Transpondo-se para a voz passiva a frase Meu amigo Jaime ...

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Q450207 Português
                                     Memórias de um avestruz literário

        Modéstia à parte, fui um menino bem esquisitinho. Depois, há quem diga, piorei. Não é verdade. Não daria conta de superar em bizarria - em chatice, vá lá - o frangote que fui na puberdade. O turbilhão de hormônios não explica tudo. Não me lembro de ter conhecido um ser que desfiasse o meu vocabulário de então. Talvez o Antônio Houaiss. Não era por acaso que lá no bairro volta e meia alguém me interpelava:
       - Ei, irmão do Rodrigo, vem falar difícil pra gente! 
      Não cheguei a topar provocações, mas certa vez deixei de queixo caído um tio que veio xeretar o que havia no meu prato.

     - O que temos aí? 
     - Lipídios, glicídios e protídeos. 
     Foi o que bastou para ganhar do tio Samuel o apelido, infelizmente efêmero, de Zé Lipídio.
    Ouvia entoar a ave galiforme da família dos fasianídeos - ou, se você prefere, ouvia o galo cantar - e tratava logo de utilizar o vocábulo recém-aprendido, sem o cuidado de saber o que estava dizendo. Arranquei gargalhadas de meu pai com um “diabo aquático” em vez de “diabo a quatro”. Escaldado, tratei de me tornar freguês do dicionário, que até então, como os outros garotos, folheava apenas para garimpar palavrões, com especial atenção aos que designassem acidentes geográficos da anatomia humana.
    Ao contrário dos companheiros, porém, mantive o hábito mesmo depois que pudemos encarar ao vivo o que conhecíamos apenas do dicionário. Só que agora os palavrões, digamos, eram outros: na minha insuportável chatice adolescente, o que eu buscava eram palavras estranhas - abstrusas, diria eu na época - que, jogadas na roda como granada verbal, tivessem o poder de silenciar a audiência ignara. Meu amigo Jaime e eu chegamos a inventar umas tantas, nenhuma delas mais impactante que “cripteriótico”, cujo significado, se é que tinha algum, variava conforme a circunstância em que era disparada. Devo ao Laudelino uma coleção de excentricidades vocabulares que tive o bom senso de jamais utilizar. Mas ainda sei o que é almadraque. Não, não vou traduzir. Vá catar no dicionário, seu alóbrogo.

                                             (Humberto Werneck. Esse inferno vai acabar. Porto Alegre: Arquipélago 
                                                                                                                      Editorial, 2011, pp. 123/124)

Transpondo-se para a voz passiva a frase Meu amigo Jaime e eu chegamos a inventar umas tantas, a forma verbal resultante deverá ser:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: E

Fundamento decisivo: O ponto decisivo é a transposição da locução verbal da ativa para a passiva analítica no trecho "Meu amigo Jaime e eu chegamos a inventar umas tantas": como "inventar" é transitivo direto e "umas tantas" é objeto direto, esse complemento passa a sujeito paciente, e a locução deve ser reestruturada com "ser" + particípio, preservando o valor verbal; por isso, a forma correta é "chegaram a ser inventadas".

Tema central: voz passiva verbal
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque "chegaram-nos a inventar-se" não corresponde à transposição da frase para a voz passiva. A forma introduz o pronome "nos", inexistente na estrutura original, usa "inventar-se" sem base sintática e produz reestruturação inadequada da oração.
B
Errada
Está errada porque "chegou-se a inventá-las" não forma a passiva analítica pedida. A construção fica na 3ª pessoa do singular, usa "se" e mantém "las" como objeto direto, ou seja, não promove "umas tantas" a sujeito paciente.
C
Errada
Está errada porque altera o tempo verbal: o original traz pretérito perfeito do indicativo em "chegamos", e a alternativa usa futuro do pretérito em "chegariam". Além disso, "inventar-se" não representa corretamente a passagem de "umas tantas" para sujeito paciente.
D
Errada
Está errada porque "chegamos a tê-las inventado" mantém a oração na voz ativa. A presença de particípio não basta para formar voz passiva, e aqui o objeto continua retomado por pronome, sem conversão em sujeito paciente.
E
Certa
A alternativa E está correta porque realiza exatamente a passagem exigida: o objeto direto "umas tantas" torna-se sujeito paciente, a locução "chegamos a inventar" passa para a forma passiva analítica "chegaram a ser inventadas", e a concordância se ajusta ao novo sujeito, que é plural, com particípio no feminino plural.
Pegadinha da questão
A banca explora principalmente a confusão entre voz passiva analítica e construções com "se", além da tendência de manter a concordância com o sujeito agente original em vez de fazê-la com o novo sujeito paciente.
Dica para questões semelhantes
  • Localize o verbo transitivo direto e confirme qual termo é o objeto direto passivável.
  • Na passagem para a passiva analítica, transforme o objeto direto em sujeito paciente e reestruture a locução com "ser" + particípio.
  • Depois da transposição, refaça a concordância pelo novo sujeito paciente, não pelo agente da ativa.
  • Elimine alternativas que apenas usam "se" ou particípio, mas não convertem de fato a oração para a voz passiva.

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ALTERNATIVA E

Umas tantas formas chegaram a ser inventadas por meu amigo Jaime e eu.

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