitido que sobrevivamos em
condições muitas vezes bastante adversas.
Lembro-me de que o escritor francês Saint-Exupéry
contou, uma vez, sobre como o avião caiu em cima de
montanhas geladas e como o piloto conseguiu sobreviver
10 durante vários dias, enfrentando o frio, a fome, a dor e
inúmeros perigos, adaptando-se às circunstâncias para,
na medida do possível, poder dominá-las.
Nunca esquecerei o justificado orgulho com que ele
falou: “O que eu fiz, nenhum bicho jamais faria”.
15 Por outro lado, a capacidade de adaptação pode
funcionar como mola propulsora de um mecanismo
oportunista, de uma facilitação resignada à aceitação de
coisas inaceitáveis.
É um fenômeno que, infelizmente, não é raro.
20 Acontece nas melhores famílias. Pode estar acontecendo
agora mesmo, com você, que está lendo este jornal.
Quando nos acostumamos a ver o que se passa
em volta e começamos a achar que tudo é “normal”,
deixamos de enxergar as “anormalidades”, deixamos de
25 nos assustar e de nos preocupar com elas.
O poeta espanhol Federico Garcia Lorca esteve nos
Estados Unidos em 1929/1930 e ficou assustado com
Nova York. Enquanto os turistas, como nós, ficam maravilhados
com a imponência dos prédios, Lorca se referia a
30 eles como “montanhas de cimento”.
Enquanto os turistas admiram a qualidade da
comida nos magníficos restaurantes, Lorca se espantava
com o fato de ninguém se escandalizar com a matança
dos animais. (...)
35 A insensibilidade se generaliza, a indiferença em
relação aos animais se estende, inexoravelmente, aos
seres humanos. A mesma máquina que tritura os animais
esmaga as vacas e sufoca os seres humanos.
Lorca interpela os que se beneficiam com esse
40 sistema, investe contra a contabilidade deles: “Embaixo
das multiplicações / há uma gota de sangue de pato. /
Embaixo das divisões, há uma gota de sangue de
marinheiro”.
Acusa os detentores do poder e da riqueza de
45 camuflarem a dura realidade social para fazê-la aparecer
apenas como espaço de rudes entretenimentos e
vertiginoso progresso tecnológico. Furioso, brada:
“Cuspo-lhes na cara”.
É possível que alguns aspectos da reação do poeta
50 nos pareçam exagerados, unilaterais. Afinal, Nova York
também é lugar de cultura, tem museus maravilhosos,
encena peças magníficas, faz um excelente cinema,
apresenta espetáculos musicais fantásticos.
O exagero, porém, ajuda Garcia Lorca a chamar
55 a nossa atenção para o “lado noturno” dessa “face
luminosa” de Nova York. E Nova York, no caso, vale
como símbolo das contradições que estão enraizadas
em praticamente todas as grandes cidades modernas.
Os habitantes dessas cidades tendem a fixar sua
60 atenção em falhas que podem ser sanadas, em defeitos
que podem ser superados, em feridas que podem ser
curadas por um tratamento tópico.
Falta-lhes a percepção de que determinadas
questões só poderiam ser efetivamente resolvidas por
65 uma mudança radical, através de um novo modelo.
Só um modelo novo de cidade permitirá que sejam
pensadas e postas em prática soluções para os impasses
a que chegaram as nossas megalópoles.
O que é pior do que ter graves problemas? É ter
70 graves problemas e se recusar a reconhecê-los.
A condenação do poeta levanta questões para as
quais não temos, atualmente, soluções viáveis. Lorca nos
presta, contudo, o relevante serviço de nos cobrar que as
encaremos.
KONDER, Leandro. Jornal do Brasil. 26 maio 2005.
A partir do texto, interpreta-se a capacidade de adaptação, na vida da sociedade, como:
Acostumar-se a tudo?
A gente se acostuma praticamente a tudo.
Isso é bom? Isso é ruim?
A resposta – inevitável – é: isso é bom e é ruim.
Senão, vejamos. Nossa elasticidade, nossa capa-
5 cidade de adaptação, tem permitido que sobrevivamos em
condições muitas vezes bastante adversas.
Lembro-me de que o escritor francês Saint-Exupéry
contou, uma vez, sobre como o avião caiu em cima de
montanhas geladas e como o piloto conseguiu sobreviver
10 durante vários dias, enfrentando o frio, a fome, a dor e
inúmeros perigos, adaptando-se às circunstâncias para,
na medida do possível, poder dominá-las.
Nunca esquecerei o justificado orgulho com que ele
falou: “O que eu fiz, nenhum bicho jamais faria”.
15 Por outro lado, a capacidade de adaptação pode
funcionar como mola propulsora de um mecanismo
oportunista, de uma facilitação resignada à aceitação de
coisas inaceitáveis.
É um fenômeno que, infelizmente, não é raro.
20 Acontece nas melhores famílias. Pode estar acontecendo
agora mesmo, com você, que está lendo este jornal.
Quando nos acostumamos a ver o que se passa
em volta e começamos a achar que tudo é “normal”,
deixamos de enxergar as “anormalidades”, deixamos de
25 nos assustar e de nos preocupar com elas.
O poeta espanhol Federico Garcia Lorca esteve nos
Estados Unidos em 1929/1930 e ficou assustado com
Nova York. Enquanto os turistas, como nós, ficam maravilhados
com a imponência dos prédios, Lorca se referia a
30 eles como “montanhas de cimento”.
Enquanto os turistas admiram a qualidade da
comida nos magníficos restaurantes, Lorca se espantava
com o fato de ninguém se escandalizar com a matança
dos animais. (...)
35 A insensibilidade se generaliza, a indiferença em
relação aos animais se estende, inexoravelmente, aos
seres humanos. A mesma máquina que tritura os animais
esmaga as vacas e sufoca os seres humanos.
Lorca interpela os que se beneficiam com esse
40 sistema, investe contra a contabilidade deles: “Embaixo
das multiplicações / há uma gota de sangue de pato. /
Embaixo das divisões, há uma gota de sangue de
marinheiro”.
Acusa os detentores do poder e da riqueza de
45 camuflarem a dura realidade social para fazê-la aparecer
apenas como espaço de rudes entretenimentos e
vertiginoso progresso tecnológico. Furioso, brada:
“Cuspo-lhes na cara”.
É possível que alguns aspectos da reação do poeta
50 nos pareçam exagerados, unilaterais. Afinal, Nova York
também é lugar de cultura, tem museus maravilhosos,
encena peças magníficas, faz um excelente cinema,
apresenta espetáculos musicais fantásticos.
O exagero, porém, ajuda Garcia Lorca a chamar
55 a nossa atenção para o “lado noturno” dessa “face
luminosa” de Nova York. E Nova York, no caso, vale
como símbolo das contradições que estão enraizadas
em praticamente todas as grandes cidades modernas.
Os habitantes dessas cidades tendem a fixar sua
60 atenção em falhas que podem ser sanadas, em defeitos
que podem ser superados, em feridas que podem ser
curadas por um tratamento tópico.
Falta-lhes a percepção de que determinadas
questões só poderiam ser efetivamente resolvidas por
65 uma mudança radical, através de um novo modelo.
Só um modelo novo de cidade permitirá que sejam
pensadas e postas em prática soluções para os impasses
a que chegaram as nossas megalópoles.
O que é pior do que ter graves problemas? É ter
70 graves problemas e se recusar a reconhecê-los.
A condenação do poeta levanta questões para as
quais não temos, atualmente, soluções viáveis. Lorca nos
presta, contudo, o relevante serviço de nos cobrar que as
encaremos.
KONDER, Leandro. Jornal do Brasil. 26 maio 2005.
A alusão ao poema e à opinião do poeta Garcia Lorca reforça os argumentos do autor do texto contra:
Organize os períodos abaixo de modo que o resultado componha um texto coerente e coeso.
I – Em relação ao modelo europeu, as alterações são bem discretas.
II – A Renault liberou esta semana as primeiras fotos de seu novo carro.
III – O comunicado oficial da fábrica faz referência apenas ao bom espaço interno do carro.
IV – A maior mudança visual é o pára-choque dianteiro: nesse ponto a versão brasileira é igual à que começou a ser produzida na Índia.
O resultado correto é:
Dentre os fatores que evidenciam o maior planejamento discursivo do texto escrito em relação ao oral se encontra a(o):
Com base nos textos, avalie as afirmativas abaixo sobre as diferenças entre língua falada e língua escrita.
I - Na língua escrita culta, há maior cuidado com a seleção vocabular e com a precisão da informação.
II - Os marcadores discursivos desempenham, na língua oral, função similar à dos conectivos, no texto escrito.
III - Há maior ocorrência de polissemia na fala do que na escrita.
Está(ão) correta(s), somente, a(s) afirmativa(s):
Indique o período que está claro e correto com relação ao uso culto da língua.
Indique a opção em que o par de expressões NÃO corresponde ao tipo de variação lingüística explicitada entre parênteses.
Indique a opção em que a expressão destacada está grafada INCORRETAMENTE.
O trecho "...três conselhos: siga sua vocação, trabalhe em um local estimulante e administre suas finanças." (l. 20-22) está escrito com os três verbos (seguir, trabalhar e administrar) com a mesma marcação modo-temporal porque:
No texto, sequiosas (l.47) – "outras missões sequiosas de excelência." – significa:
No período que vai da linha 37 à 40, a oração reduzida "fazer o bem." (l. 40) pode ser adequadamente parafraseada por:
O texto pode ser dividido em:
I – ilustração sobre tese proposta;
II – argumentação com base em autoridade;
III – exposição de uma tese;
IV – evidência da verdade da tese proposta.
A ordem correta em que se apresentam no texto é: